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No tópico anterior, buscamos retratar como o “sem-fronteiras” é valor inscrito no discurso que faz laço social e agencia as práticas sociais; a visão global que a jornada espacial encerra em uma imagem está em um mundo que não se vê mais como dividido em blocos, está na noção de sistema, está na problemática ambiental, e deverá estar no humano cujas formas de reconhecimento de si estão moduladas

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O termo humanidade já apresentava essa característica de comportar a todos indistintamente, o que parece ser diferente é que o estar diante da Terra produziria um fechamento da imagem (Gestalt), passamos a nos reconhecer, e a responder, como globais.

pela estruturação do laço social; neste tópico, tentaremos navegar pela porção afetiva dessa modalidade global, também enredados pela experiência lunática.

As histórias contadas pelos astronautas que passaram pela experiência da visão da Terra do espaço podem ser consideradas como narrativas de fronteira, experiências onde está em causa o fronteiriço. A operação simbólica implicada nelas não pode ser desprezada. Como chama atenção Lacan: “entendam que brinco com o cristal da língua para refratar do significante aquilo que divide o sujeito”; e faz a brincadeira: “lhes conto um ‘causo’ em francês, não lhes causo tristeza, espero” (LACAN, 2003, p. 425). As antigas crenças que estão presentes nestas narrativas mobilizam determinados afetos que se vinculam às experiências produzindo miragens ou efeitos emocionais específicos, como em uma alegoria. Isto pode ser verificado em outras experiências, como nas miragens de oásis no deserto, nos “causos” contados por pessoas do campo e nas “histórias de pescador”, como chamamos no Brasil os contos de veracidade questionável – e que se aproximam do fantástico.

Frank White (1987) foi quem primeiramente tentou conceituar um aspecto que percebeu nas narrativas dos diversos astronautas que foram submetidos a essa experiência, chamando-o de overview effect37. Baseado em entrevistas com os astronautas, este autor identificou que a maior parte deles mencionava experiências transformadoras sobre o “senso de maravilha e temor (wonder and awe), unidade com a natureza, transcendência e irmandade universal” (Vakoch, 2012, apud Yarden et al., 2016). Yarden et al. (2016) depreendem ainda que pode ser constatado em alguns astronautas um “renovado senso de propósito” (Ibidem, p. 3) e que há “alguma coisa única e profunda sobre ver e contemplar a Terra à distância” (Ibidem, p. 3). Poderíamos pensar este efeito como extraordinário não necessariamente por ser extraterrestre, mas por sua raridade; são pouquíssimas as pessoas que efetivamente tenham passado por essa experiência in loco. No entanto, o próprio White refere que não parece ser algo muito diferente dos relatos de pessoas em experiências de “visões de grandes imensidões, tal como do pico de montanhas” (WHITE, 1987, p. 1, apud YARDEN et al., 2016). A diferença residiria, na

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Não encontramos na literatura discussão sobre isso em português, mas um recente trabalho intitulado The Overview Effect: awe and self-transcendent experience in space flight, (Yarden et al., 2016), faz um estado da arte da literatura produzida a respeito na língua inglesa, e por isso é utilizado como a base para nossa análise. Todas as citações dele provenientes são em livre tradução.

perspectiva desses autores, na intensidade; eles pensam a visão da Terra do espaço como uma “versão da quintessência dessa experiência” (WHITE, 1987, p. 1,

apud YARDEN et al., 2016). Se por um lado a fronteira da órbita da Terra é um limite

raramente ultrapassado por humanos, o efeito relatado nos parece dizer respeito a uma manifestação bastante antiga. Podemos encontrar, por exemplo, na Teogonia de Hesíodo, sob o nome de numinoso:

um discurso sobre a experiência do Sagrado, um discurso sobre o que não deve e não pode ser dito, quer por ser motivo do mais desgraçado horror (o Nefando), quer por ser objeto da mais sublime vivência (o Inefável) (HESÍODO, 1995, p. 8).

Essa experiência dual nefando-inefável encontrada na literatura da Antiguidade já retrata aquela dualidade que tentamos destacar com aterrador- formidável presente na experiência do estranho e acreditamos estar presente na crise ambiental de nossa sociedade de risco. De fato, não precisamos retroceder tanto para compreender o overview effect. Freud, em O Mal-estar na Civilização, retoma uma discussão iniciada com O Futuro de uma Ilusão em que descreve as origens das ideias religiosas. No entanto, é confrontado por Romain Rolland sobre a verdadeira origem da religiosidade: “Trata-se de um sentimento que ele gostaria de designar como uma sensação de ‘eternidade’, um sentimento de algo ilimitado, sem fronteiras – ‘oceânico’, por assim dizer” (FREUD, 1930/2006, p. 73). E continua sua descrição: “[não se trata de] um artigo de fé; não traz consigo qualquer garantia de imortalidade pessoal, mas constitui a fonte da energia religiosa [...] (Ibidem, p. 73). E conclui evocando a frase do dramaturgo pessimista Grabbe (1801 – 1836): “Não podemos pular para fora deste mundo” (Ibidem, p. 74). É certo que não havia astronautas nessa época.

No entanto, é interessante notar a metáfora náutica presente em sua descrição para um sentimento que romperia as fronteiras do tempo (sensação de eternidade) e do espaço (sem fronteiras). O oceano, à época de Freud, era o elemento que mais imediatamente poderia representar esse algo ilimitado, uma vastidão e incomensurabilidade sem fronteiras que se tenta transmitir nessa ideia. Essa comparação é bastante apropriada quando estamos pensando que a visão da Terra do espaço a posiciona em um lugar cercado pela imensidão do “oceano”

sideral. O overview effect pode ser pensado desde essa categoria de sentimento oceânico, hiperbólico, contudo, atualizado em um sentimento sideral.

Todavia, a tese freudiana insiste que este sentimento esteve sempre aí, que a relação de ligação imediata com o mundo é nossa experiência inicial de mundo, sendo o ego um desenvolvimento tardio. O humano, ao nascer, não distingue um mundo exterior, é a experiência de estar no mundo que vai configurando uma diferenciação entre interno e externo, define os limites do eu e do exterior.

numa expressão mais correta, originalmente o ego inclui tudo; posteriormente, separa, de si mesmo, um mundo externo. Nosso presente sentimento do ego não passa, portanto, de apenas um mirrado resíduo de um sentimento muito mais inclusivo – na verdade, totalmente abrangente -, que corresponde a um vínculo mais íntimo entre o ego e o mundo que o cerca. Supondo que há muitas pessoas em cuja vida mental esse sentimento primário do ego persistiu em maior ou menor grau, ele existiria nelas ao lado do sentimento do ego mais estrito e mais nitidamente demarcado da maturidade, como uma espécie de correspondente seu. Nesse caso, o conteúdo ideacional a ele apropriado seria exatamente o de ilimitabilidade e o de um vínculo com o universo – as mesmas ideias com que meu amigo elucidou o sentimento ‘oceânico’. (Ibidem, p. 77)

Dentro dessa perspectiva, as crenças religiosas, ou qualquer outra crença que faça o revestimento simbólico para nomear esse sentimento, são derivadas dele. Para Freud, a verdadeira “origem da atitude religiosa” (Ibidem, p. 81) como ilusão recobridora que permite dizer sobre a sensação de estar ligado ao universo, reside no desamparo inicial. Neste sentido, a visão da Terra do espaço pode ser compreendida como uma experiência limítrofe que toca nesta antiga fronteira eu- mundo, ou, como preferimos, serve de alegoria para retratar um momento, na Terra, em que a visão de mundo está em transformação, uma transformação que coloca o desamparo em causa, em que as fronteiras estão se decompondo como referência dentro de um processo de trocas sociais em que o “sem-fronteiras” assume novo valor de relacionamento com o mundo. Este relacionamento, contudo, traz junto seu avesso aterrador. O exemplo mais próximo que podemos oferecer é a própria concepção de riscos da modernidade reflexiva, que são riscos que não respeitam fronteiras espaciais, geopolíticas, e temporais (BECK, 2010).

É possível pensar, a partir dessas narrativas de navegação, a crise ambiental como problema social que toca a todos, atinge esse sentimento de mundo, não religiosamente, porque somos esclarecidos, mas tecnocientificamente.