Caracterizar a instituição na qual esta pesquisa foi realizada torna-se relevante, pois foi o desenvolvimento da proposta filosófico-pedagógica desse colégio que possibilitou a inserção da aula de Filosofia para crianças, o que foi o ponto de referência inicial para o início deste estudo. Além disso, outras ações adotadas possibilitaram a formação da pesquisadora, já que oportunizaram esta investigação.
4.2.1 O Colégio Albert Sabin
O Colégio Albert Sabin é uma instituição particular fundada em 1994, situada na zona oeste da cidade de São Paulo, com aproximadamente 2600 alunos, desde a educação infantil até o ensino médio. Inicialmente projetado para aproximadamente 600 estudantes, iniciou o seu primeiro ano letivo com mais de 1000, devido ao
grande interesse e procura dos moradores da região, superando, assim, as expectativas de todos.
Em função disso, durante o ano de 1994, foi construído o segundo prédio que abrigaria o ensino fundamental II (do 6º ao 9º ano). A construção do terceiro prédio aconteceu durante o ano de 1997, estando concluído para o uso no ano letivo de 1998, para abrigar o ensino médio e mais duas quadras esportivas. Em 2003, tomou-se a decisão de construir o quarto prédio para abrigar e proporcionar maior comodidade aos usuários do refeitório, da biblioteca, agregando também o anfiteatro, a piscina aquecida, o setor de serviços, a papelaria e a loja de uniformes. É uma escola, na qual o relacionamento com as famílias está pautado no respeito, na clareza de ideias, de intenções e na transparência das atitudes. Entre seus objetivos, o principal é proporcionar aos alunos e suas famílias um local em que se concentrem qualidade de ensino, competência, compromisso, prazer e respeito.
Figura 6: Vistas panorâmica e frontal do Colégio Albert Sabin
4.2.2 Proposta Pedagógica
O Colégio Albert Sabin tem uma proposta pedagógica inspirada na concepção sociointeracionista, cuja abordagem é propiciar acesso ao conhecimento socialmente produzido e acumulado pelos homens ao longo da História, por meio de uma grade curricular sistematizada, que visa garantir o pensamento global, o debate de ideias, a convivência e o respeito como elementos fundamentais no processo de ensino-aprendizagem.
Para o colégio, uma pessoa bem formada deve ser capaz de perceber, sentir, transformar, adaptar, captar, reformular os conhecimentos intelectuais e as experiências vividas. Isso, porque, para o colégio Albert Sabin o objetivo é formar agentes gerenciadores de informações e não meros acumuladores, tendo como pressuposto que aprender é construir significados e ensinar é dar oportunidade para essa construção.
Ao longo do processo pedagógico, o Colégio Albert Sabin empenha-se para que o aluno tenha um crescimento integral que possibilite uma autonomia intelectual, assim como um bom nível de informações, acompanhado de uma capacidade de reflexão, preparando-o para uma escolha profissional consciente. A preocupação não tange só a esfera acadêmica, mas perpassa por um posicionamento frente ao mundo globalizado, no qual o ser humano deve ser capaz de posicionar-se, rever- se, respeitar diferenças, conviver com elas, capacitando-o para contribuir e participar, de forma crítica e criativa, no meio em que vive.
Na escola, tão importante quanto ler o mundo e a interagir com ele, deve estar presente um intenso e constante exercício de interação entre as pessoas, para desenvolvimento da verbalização das próprias ideias, os exercícios de argumentação, o confronto pacífico de diferentes visões, o trabalho cooperativo e o convívio solidário.
Considerando que o colégio tem sua filosofia educacional apoiada em quatro pilares: excelência acadêmica, proficiência no idioma inglês, qualidade de vida (por meio do incentivo à prática de esportes, arte e cultura) e encantamento, as aulas de Filosofia se inserem no currículo de forma globalizante, pois visam permear as interações sociais, tendo como pressuposto que o processo de ensino- aprendizagem implica a construção de significados e a promoção de oportunidades para essa construção.
4.2.3 A proposta teórico-metodológica e o ensino de Filosofia nas séries iniciais
Em 1997, três anos após a inauguração do colégio, a equipe de Gestão e Coordenação optou em retirar uma das sete aulas semanais de Matemática e
agregar à grade curricular do 2º ao 5º ano do ensino fundamental, uma aula semanal de Filosofia, disciplina a qual não é atribuída nota, dado o seu objetivo nessas séries.
Para inserção da disciplina no currículo escolar, foram ministrados cursos de capacitação pelo Centro Brasileiro de Filosofia para Crianças (CBFC), para todas as professoras regentes das séries acima mencionadas, grupo do qual a pesquisadora fazia parte como professora do 5º ano. Em 1997, o curso versava sobre “Educação para o Pensar” e, em 2000, o estudo envolveu o “Diálogo Filosófico”.
Desde o início foi oferecida a assessoria do CBFC, por meio da monitoria da professora Tanny Plantier Marques de Almeida, que, frequentemente, acompanhava algumas aulas, orientava planejamentos, atividades e sessões reflexivas. Essa assessoria habilitava o grupo de professores regentes à aplicação de Filosofia para crianças, possibilitando o acesso às novelas e aos manuais do programa.
A assessoria externa com o CBFC foi mantida até o ano de 2002, quando se passou a organizar, discutir e planejar as aulas, com livros de literatura infantis, entre o grupo de professoras. Essa decisão ocorreu pela percepção de que as novelas americanas traduzidas para o português afastavam-se das características sócio-culturais do contexto. Certas indagações despertadas pelas personagens das novelas americanas eram tomadas como banais ou muito distantes das verdadeiras inquietações dos alunos.
Posteriormente, ficou perceptível que a opção tomada foi correta, pois o envolvimento e a proximidade de conflitos, de atitudes e dos comportamentos das personagens narrados nas histórias, selecionadas com objetivos intencionais pelas professoras, aumentaram o interesse e o envolvimento com os temas discutidos pelas crianças.
É oportuno ressaltar que, embora a coordenação do colégio e o grupo de professores optassem pela interrupção da assessoria com o CBFC, o mesmo não ocorreu com a continuidade das aulas de Filosofia que permanecem na grade curricular, com a releitura e as adaptações produzidas pelo grupo de professores e coordenação.
17 Os anos mencionados referem-se ao ensino fundamental de nove anos, correspondendo às
As novelas filosóficas e os manuais com roteiros de questionamentos e atividades não são mais utilizados, o grupo de professoras e a assessora escolhem livros literários ou vídeos que sejam pertinentes aos possíveis temas/assuntos desejados. Para isso, consideram as necessidades do grupo-série, seja por meio de possíveis conflitos, como também por situações trazidas pelas crianças ou perceptíveis pela equipe de professores e coordenação.
Toda metodologia e sua aplicação passam invariavelmente por adaptações e/ou transformações. Se o que antes era uma opção filosófico-metodológica, passou a ser, desde o momento do ingresso da pesquisadora no GP LACE, uma escolha fundamentada no aporte teórico que sustenta esta pesquisa. A troca do material didático anterior por livros paradidáticos e planejamentos elaborados pelas professoras fez do grupo docente e discente, agentes e co-produtores das ações ocorridas nas aulas.
Esta pesquisa parte da concepção de linguagem como fonte constituinte e central de toda transformação subjetiva e objetiva. Acredita no espaço da aula analisada como possibilidade de promover voz e vez a todos os participantes, por meio da argumentação nas situações de discussões sobre os temas filosóficos e, também, pós performance, como possibilidade de formação do agir crítico-reflexivo. Salienta-se, portanto, a argumentação colaborativa (MAGALHÃES, 2007 e LIBERALI, 2007), pois se entende que mesmo havendo discordâncias e divergências de ponto de vista, a relação estabelecida entre seus integrantes pressupõem situações nas quais o contexto existe para a colaboração entre parceiros e não disputa, convencimento ou competição.
Certos cuidados, contudo, devem ser relembrados por não serem inerentes a essa proposta: a mera repetição da reprodução de conceitos cristalizados, a reprodução de conceitos científicos ou cotidianos, nem mesmo o falso moralismo ou a imposição de valores.
Reconhecendo que não existe educação neutra, cabe a cada professor, independente de sua disciplina, fazer com que os alunos discutam os valores de maneira consciente e crítica. Essa discussão desenvolve-se por meio do diálogo, cujas propostas sejam distinguir alternativas, imaginar outras possíveis soluções, argumentar para defender uma proposta ou contrapô-la, avaliar causas e consequências das possíveis ações, lembrando que tais exercícios sempre têm
como pano de fundo, a realidade, inserida no contexto social dos alunos, mesmo que as situações sejam hipotéticas.