Este trabalho está pautado na Teoria da Atividade Sócio-Histórico-Cultural, inicialmente, desenvolvida por Vygotsky (1896-1934), Leontiev (1904-1979) e Luria (1902-1970) e, nos anos 1980 e 1990, por Engestrom. A Teoria da Atividade desenvolve conceitos referentes à relação do sujeito com seu mundo objetivo, entendendo que o processo de conhecimento está relacionado na contínua intervenção do homem com o mundo.
A Teoria da Atividade enfoca o desenvolvimento do indivíduo como resultado sócio-histórico, enfatizando o papel da linguagem como fonte constituinte do comportamento social e da consciência, pois ela exerce as funções organizadoras e planejadoras do pensamento, aliadas às funções sociais e comunicativas.
É por meio da linguagem que o sujeito entra em contato com o conhecimento e adquire conceitos sobre o mundo em que vive, apropriando-se da experiência acumulada pelos humanos durante sua história social. É, igualmente, a partir da interação social, na qual a linguagem é a expressão fundamental, que o sujeito constrói sua individualidade. Essa teoria recebeu também contribuições posteriores, com Cole (1996, 2003), Newman e Holzman (1993, 2002), entre outros autores e seguidores.
Para entender a relação entre consciência e atividade na constituição do ser humano, Vygotsky (1930/2002) baseou-se no materialismo histórico-dialético de Marx e Engels (1846/2000). Segundo a concepção materialista de Marx e Engels (2002, p. 46), exposta em A ideologia Alemã, a história é um processo de criação, satisfação e recriação das necessidades humanas, pois estudar a evolução da sociedade humana implica concebê-la a partir dos processos reais concretos da vida social da existência humana. Os seres humanos precisam ser considerados em um processo de evolução real submetidos em determinadas condições materiais e históricas.
Para esses autores, o conceito de produção coincide com aquilo que os homens são ou, em outras palavras, a maneira como os indivíduos manifestam a sua vida, reproduzem aquilo que são. Os autores explicitam que, embora se possa tentar compreender e definir o ser humano pela consciência, pela linguagem ou pela religião, o que realmente o caracteriza é a forma pela qual produz e reproduz suas condições de existência.
O pensamento marxista foi caracterizado por Meksenas (2002) como: a ciência é produto da história e assim será, enquanto houver relações dos indivíduos entre si e com a natureza; o conhecimento da natureza do ser humano realiza-se por meio da influência que os indivíduos recebem das relações sociais tornadas econômicas.
Marx (2002) utilizou o método dialético para explicar as mudanças importantes ocorridas na história da humanidade através dos tempos. Ao estudar
determinado fato histórico, ele procurou seus elementos contraditórios, buscando, assim, encontrar o elemento responsável nesse novo fato, dando continuidade ao processo histórico. O movimento da história tem uma base material e econômica, que obedece a um movimento dialético. Dessa forma, ele revolucionou a maneira de interpretar a ação dos homens na história, abrindo ao conhecimento uma nova ciência, e aos homens, uma nova visão filosófica de mundo.
Vygotsky (1988) adotou a explicação marxista para esclarecer o desenvolvimento da humanidade, enfatizando o papel e o uso de instrumentos e do trabalho na origem da cultura e dos processos mentais humanos. Nessa concepção, as influências das ideias de Marx se referem ao modo de produção de vida material como condicionadora da vida social, política e espiritual do homem. Assim como o mundo está em constante transformação, o homem, como parte integrante e agente desse contexto, também se transforma e se constrói por meio de suas relações com o mundo social.
O termo Teoria da Atividade Sócio-Histórico-Cultural (TASHC) foi adotado pelo grupo de pesquisa LACE, segundo Liberali (2007), para enfatizar algumas questões centrais discutidas por Vygotsky e seus seguidores. Os estudos desenvolvidos no GP são pautados em atividades, ou seja, na concepção de Marx (2002), na qual o homem está no mundo fazendo história. O grupo entende como essencial o uso do termo social, visto que os sujeitos estão em constante ligação na produção de conhecimento e se relacionam em atividades interdependentes.
O termo histórico é fundamental, pois, para Liberali (2007), permite compreender que os sujeitos estão envolvidos nas atividades, constituindo-se ao longo da história com suas identidades peculiares forjadas no processo de historicidade em constante transformação. Da mesma forma, ao enfatizar o termo cultural, o grupo refere-se ao fato de que a atividade em foco está inserida em um determinado espaço-tempo, marcado por interesses, valores, necessidades, formas de agir que são peculiares e estão circunscritas na cultura.
Ao longo do processo histórico, a TASHC recebeu releituras e avançou em seu conceito. Vygotsky (1934/1988), ao elaborar o conceito de atividade mediada transformadora das funções psicológicas superiores, evidenciou a relação do sujeito com o objeto mediado por artefatos materiais e culturais. Leontiev (1977/2009) destacou que a atividade se dá entre sujeitos, que agem coletivamente para o
alcance de um objeto idealizado pelo grupo. Engeström (1999) acrescentou, à compreensão de atividade, a noção cíclica de movimento que se expande e se conecta a vários sistemas formando uma rede.
Nessa perspectiva, Engestrom (1999) discute os componentes da atividade, expandindo-os para um conceito de rede de sistemas, ou seja, as atividades estão sempre em um sistema de expansão e integração com outros sistemas de atividade, criando elos entre eles. A atividade é constituída pelo agente (sujeito), mobilizado por um motivo (objeto) e mediada por artefatos (instrumentos), em um processo entre indivíduos (comunidade), que se constitui por meio de regras e divisão do trabalho. Ao mesmo tempo em que a necessidade determina o motivo da atividade, também é o produto das relações estabelecidas com o mundo. O objeto da atividade é seu motivo (LEONTIEV, 1977/2009). Em outras palavras, a necessidade determina o motivo da atividade humana e é também o produto das relações estabelecidas com o mundo.
O sujeito transforma a realidade e se transforma simultaneamente, ou seja, a atividade é vista como prática social, na qual o sujeito é o agente transformador de sua realidade natural e social. Ao participar de uma atividade coletiva, assume um motivo compartilhado pela comunidade (grupo), que, por sua vez, determina as regras e as suas possíveis transformações. Tais regras organizam os meios materiais e permitem o desenvolvimento de ações reais e efetivas. A realização dessas ações ocorre pela divisão do trabalho, indicador da função do sujeito na atividade, caracterizando-o como ser social.
A TASHC é de central importância na elaboração e condução desta pesquisa, por tornar possível a compreensão do movimento de internalização e externalização nas interações que ocorrem na aula, propiciados pelas discussões com base na argumentação.
Os fundamentos teórico-metodológicos da TASHC subsidiaram as várias fases da condução desse estudo, pois houve o conhecimento e a caracterização do contexto, identificando as necessidades de momentos, nos quais as crianças pudessem falar e ser ouvidas acerca de temas que permeiam seu cotidiano, alguns conflituosos ou obscuros para sua compreensão, mas que deflagraram a necessidade da mediação do outro.
Além disso, a concepção da atividade “aula de Filosofia”, com foco na argumentação e nas performances, nasceu da necessidade do espaço de oportunizar vez e voz para todos os participantes, criando bases para a reflexão e aplicabilidade dos conceitos espontâneos e científicos para externalização dos sentidos e consequente compartilhamento de significados.
Por meio das concepções da TASHC, os instrumentos utilizados foram selecionados. Escolheram-se livros de literatura infantil, pequenos filmes, performances e em parte a CI8. Os sujeitos envolvidos foram os alunos do 3º ano G, a professora regente e a pesquisadora. Além deles, destacam-se a equipe de coordenação do colégio, os pais dos alunos, participantes secundários do contexto, mas envolvidos na rede de atividades, entendidas como ciclo expansivo, conforme abordado por Engeström (1999).
O objeto da atividade, neste trabalho, surgiu do intuito da pesquisadora em realizar sua dissertação de mestrado a partir das necessidades dos alunos, detectadas pelo trabalho desenvolvido pela pesquisadora como assessora de Filosofia do 2º ao 5º anos9 do ensino fundamental.
A partir das interações da pesquisadora com os alunos e deles com a professora, todos passaram a participar de forma mais envolvente, ocorrendo a expansão do objeto da atividade (ENGESTRÖM, 1999), o que colaborou para criar bases referendadas para o “agir crítico-reflexivo”.
Na perspectiva da Teoria da Atividade, a aula de Filosofia pode ser exemplificada, segundo os componentes discutidos por Engeström (1999), da seguinte forma:
8 A CI, nesta pesquisa, é entendida como estratégia, mas também como constitutiva de si própria e
de seus integrantes.
9 Essa nomenclatura, atualizada de acordo com o ensino fundamental de nove anos, refere-se ao
OBJETO