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Notes

Dans le document ARCHIVES PIERRE BOLOTTE (Page 13-0)

Para realização dos objetivos deste estudo, planejou-se a utilização de duas técnicas de entrevista, de modo que para cada uma delas foi elaborado um instrumento para a construção dos dados. Para a entrevista semiestruturada foi elaborado o questionário sociodemográfico32 com intuito de caracterização do perfil socioeconômico das participantes e para a entrevista narrativa foi elaborado um temário33 com os principais aspectos a serem abordados na entrevista narrativa com intuito de responder à questão proposta nesse estudo.

A elaboração desses instrumentos se fundamentou na compreensão de que é preciso considerar a complexidade e a multidimensionalidade de fenômenos como o envelhecimento e a velhice, de que não é apenas a dimensão biológica que delimita a experiência ao longo da vida e na velhice, é preciso considerar os aspectos sociais, psicológicos, etc. e suas relações.

O questionário sociodemográfico foi composto de 27 questões, abertas em sua maioria e objetivas em sua minoria, com objetivo de compreender os marcadores sociais, as condições socioeconômicas, a composição familiar, a percepção de suporte religioso/espiritual, a percepção de saúde e assistência à saúde das participantes e em que medida elas gerenciam suas vidas, realizam suas atividades diárias, seja no âmbito doméstico ou social. Essas dimensões foram escolhidas e contempladas nesse estudo, conforme as questões teóricas discutidas anteriormente e por se tratarem de aspectos que são abordados nos estudos acerca da velhice como, por exemplo, o de Camarano e Pasinato (2004).

31 Todas as participantes do SESC foram entrevistadas individualmente nos intervalos das aulas de ginástica e de dança.

32 Ver anexo 2.

33 Ver anexo 3. A opção de utilizar o termo de consentimento livre e esclarecido nesse trabalho deriva

exclusivamente de manter a possibilidade de publicação nos periódicos na área da psicologia, pois alguns destes exigem o anexar os termos no envio de propostas de artigo.

Além disso, velhas e velhos são representados socialmente e em muitas pesquisas “científicas” como doentes e dependentes e sempre exigidas(os) a adotarem um estilo de vida que favoreça um envelhecimento saudável e bem-sucedido. Dessa forma, o questionário sociodemográfico objetivou também identificar em que medida essa imagem social da velhice corresponde ao que é vivenciado pelas participantes e compreender as especificidades das experiências das mulheres a partir dos 60 anos não como um grupo homogêneo, mas como um grupo que se diferencia em relação a idade, a classe social, a etnia, a origem geográfica, etc. Essas questões permitiram compreender em alguma medida a situação social de cada participante, fornecendo o contexto da vivência pessoal no qual emergem seus significados da velhice.

O temário que deu suporte à entrevista foi composto de uma questão disparadora da narrativa e oito temas com questões para incentivar a produção narrativa caso fosse necessário. Vale ressaltar que a entrevista narrativa se iniciou com a pergunta disparadora “Como você se vê hoje?”, os demais temas só foram colocados caso as participantes: não mencionassem; e mencionassem sem aprofundar. Para isso não houve nenhuma ordem, a não ser a estabelecida pelas próprias participantes, de modo que houve algumas participantes que produziram narrativas, durante a aplicação do questionário sociodemográfico, abarcando temas do temário, o que já excluiu a necessidade de estimular a narrativa do mesmo tema no momento da entrevista narrativa, o que não foi impedimento para que a própria participante retomasse o tema.

O objetivo da entrevista narrativa não foi realizar uma entrevista de perguntas e respostas, como foi o objetivo do questionário sociodemográfico, mas de utilizar o temário como ponto de partida para possíveis questões acerca dos temas, com o intuito de incentivar a continuidade da produção narrativa. Contudo, esse incentivo se deu de modo contextualizado à narrativa e linguagem de cada participante, as questões foram elaboradas, portanto, de forma específica para cada participante a depender do modo através dos quais elas utilizaram os temas em sua produção narrativa. A tentativa com esse instrumento e estratégia de pesquisa foi facilitar a emergência da narrativa acerca de sentimentos, pensamentos e ações relacionadas à velhice e à produção de significados.

Primeiramente foi realizado um pré-teste desses instrumentos com o objetivo de avaliar sua capacidade de facilitar a emergência das informações de interesse da pesquisa. O planejamento foi iniciar a abordagem com a participante através da apresentação da proposta da pesquisa, na sequência a realização da entrevista narrativa e no final a entrevista semiestruturada com a aplicação do questionário sociodemográfico, tendo em vista que dessa

forma, poderia ser possível na própria entrevista aparecer informações que contemplariam aspectos do questionário sociodemográfico.

O pré-teste foi realizado com Helena de 95 anos34, devido à relevância de sua entrevista e a dificuldade de encontrar participantes dessa idade; seus dados foram incluídos neste trabalho apesar de terem sido construídos em uma etapa de teste. Essa etapa foi muito importante para o andamento subsequente da pesquisa, porque permitiu avaliar em campo a eficiência dos instrumentos de pesquisa planejados e a eficácia das estratégias de pesquisa adotadas. Algumas mudanças adviriam desse pré-teste, dentre elas a principal se refere à ordem de utilização dos instrumentos de pesquisa, que não funcionou conforme foi planejado, porque começar a interação com a participante, após explicitação dos objetivos da pesquisa, através da entrevista narrativa não favoreceu o engajamento da participante na produção narrativa, mesmo através de outras questões estimuladoras além da questão disparadora.

Essa estratégia não funcionou devido à forma como foi planejada. Isso ficou evidenciado no momento da aplicação do questionário sociodemográfico, após a entrevista narrativa, momento no qual a participante se engajou muito mais a ponto de abordar aspectos de sua vida que no momento da entrevista não narrou. O que pareceu é que falar dessas questões relacionadas ao envelhecimento e à velhice não é tão comum e nem muito fácil abrir a vida, o que sente e o que pensa para alguém estranha como eu (pesquisadora) sem um aquecimento prévio em questões menos tocantes, pelo menos aparentemente.

O que essa experiência mostrou para o andamento da pesquisa, pelo menos na forma como percebi o ocorrido, foi que eu era uma pessoa estranha, mesmo sendo indicada por uma pessoa do convívio da participante, estratégia essa que imaginei favorecer uma menor estranheza e uma maior aproximação. De modo que, ser indicada por alguém não é o suficiente para dirimir o fato de que sou uma estranha para a participante. Além disso, era necessário incluir um momento de aquecimento e aproximação com a participante antes de entrar diretamente na temática do estudo.

Assim, a estratégia de abordagem das participantes e a ordem de utilização dos instrumentos mudaram. Nas entrevistas subsequentes foi realizada, após explicitação das informações acerca da pesquisa e seu objetivo, a aplicação do questionário sociodemográfico e na sequência a entrevista narrativa com o suporte do temário. Esse formato favoreceu estabelecer um rapport35 com as participantes antes de entrar nas questões específicas do

34 Será apresentada de maneira mais completa na análise dos dados.

35 É uma palavra de origem francesa que significa “relação”. Representa gerar empatia, ou seja, uma relação de confiança e harmonia dentro de um processo de comunicação no qual a pessoa fica mais aberta e receptiva para

presente estudo, de forma que na própria aplicação do questionário a maioria das participantes elaboraram algumas narrativas relacionadas ao processo de envelhecimento, favorecendo no momento da entrevista a abordagem dessas questões.

Além dessa mudança, outras se sucederam. No questionário sociodemográfico foram inseridas as questões quanto a ter ou não bisnetos(as) e o sexo desses(as). Já o temário foi sendo ajustado a cada entrevista, para torna-lo mais capaz de favorecer a produção narrativa. De modo que apenas após a décima entrevista que o temário chegou à versão final aqui anexada. Basicamente as alterações se referiram ao modo de abordar as questões estimuladoras da produção narrativa, exceto a questão “quando percebeu que estava envelhecendo?” que foi inserida após a nona entrevista e que se mostrou estratégica para o entendimento da vivência e produção de significados das participantes.

Na elaboração do temário, assim como durante as entrevistas, um cuidado foi para não incluir questões que afirmassem ou induzissem que a pesquisadora estaria definindo as participantes etariamente como velhas, principalmente porque esta é uma questão delicada, uma vez que na sociedade contemporânea na qual a juventude é um valor maior, mulheres e homens não se consideram idosas(os) simplesmente porque adentraram aos 60 anos. Desse modo, as questões foram elaboradas de forma que as próprias participantes expressassem em que momento da vida se considerava assim como se velhas ou não.

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