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3.3 Architecture du système en trois couches

3.3.2 Niveau site

No dia anterior à festa, as aulas foram reduzidas. Ao meio dia, as aulas se encerraram e o período da tarde foi todo para a organização do espaço. As professoras trabalharam na montagem dos painéis, algumas crianças ficaram na escola para ajudá- las. A gestora foi comprar os ingredientes que faltavam para a galinhada. A equipe pedagógica preparou o Cantinho da Memória Afro-brasileira, organizou o espaço do pátio, o arco com os balões para a entrada da festa e a ornamentação da quadrinha onde seriam as apresentações das crianças. Toda a organização da festa durou até as 20h. Todos(as) estavam muito cansados(as), mas a disposição ainda era grande, afinal a festa ainda iria começar.

Dia 24 de novembro de 2012 – Celebração do VII Ano do Projeto “Orgulho e Consciência Negra”. A festa começou às 10h da manhã com a apresentação da Casa Azul, crianças que participam de um projeto no qual aprendem percussão. A apresentação deles foi linda, os tambores ressoaram por toda a Ceilândia. Na antiga região do Mali, sempre que uma aldeia precisava comunicar algo a outra aldeia, essa comunicação era feita por meio de tambores, e assim foi a sensação daquele momento.

A comunidade toda compareceu, todos muito arrumados com a temática africana, as mães capricharam no visual das crianças e elas, também, estavam com roupas de tecidos afro. As crianças ficaram o tempo todo empolgadas, correndo de um lado para o outro.

As músicas tocadas traziam mensagens sobre a questão racial, músicas da atualidade, conhecidas, mas pouco refletidas no dia a dia.

A festa começou com o desfile da beleza negra. Apenas três casais de cada categoria participaram do desfile, e é importante colocar que todos receberam prêmios. As juradas do desfile foram pessoas de fora da escola, uma doutoranda e uma mestranda da UnB, a coordenadora intermediária de Ceilândia e duas professoras da SEEDF. Os requisitos avaliados foram os seguintes: características fenotípicas (cor da pele, olhos, textura do cabelo...), desenvoltura em passarela e simpatia. Foi bastante difícil, as crianças se prepararam muito para o desfile e estavam impecáveis.

Ao final do desfile das crianças houve outro desfile muito especial. Lembram-se daquele garoto negro de 12 anos? Ele desfilou representando o Presidente dos Estados Unidos, Barak Obama. Estava lindo, de terno e gravata, todo emocionado e um pouco tímido, e quando ele entrou não pude conter as lágrimas, elas desceram e uma grande alegria me invadiu. O sentimento foi inexplicável. Gostaria muito de encontrá-lo daqui a alguns anos para conversar com ele sobre esse momento e saber como ele está e como sua vida seguiu a partir desse ano. Ele mostrou que é capaz, mostrou para quem duvidava, para quem muitas vezes o marginalizava, e mais importante: mostrou para si mesmo.

Gostaria que todos pudessem sentir o que eu senti naquele momento, mas as palavras ainda não conseguem expressar o grande rebuliço e encantamento que aquele desfile gerou em meu ser.

Depois dos desfiles, as apresentações das crianças começaram. Uma mais linda que a outra. As crianças se esforçaram muito com as professoras. As roupas estavam belíssimas, uma das professoras disse que as mães ajudaram a costurá-las. As músicas das apresentações também tinham ligação com a questão racial.

Durante as apresentações, teve galinhada e acarajé. A festa da escola é bastante conhecida, e por isso fica muito cheia, no entanto algumas professoras disseram que no ano anterior ela estava mais bonita e mais cheia de gente.

Após as apresentações das crianças, houve um desfile com as professoras, funcionários e todos(as) que ajudaram para que a festa acontecesse. Depois, as crianças

que desfilaram foram premiadas, assim como as crianças que participaram do concurso de redação.

A festa terminou com um cantor de rap da Ceilândia. Todos se despediram e às 15h a festa já havia terminado, a equipe pedagógica se reuniu na copa para comer e comentar sobre ela.

Parêntesis 1 – Vai vendo...

No mês de outubro a escola recebeu a visita de Consultores da Unesco, mediada pela Seppir. Essa visita teve como objetivo conhecer o trabalho que a escola desenvolve na ressignificação da população negra com processos positivos para as crianças negras e não negras. A Unesco está desenvolvendo com esse grupo de consultores um projeto para se trabalhar o combate ao racismo em vários países, eles já fizeram um website com esse material e agora estão trabalhando na elaboração do projeto com vistas a subsidiar trabalhos que promovam a igualdade racial.

A visita foi um sucesso, a equipe pedagógica apresentou o trabalho que desenvolve para os consultores(as) da Unesco, posteriormente várias perguntas foram feitas para a equipe da escola sobre a organização do projeto e sobre o trabalho das professoras, sobre a coletividade do trabalho, sobre a nota no Ideb, sobre os reflexos desse trabalho nas crianças, na comunidade e nas professoras.

A equipe pedagógica organizou um espaço com os materiais que a escola possui sobre a questão racial. Havia materiais produzidos pelos alunos, pelas professoras, pela equipe e também materiais adquiridos para estudo. Todos ficaram impressionados com a qualidade dos trabalhos e dos materiais feios pelas crianças. Depois de mais perguntas sobre as formas de subsídio que recebem, uma das consultoras perguntou o que a escola faria se recebesse uma quantia em dinheiro para investir nesse trabalho. A gestora disse que teria de ver com toda a equipe da escola, mas materiais como livros seriam muito interessantes. Após essa conversa, todos foram andar pela escola e conhecer seu espaço físico, as salas de aula e demais dependências da escola. A visita se encerrou ao final da tarde com um lanche e muitos agradecimentos e elogios ao trabalho da escola.

Parêntesis 2 – Tomem Tenência...

Durante uma conversa no recreio com uma menina não-negra de 10 anos, ela perguntou o que eu estava fazendo na escola. Depois da minha resposta, ela me falou o seguinte: “um dia um professor negro trabalhava aqui na escola, aí ninguém gostava dele, nem os pais, aí ele foi fazer um projeto aqui na escola para trabalhar a consciência negra. Depois ele viajou para São Paulo e ganhou um prêmio, quando ele voltou, ele passou a ser respeitado por todo mundo, apareceu na tv e tudo mais, minha mãe viu ele na tv. Tem até um desenho dele no muro da quadra de esportes da escola falando que tem que respeitar todo mundo.” (Aluna do 5º ano)