Mesmo com a vivência do projeto durante os últimos sete anos, algumas pessoas ainda não conseguiram compreender, de fato, os prejuízos do racismo e o quanto esse projeto desconstrói a visão da população negra de forma inferiorizada e acham que a escola supervaloriza as pessoas negras e a questão racial. Uma professora falou que um aluno branco perguntou que dia seria a festa dos brancos. A pergunta indica que o processo compensatório não foi compreendido pela criança e, quiçá, pelos adultos que trabalham com ela, afinal ela deve se sentir desconfortável com o projeto, o que nos chama a atenção para o trabalho que essa professora está desenvolvendo em sala com a criança. Em algum momento ela se equivocou e construiu uma realidade irreal na cabeça da criança, uma imagem que traz a população negra em situação de vantagem e não de igualdade, que é a construção que se tenta tornar real.
Algumas pessoas ainda não se envolvem tanto no projeto. Na totalidade, a escola trabalha bem, o fato de quase todos se envolverem faz toda a diferença. Não é só trabalhar a questão racial, mas é trabalhar a autoestima, a identidade, e isso interfere em outras áreas, porque interfere no pedagógico, interfere no cognitivo dos alunos. Como é um projeto que perpassa o ano todo, a questão sempre está presente e ajuda em outras áreas também, não cumpre apenas os objetivos do projeto, vai além, ajuda em outros pontos.
Algumas falas são no sentido de dizer que a escola realiza um bom trabalho, mas que este está longe de ser o ideal. A escola ainda está engatinhando. Falta formação para saber como abordar essa questão. Fala-se muito só em respeito, como se o racismo se pautasse apenas na falta de respeito e sabemos nós que essa questão é muito mais profunda e requer estudos também mais profundos.
Os alunos já trazem uma bagagem muito boa. Para essa comunidade, é um trabalho muito bom e importante. O que se pode dizer de mais positivo é a ressignificação dos conceitos e dos estereótipos negativos que foram colocados para a população negra. O ressignificado do olhar.
Algumas pessoas, assim como a gestora, só veem pontos positivos no projeto, o que não deixa de ser verdade, de fato os pontos positivos são muitos, no entanto é preciso observar com mais tranquilidade o todo, ampliar o olhar crítico. A comunidade já está bem envolvida com o projeto. Pelas falas dos pais, é possível perceber que eles gostam da escola. Uma das mães tem dois filhos que estudam na escola, uma filha no 2º ano e um filho no 4º ano, ela fica feliz de ver que os dois falam as mesmas coisas, mas com linguagens diferentes, ambos estão inseridos no projeto, porque a escola trabalha em conjunto.
Essa escola tem uma rotatividade muito grande de professoras e muitos são os motivos para esse fenômeno. O primeiro deles é que faltam muitas professoras na rede pública, o segundo é pela distância da escola, ela fica no fim da Ceilândia, é também uma área de violência constante, brigas e mortes, dentre outros problemas, e como todos dizem, o trabalho coletivo sempre assusta as pessoas. O trabalho na escola é cansativo, envolvente, puxado, mas é gratificante. Não são todas as pessoas que se adaptam ao trabalho da escola e a forma como ela conduz esse trabalho. O trabalho é harmonioso, mas ainda assim existem conflitos, as pessoas são muito diferentes.
Os trabalhos precisam ser feitos pelos alunos, eles são os protagonistas. Essa é uma questão recorrente. Na coletiva de preparação da festa, essa questão também se fez presente, em alguns momentos as professoras não valorizam devidamente os trabalhos das crianças. A comunidade vai à festa querendo ver os trabalhos das crianças e não o das professoras.
A comunidade já foi menos participativa, mas ainda estamos longe de enxergar uma participação ideal. Às vezes eles não participam porque acham que a escola sempre faz melhor, eles se sentem despreparados para participar. Eles veem que a equipe da escola tem certeza do trabalho que desenvolve e isso, de certa forma, os inibe, porque muitos não têm formação. Esse é outro ponto que precisa ser trabalhado: como aproximar mais a comunidade?
Conversamos com algumas pessoas da comunidade escolar sobre a nota do Ideb e a representação dessa nota para a escola. As falas sobre esse assunto caminharam no sentido de que essa nota é apenas uma consequência do trabalho desenvolvido pela equipe da escola. O índice de evasão, por exemplo, já foi grande. Essa escola conquistou
um rótulo dentro da comunidade de que, se os alunos estão aqui, eles aprendem, principalmente na alfabetização, e eles realmente têm êxito. O grupo tecnicamente é bem preparado na área de alfabetização. A reprovação, em 2011, foi de 6.3% dos alunos. As metas traçadas na escola no início de cada ano letivo geralmente são cumpridas.
A escola faz reflexões sobre as consequências da reprovação na vida dos alunos e isso dá muito certo porque a equipe da escola conhece todos os alunos. Tudo é bem acompanhado de perto.
O Ideb é o reconhecimento do trabalho, a escola faz um trabalho sério. Ele elevou a autoestima da equipe. Não mede nem de longe o trabalho que é realizado, mas ajuda a ter uma noção. Nessa escola, a menina negra não é a última a ser escolhida, ninguém fica sem par. Não se vê mais com frequência como antes atitudes de discriminação ou de preconceito. Racistas não têm coragem de verbalizar. Hoje em dia todos têm orgulho do trabalho.
A gente prepara o menino pra aprender, a nota do Ideb é o resultado do trabalho de excelência que a gente faz, fizemos um trabalho de organizar a casa, isso é consequência de muito trabalho, de muito rala. (Entrevista com a supervisora pedagógica, em 3 de dezembro de 2012)
A criança negra já está autoafirmada nessa escola. Há quatro ou cinco anos uma crianças negra jamais levantaria a mão para participar do desfile da beleza negra, hoje elas levantam a mão e têm segurança na hora de participar das atividades da escola.
Quando a criança melhora sua autoestima, melhora sua identidade mesmo, seu autoconhecimento, sua auto aceitação, ela melhora nos outros aspectos, sem dúvida nenhuma, e aí, com certeza, a elevação desse resultado reflete no Ideb sim. (Entrevista com a supervisora pedagógica, em 3 de dezembro de 2012)