O primeiro jornal de rua, no Brasil, foi O Trecheiro, criado em 1991 pela Rede Rua28, que tinha como proposta tornar pública a realidade das pessoas que viviam nas ruas. Tudo começou na década de 90 com as diversas pastorais da Igreja Católica junto aos movimentos sociais. Era apenas um centro de comunicação alternativa que estivesse a serviço dos excluídos e dos movimentos sociais. Daí nasceu o CDCM, liderado por leigos e religiosos, com a intenção de sensibilizar a sociedade para a questão da população em situação de rua por meio da produção de notícias, vídeos e registros fotográficos. Em agosto de 1991, nasceu o Jornal O Trecheiro, como “[...] espaço e instrumento de denúncia de violação dos direitos humanos à disposição da população, dos movimentos populares e das organizações sociais” (COSTA, 2010, p.107). Em 1998, segundo Costa (2010), a Rede Rua passa por profundas mudanças e surge a Associação Rede Rua para dar continuidade aos trabalhos.
Esse jornal se diferencia dos demais por ser distribuído gratuitamente aos moradores de rua de São Paulo, pois não se preocupa com a geração de renda como forma de construção da dignidade deles, por isso não se filia à INSP. Não existe a participação dos moradores de rua na construção das matérias publicadas pelo jornal, apenas voluntários que, além do jornal, produzem audiovisuais e fotografias que registram a organização dos movimentos populares e manifestações de rua. Os temas abordados vão do descaso e da violência institucionais, da ausência de políticas públicas até a falta de iniciativas da sociedade civil para a solução da questão.
Outra experiência de Street Papers é a publicação da Revista Ocas29, que só foi
publicada em julho de 2002 pela OCAS (Organização Civil de Ação Scial), cuja fundação ocorreu em 2001. É uma instituição sem vínculos partidários ou religiosos e sem fins lucrativos, em que o público-alvo são as pessoas em situação de rua e os outros sujeitos em situação de risco social. Os vendedores adquirem os exemplares por R$1,00 e os comercializam pelas ruas de São Paulo e Rio de Janeiro por R$3,00, ficando, portanto, R$2,00 para o vendedor por cada exemplar. A tiragem varia entre 4.500 a 7.500 exemplares. A OCAS promove, além da revista, outros projetos voltados para a população em situação de vulnerabilidade social, como o atendimento psicológico e as oficinas. A associação é membro ligado à INSP.
28 Disponível em: <http://www.rederua.org.br/rederua/conhecer.html>. 29 Disponível em: <http://www.ocas.org.br/#!historia-equipe/c19ug>.
O objetivo básico é gerar renda e aproximar os vendedores da sociedade através da venda da publicação, como uma forma de quebrar barreiras, criando novas formas de interação social entre os moradores de rua e a sociedade. A organização entende que “[...] o desenvolvimento econômico só é sustentável se acompanhado do desenvolvimento social e intelectual. Por isso, a OCAS também desenvolve uma série de ações com os beneficiários com o objetivo de melhorar o desenvolvimento de cada um”30. Com isso, o projeto promove contato com os familiares, estimula a retomada dos estudos e a busca de um emprego, sem falar do contato com os clientes, resultando num processo de reinserção social.
No ano de 2000, surge a publicação Boca de Rua, em Porto Alegre, projeto da ALICE, em que os moradores de rua participam da construção do jornal desde a escolha das pautas, a escrita dos textos, a escolha das perguntas, a realização das entrevistas, até a decisão sobre os títulos das matérias bem como das fotografias, sempre contando com a ajuda dos coordenadores das reuniões. Em contrapartida, os participantes recebem uma cota semanal entre 25 e 40 jornais para serem vendidos pelas ruas da cidade. É uma complementação de renda, pois, como o jornal custa R$1,00, a soma mensal fica entre R$100,00 a R$160,00. A renda é revertida totalmente para o vendedor participante, não havendo nenhum pagamento ou devolução à organização do projeto. Pelo pequeno montante, a venda do jornal não tem a intenção de ser a principal fonte de sustento desses sujeitos, mas serve para que se sintam gente, já que a sociedade os estigmatiza como peso para a sociedade, porque não produzem nada, não têm renda.
O Jornal Boca de Rua se parece com O Trecheiro quanto à gestão, porque ambos os jornais são ONGs sem fins lucrativos ou vínculos político-partidários, mas são diferentes no estilo e nos resultados finais. Enquanto o jornal paulista é feito por voluntários, sem a participação da população de rua, possui uma distribuição gratuita, pois a intenção básica é proporcionar comunicação entre os próprios moradores de rua e as pessoas que estão em risco social, o jornal gaúcho é construído com ajuda dos moradores de rua sob a orientação de jornalistas profissionais, com o objetivo de gerar renda. Em relação à Revista Ocas, o Jornal
Boca de Rua se assemelha porquanto ambos são dirigidos por ONGs, mas a estrutura e a
forma de produção são diferentes. A publicação paulista é uma revista com temas alheios à realidade dos moradores de rua, apenas uma pequena coluna com referências ao seu cotidiano, e eles não participam do planejamento, da produção e da distribuição da mídia impressa, com
a intenção de geração de renda através da venda. A publicação gaúcha é um jornal com oito páginas em que os moradores de rua participam ativamente de sua produção e venda, mas, sobretudo, eles têm consciência de que, vendendo o jornal, obtêm renda e, com a continuidade, passam por um processo de educomunicação, à medida que vão cumprindo as normas de conduta, quebrando arestas, respeitando os outros, sem que percebam que estão sendo educados informalmente.
E, finalmente, em março de 2007, surgiu o Jornal Aurora da Rua, em Salvador, com a intenção de gerar renda para as pessoas vindas das ruas e que eram acolhidas pela Comunidade da Trindade. Não é uma ONG, nem uma divisão hierárquica da Igreja Católica, nem um movimento social como o Movimento População de Rua.
Assemelha-se com o Jornal Boca de Rua pela preocupação com a geração de renda e a participação dos moradores de rua na produção e venda das publicações. Diferem-se na concepção ideológica e nas condições de produção do jornal, pois, enquanto o jornal gaúcho denuncia a exclusão e realça os aspectos positivos do morador de rua, fundamentados nos direitos da pessoa humana, sacramentados na Constituição Federal de 1988, o jornal baiano não denuncia diretamente a rejeição social do morador de rua, nem as políticas públicas relativas ao setor, mas, a partir da convivência e da observação das pessoas em situação de rua em comunidade, realça apenas seus aspectos positivos, movidos pela expressão: Levanta-te e anda (At. 3, 1-10) como forma de um soerguimento psicossocial antes de sua inserção social. O Jornal Aurora da Rua acredita que é inútil doar casa própria ao morador de rua (Programa Minha casa, minha vida)31 se ele não se encontrar como pessoa, eliminando as razões que o levaram às drogas e à invisibilidade social.
Não é apenas uma comunicação entre moradores de rua (O Trecheiro), nem uma publicação de matérias que não se vinculam com a realidade dos moradores de rua como são as revistas europeias (Cais, Macadam, Terre di Mezzo) e a publicação paulista Ocas. Possui um perfil que o torna singular entre os jornais de rua, porque a formação discursiva a que se vincula tem suas raízes na carnavalização como atualização do cinismo grego, que é responsável pela representação positiva sobre o morador de rua, baseada na liberdade, na autonomia, no despojamento material e, sobretudo, na capacidade de dizer a verdade (parrhesía) mesmo que, para isso, encontre a morte.
31 Programa Habitacional do Governo brasileiro.
4 REFLEXÕES EPISTEMOLÓGICAS SOBRE A CONSTRUÇÃO DOS CORPORA: USANDO MÉTODOS E TÉCNICAS SOBRE A PESQUISA
O presente trabalho inscreve-se como pesquisa qualitativa porque se articula em torno de pressupostos teóricos, postulados e de uma prática cujos dados empíricos não serão tratados numa conformação estatística, numa ansiedade de comprovação de teses preestabelecidas, tentando descrever as regularidades de fenômenos sociais quantificáveis numa relação de causa-efeito. Busca, ao contrário, os dados advindos das experiências, das representações dos atores sociais envolvidos, das definições de situação, das opiniões, em contato com o campo de pesquisa que não é apenas um reservatório de dados, mas uma fonte de constantes e novas questões constituindo aquilo que se pode chamar de objeto da pesquisa.
É imprescindível a flexibilidade no delineamento da pesquisa qualitativa por seu caráter repetitivo e retroativo, pois nele se encontra “[...] a simultaneidade da coleta de dados, da análise, envolvendo-os enquanto categorização, conceituação, interpretação, sem perder de vista as questões básicas da pesquisa” (KÉRISIT, 2014, p.148). A construção do objeto de pesquisa se dará de maneira progressiva na medida em que o pesquisador tem como foco a coleta de dados e a análise num processo de constantes ajustes investigativos ou metodológicos em que “[...] este movimento de vai e vem ritma a cronologia do ato de pesquisa” (KÉRISIT, 2014, p. 149).
Não há necessidade de formulação de hipóteses previamente como se faz na abordagem hipotético-dedutiva com um corpus preexistente de pesquisa, mas a construção de postulados (questões norteadoras), indicando mais uma tendência do que relação de causa-efeito, além de serem abertos, pois podem surgir a qualquer momento da pesquisa. Nos experimentos quantitativos, predomina um controle de variáveis para a comprovação de resultados previamente determinados; na pesquisa qualitativa, os achados mais interessantes aparecem durante o processo.
Ora, outros ingredientes compõem a tessitura da pesquisa qualitativa como a preocupação direta com a experiência sendo vivida e sentida tanto pelo pesquisador como pelos atores sociais, por isso valoriza-se o contexto onde se materializam os acontecimentos e os fenômenos a serem observados e analisados. Mesmo sendo ambientes particulares, precisam ser naturais em oposição aos ambientes artificiais a exemplo de laboratórios, estufas, etc., pois a abordagem qualitativa trabalha com o mundo real. A experiência das pessoas tem um tratamento global ou holístico, porque o pesquisador estará atento para a
compreensão das qualidades em sua totalidade, uma vez que o estudo qualitativo opera suas conclusões de maneira indutiva, i.e., do mundo empírico para as generalizações (dedução). A sua marca fundamental é o caráter interpretativo, porquanto o pesquisador qualitativo trata de justificar, elaborar ou integrar numa construção teórica os seus achados. E, finalmente, faz- se necessário ponderar sobre a reflexividade, que envolve o olhar para a pessoa que pesquisa, o reconhecimento das premissas teóricas e pessoais na sua atuação, a relação com os participantes e a comunidade em que realiza o estudo, e que não há separação entre sujeito e objeto (SANDIN ESTEBAN, 2010).