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Dans le document Joannis Calvini opera quae supersunt omnia (Page 147-185)

Na pesquisa de 2007/2008, Salvador apresentou 3.289 pessoas em situação de rua, construindo-se um perfil de algumas informações como, por exemplo, a maior parte tinha 25 a 55 anos de idade, havendo predomínio de homens sobre mulheres, 65% eram pardos, pretos ou amarelos, a maioria tinha ensino fundamental completo, 70% das pessoas trabalhavam, apenas 15% pediam dinheiro para sobreviver. Essas pessoas viviam em condições precárias, sub-humanas, compartilhando as ruas da cidade com baratas, ratos e detritos, em locais como o Largo de Roma, hoje transformado num memorial à Irmã Dulce, a Praça da Piedade, a Ladeira de Santana no Campo da Pólvora, a Barroquinha, o viaduto do Aquidabã, o da Fonte Nova, como seres invisíveis que nada significam, apenas enfeiam a cidade, emporcalham o

meio ambiente. São vítimas de uma representação perversa da sociedade que os classifica como marginais, vadios, ladrões, doentes mentais, prostitutas, bloqueando as oportunidades de trabalho, fortificando a exclusão social e desvalorizando o povo das ruas como ser humano (SANTOS, 2009).

No ano de 2000, surgiu a Comunidade da Trindade na Av. Jequitaia, 165, com a ocupação de uma igreja abandonada: a da Santíssima Trindade dos Cativos, do século XVIII, pertencente à antiga ordem terceira – Ordem da Santíssima Trindade, que já desapareceu há muito tempo. Segundo Henrique Peregrino da Trindade, fundador da Comunidade, parte do terreno tinha sido invadida, mas, com a permissão do cardeal da época, ocupou o restante, formando um sítio no fundo da igreja, espaço no qual foram construídas pequenas casas. Dessa data em diante, passou a receber moradores de rua que queriam uma oportunidade de reinserção social, superando o alcoolismo, as doenças mentais, o uso de drogas. Não é uma extensão de órgão público, departamento da Igreja Católica ou uma ONG, apenas uma organização sem fins lucrativos, sem conteúdo assistencialista, sem a formatação de uma pessoa jurídica, que se preocupa com o morador de rua e de caráter ecumênico.

Foi pensando na dificuldade de muitos moradores de rua não encontrarem uma forma de geração de renda como o artesanato, o recolhimento de material reciclável, que Henrique Peregrino teve a ideia de fundar o Jornal Aurora da Rua no final de 2006 e início de 2007. Como peregrino, morou nas ruas da Cidade de São Paulo no início da década 90, morou em favelas e conheceu o Jornal O Trecheiro e a Revista Ocas, logo se interessando por essa publicação, já que havia preocupação com geração de renda. Ele, por sua experiência de andarilho, tinha conhecimento das experiências francesas de jornal de rua, como as publicações Macadam (1993), La Réverbère (1993), La Rue (1993), etc., que buscavam a inserção social das pessoas Sem Domicílio Fixo (SDF), na França, sua terra natal.

No início de 2008, surge o projeto Levanta-te e Anda, da Arquidiocese de Salvador, que buscava viabilizar atendimento e apoio aos moradores de rua (população adulta) do Município de Salvador, especialmente da Cidade Baixa, através de um Centro de Convivência, com ações relacionadas à assistência social, ao atendimento médico, psicológico, à higiene, à alimentação, estimulando o desenvolvimento de capacidades e habilidades, para resgatar a sua dignidade humana e a sua cidadania. O público-alvo era a população de rua acima dos 18 anos e abaixo de 60 anos, envolvendo homens e mulheres, em especial os que viviam entre a região do Comércio e o subúrbio. O programa até hoje funciona na antiga igreja abandonada de São Francisco de Paula, depois do Mercado do Peixe, em Água de Meninos, mas é diferente da Comunidade da Trindade, porque o morador

de rua não vive em comunidade, apenas lava a sua roupa, faz suas necessidades, assiste às aulas e volta para a rotina das ruas.

Em maio de 2010, nasce o Movimento População de Rua, em Salvador, e, em junho de 2010, ganha a sede provisória, na Rua São Francisco, s/n, no Pelourinho, centro da cidade, espaço cedido pelos frades franciscanos. Nesse mesmo ano, nos dias 16 e 17 de setembro, realizou-se o Seminário Estadual de População de Rua na Capital, que cumpriu as três importantes tarefas: a de dar a merecida visibilidade a uma questão social de grande magnitude na realidade atual da sociedade brasileira; a de aglutinar forças diversas em uma sinergia pouco exercitada, sobretudo pela evidente correlação de forças e os movimentos sociais; além de sensibilizar também a sociedade civil, representada por cidadãos e cidadãs que não estão envolvidos diretamente com a prestação de serviços públicos.

Em 2011, a ação do Ministério Público da Bahia ajuda na criação da Associação, viabilizando a realização de convênios, termos de cooperação técnica, contratos e outros ajustes com órgãos públicos e entidades privadas, de forma a promover cursos de capacitação. Por meio da Associação, é possível ainda a captação de recursos e verbas para incrementar as atividades desenvolvidas pelo Movimento, bem como fomentar a contratação de pessoas em situação de rua para trabalharem na entidade com vínculos.

Em março de 2012, aconteceu o I Congresso Nacional de População em Situação de Rua na Cidade do Salvador, com a participação de pessoas de vários Estados brasileiros. O Governo da Bahia lançou oficialmente, no segundo dia do Congresso, o Programa Bahia Acolhe, voltado para o atendimento à população em situação de rua. O objetivo foi oferecer um conjunto de ações de assistência social e combate às mais variadas formas de violência de que é vítima essa população. O modelo do Programa foi exaltado pela coordenadora do Movimento de Moradores de Rua da Bahia, Maria Lúcia24, como um passo valioso cuja consolidação pode proporcionar avanços expressivos às pessoas em situação de rua.

É neste contexto que se situa o caráter profético do jornal “Aurora da Rua” que apresenta uma forma diferente de considerar a fragilidade do homem em situação de rua diante da violência da sociedade baiana que não suporta a crua realidade do morador de rua, por isso os acontecimentos da rua causam indignação ao cidadão. Quem não se lembra do massacre do Cabula, em janeiro de 2010, quando, de forma brutal, quatro homens, moradores

24 Maria Lúcia Santos Pereira, antes de ser coordenadora do movimento, foi moradora de rua, alcoólatra, tendo

sido acolhida pela Comunidade da Trindade; trabalhou no projeto Levanta-te e anda, casou-se e morou na comunidade, escreveu por muito tempo a página Brilho da Aurora do Jornal Aurora da Rua (REIS, Clóvis. Uma guinada de 180 graus. O Trecheiro: notícias do povo da rua, ano XV, jul. 2006, p. 2).

de rua que catavam lixo para sobreviver, foram assassinados, atingidos na cabeça por arma de fogo, à queima-roupa. “A chacina aconteceu neste sábado, por volta das 7h, na Rua Teódulo Albuquerque, final de linha do Cabula VI. Segundo moradores, quatro homens armados teriam chegado atirando em um automóvel GM Celta da cor preta”25.

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