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National processes leading to graduation

Dans le document THE LEAST DEVELOPED COUNTRIES REPORT 2016 (Page 93-102)

Infortúnio. Essa é uma palavra que poderia definir bem alguns dos personagens principais em O Quinze. Os Bentos.

Expulsos do Logradouro por uma ordem vinda de Maroca das Aroeiras devido à falta de trabalho, Chico Bento junto a Cordulina, sua esposa, e seus filhos se veem obrigados a encarar as piores agruras do cansaço, da fome, da sede e da morte, na fuga sob o sol inclemente. O objetivo de chegar à capital Fortaleza e de lá seguir para o norte, era a única esperança de uma vida digna que, segundo falatórios, nas terras amazonenses o ciclo da borracha provia muito trabalho. Mas, na ocasião atual apenas incertezas. Naquele sertão os caminhos eram muitos e ao mesmo tempo nenhum, poucas almas ali restaram. Aos que decidiram permanecer, a preocupação com o sustento da vida e uma alimentação regular era corriqueira. Não muito distante do casebre “encostado a uma jurema seca, defronte ao juazeiro que a foice dos cabras ia pouco a pouco mutilando, Vicente dirigia a distribuição de rama verde ao gado” uma cuidado aparentemente paliativo para as reses magras e sofridas com grandes ossos furando o couro. O desejo de Vicente era deixar os animais morrer à míngua, assim como fez a dona Maroca das Aroeiras88.

Em verdade, o exílio advindo da seca não atingiu a todos do mesmo modo. As palavras de Josué de Castro ressaltam que a fome é hierárquica, por isso nem todos foram atingidos por ela na mesma intensidade. As marcas da diferença social são patentes: Conceição e Dona Inácia prontamente embarcaram de trem, enquanto Chico Bento sem qualquer recurso havia de ganhar o mundo a pés, sem comida, sem passagens, muito menos dinheiro, a conformação era desalento de vida, estavam desamparados, desabrigados, inconformados e invisíveis89.

88 QUEIROZ, Rachel de. O quinze. 107. Edição. Rio de Janeiro: José Olympio, 2017, p. 19. 89 Ibid,. p. 40.

Mesmo nessa inquietação com futuro, para os retirantes era preferível morrer durante a caminhada, a permanecer na fazenda e ter o mesmo fim. Mas o nordestino teima em não morrer, mesmo quando a morte se anuncia sem nenhum amparo, nem do governo, nem do Santo José. Já Conceição e sua avó, ao conforto, sem muitas preocupações partiram apenas com saudade e as lembranças do velho Quixadá, onde Vicente permaneceu temendo uma realidade antagônica dos Bentos: o vaqueiro e sua família tinha com o que sobreviver.

Infere-se que a diminuição na quantidade de alimentos seja fruto da diminuição da produção alimentar, neste caso, a produção de alimentos no contexto da seca é um cenário habitual. Sabe-se que em um modelo alimentar, perpassam um conjunto de estruturas empregadas em todas as etapas de produção e de transformação do alimento. Por via desse sistema é que o alimento chega até os comensais por canais de acesso do sistema alimentar (dentre esses canais se sobressai o cultivo e a colheita). Esse é um dos destaques na obra de Rachel de Queiroz. Da partida do Logradouro até os confins do Ceará, as dimensões que compõem o espaço alimentar e descritivo das paisagens, são evidentes. Desde a topografia, as características do solo, as formas da vida vegetal, a fauna, a economia e a vida social da região, tudo traz marcado, com uma nitidez inconfundível, a influência da falta de água nesta região semidesértica. O solo arenoso, empoeirado denuncia a pobreza de nutrientes90 91.

A criação de gado e da agricultura de sustentação com que trabalham os vaqueiros mostra a base dos recursos alimentícios da região. É da terra que o sertanejo, usando métodos culinários simples, retira ingredientes da base de seu regime alimentar, segundo Josué de Castro uma “alimentação sólida, porém bem equilibrada, a qual constitui um bom exemplo de como pode um grupo

90 POULAIN, Jean-Pierre; PROENCA, Rossana Pacheco da Costa. O espaço social alimentar:

um instrumento para o estudo dos modelos alimentares. Rev. Nutr. [online]. 2003, vol.16, n.3, pp. 245-256.

91 CASTRO J. Geografia da fome (o dilema brasileiro: pão ou aço). 10a Ed. Rio de Janeiro:

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humano retirar de um meio pobre recursos adequados às necessidades básicas de sua vida”92.

Ao analisar o espaço ficcional da obra é possível observar que Chico Bento e a família passam por dois momentos de fome. O primeiro marcado pela incerteza e o medo de não ter o que comer, e o segundo, diga-se de passagem, o mais cruel, marcado pela total privação alimentar.

Na primeira noite pelo deserto cearense os Bentos caíram nas terras devastadas e se arrancharam no vazio da noite. Carne de bode seca (salgada em demasia), farinha de mandioca e alguns pedaços de rapadura eram todos os insumos carregados do Logradouro. Logo prepararam uma trempe de galhos secos para assar a carne sobre as brasas. No silêncio da noite era possível ouvir apenas o barulho do sal estalando no fogo. Ao pôr o primeiro pedaço na boca Chico logo cuspiu. Era incomestível. “sal puro! Mesmo que pia!”. Ao contrário dele, os meninos, que de tanta fome não sentiram quaisquer diferenças gustativas, “rasgavam as lascas de carne, que engoliam lambendo os dedos”. Os menores, passado o furor do apetite, exigiam o que beber; gemiam e pigarreavam entretendo a garganta sedenta com o doce da rapadura93.

Esta é a primeira imagem do espaço alimentar. Ingredientes que simbolizam a cosmologia alimentar do sertanejo desde épocas coloniais formam o cardápio dos retirantes. O espaço do comestível, como única refeição do dia, aparece simples, monótona e insuficiente, com presumível consumo decadente de nutrientes, como vitaminas e minerais, e claramente energético. Além disso, demanda-se que os comensais tenham acesso e consumo de alimentos que obedeça às leis de variação, harmonia, cor e sabor adequados. Esta não é, nem de longe, a realidade aqui assumida. Em casos de extrema escassez esses atributos não são considerados, mas é a única predileção visto que a necessidade imediata é de calar a fome.

Existe uma ampla variação de elementos naturais — minerais, vegetais e animais, os quais podem iminentemente servir de alimento, mesmo que apenas

92 CASTRO J. Geografia da fome (o dilema brasileiro: pão ou aço). 10a Ed. Rio de Janeiro:

Antares Achiamé; 1980, p. 182.

uma pequena parcela esteja à disposição dos homens. A seleção desses elementos, como categoria do espaço comestível pode servir como objeto de análise em termo de performances adaptativas. Contudo, não se deve reduzir apenas a isto: as representações simbólicas do comer revelam a arbitrariedade entre as culturas e participam da diferenciação cultural dos grupos sociais quando, em biótopos equivalentes, as escolhas são diferentes de uma cultura para outra, de um determinado grupo para outro. O espaço do comestível, assim como o sistema culinário são, portanto, a escolhas que cada cultura opera no interior do conjunto de elementos colocados à sua disposição pelo meio natural, ou que poderá ser implantada pela decisão do grupo94.

Na obra esta decisão é por muitas vezes reprimida, a soberania alimentar é retraída, uma vez que para um grupo que passa fome escolher o que comer é ação de luxo. A partir de então, a escassez torna-se motor da neofilia. A falta de alimentos faz com que grupos incorporem ao seu repertório ingredientes antes tidos como culturalmente não comestíveis95. Essa ampliação é vista em O

Quinze. A fome aparece como motora da incorporação de novos alimentos,

antes percebidos culturalmente como não adequados para o consumo. A alimentação passou a depender da incerteza, na verdade, do inesperado.

Josué de Castro concluiu que o regime alimentar habitual da área do Sertão Nordestino apresentava-se quantitativa e qualitativamente equilibrado, atendendo sem déficits e sem excessos às necessidades nutricionais do sertanejo. Entretanto, esse equilíbrio nutricional estava sujeito às rupturas cíclicas dos períodos de seca, quando se desorganizava completamente a economia regional e instalava-se a fome epidêmica. O autor ainda relata que nos períodos de seca o sertanejo passava imediatamente para um regime de subalimentação, limitando a quantidade e a variedade de alimentos, reduzindo a sua dieta ao consumo de um pouco de feijão e farinha de mandioca. Quando a seca persistia e esses recursos alimentares se esgotavam, o sertanejo lançava

94 POULAIN, Jean-Pierre; PROENCA, Rossana Pacheco da Costa. O espaço social alimentar:

um instrumento para o estudo dos modelos alimentares. Rev. Nutr. [online]. 2003, vol.16, n.3, pp. 245-256.

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mão de outras estratégias de sobrevivência, como por exemplo consumir as “iguarias bárbaras” do sertão.

No outro dia cedo durante o percurso, a família de Chico deparou-se com outro grupo de retirantes:

Encostando-se ao tronco, Chico Bento se dirigiu aos esfoladores: — De que morreu essa novilha, se não é da minha conta?

Um dos homens levantou-se, com a faca escorrendo sangue, as mãos tintas de vermelho, um fartum sangrento envolvendo-o todo: - De mal- dos-chifres. Nós já achamos ela doente. E vamos aproveitar, mode não dar para os urubus.

Chico Bento cuspiu longe, enojado: E vosmecês têm coragem de comer isso? Me ripuna só de olhar...

O outro explicou calmamente: - Faz dois dias que a gente não bota um de-comer de panela na boca...

Chico Bento alargou os braços, num gesto de fraternidade: - Por isso não! Aí nas cargas eu tenho um resto de criação salgada que dá para nós. Rebolem essa porqueira pros urubus, que já é deles! Eu vou lá deixar um cristão comer bicho podre de mal, tendo um bocado no meu surrão!96

A benevolência de Chico Bento teve um preço. Os insumos repartidos em ato de fraternidade eram as últimas reservas que restaram do Logradouro. O grupo de retirantes seguiu a caminhada sem nenhuma reserva e a desolação da fome havia de chegar e com ela a primeira grande tragédia: a morte do filho por envenenamento.

Num roçado abandonado, Josias o filho do meio, quase caindo de fome, não acompanhou os passos da família, longe dos olhos de Cordulina e Chico Bento que muito estava distraído a procura de um abrigo para passar a noite. O menino entrou na roça, escavacou com um pequeno pau o chão, numa cova, onde um tronco de manipeba apontava; e dificultosamente, conseguiu encontrar uma raiz aparentemente suculenta: avidamente roeu o pedaço seco até os

dentes rangerem. E não demorou muito para o corolário: a criança estiolada foi o grande primeiro sinal do desalento.

La se tinha ficado o Josias, na sua cova à beira da estrada, com uma cruz de dois paus amarrados, feita pelo pai. Ficou em paz. Não tinha mais que chorar de fome, estrada afora. Não tinha mais alguns anos de miséria pela frente da vida, para cair depois no mesmo buraco, à sombra da mesma cruz97.

Há uma delicadeza definida de Rachel de Queiroz ao relatar o sofrimento infantil, uma preocupação compreensível, se considerar que o processo da fome se manifesta de maneira mais agressiva na criança. A inquietação de Chico Bento e Cordulina aumenta após a morte de Josias. Um sentimento de impotência por não poder saciar a fome daquele que depende de seu auxílio, um momento impossível de suprir as necessidades básicas dos filhos. A chegada da fome absoluta diferentes consternações: primeiro, as crianças que não compreendem o momento processo de penúria alimentar; segundo o dos pais, que sabem que nada pode ser feito, a não ser esperar por providências divinas.

É observável como a fome expande a dimensão alimentar, e por assim dizer, do culinário. Em O Quinze este espaço desponta transformações simples e rápidas, ainda que feitas com esmero. Nesses termos é necessário compreender que “a cozinha é um conjunto de aç es técnicas, de operaç es simbólicas e de rituais que participam da construção da identidade alimentar de um produto natural e o transformam em consumível”. Tomando as reflexões de Claude Lévi-strauss, explica-se.

Um dos eixos do pensamento levistraussiano exposto no I e III volume da obra Mitológicas é que a culinária marca uma passagem da natureza à cultura. Para demonstrar essa ideia o antropólogo elabora um triângulo: nos três vértices temos as categorias fundamentais que falam sobre os estados nos quais os alimentos se apresentam para os homens: cru, cozido e podre. O cru é o polo

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não marcado do triângulo, este é o estado o qual se encontram todos os alimentos do espaço comestível. A partir deles temos duas possibilidades de transformações opostas: uma cultural, que dá origem ao cozido, e há sempre um cuidado próprio ao saber culinário, a exemplo da trempe para assar a carne e preparar o café ou a raspagem feita por Cordulina para da mandioca fazer o beiju. E outra natural que gera o podre, como as carnes fétidas que o grupo de retirantes iam-se banquetear98.

Esse modelo se apresenta como uma lente conceitual para analisar a alimentação, o resultado aqui se deu por uma modificação imbricada no hábito alimentar da família. Assim como a linguagem, de acordo com Lévi-Strauss, a cozinha é uma atividade universal, presente em qualquer sociedade humana, sendo constituída por cada cultura de modo inconsciente, criando assim sua própria estrutura. Aqui considera-se que a cozinha (o sistema culinário) não possui um sentido de espaço físico, é mais amplo. Procedimentos culinários ou práticas de higiene, é um sistema de significados na qual é moldada pelas práticas alimentares e pelos elementos culturais e simbólicos de um determinado grupo social, e assim como a linguagem ela é regrada99. Pelo impulso da fome,

carne em estado de putrefação e raiz crua tóxica tornaram-se parte da refeição dos retirantes e que para além de desobedecer a uma regra cultural alimentar, instaura o quadro de insegurança alimentar e nutricional.

A fome emerge como uma batalha a qual o retirante tenta vencer um pouco a cada dia. Depois de sucessivas tragédias, o filho mais velho, Pedro, se decide sem comunicar aos pais, seguir caminho sem eles, talvez tivesse seguido alguém. E léguas após, Chico Bento chegando ao Acarape, lugar onde supunha que ele pudesse ser encontrado, vai pedir ajuda ao delegado, que era por acaso um compadre seu. Manda saírem em busca do rapaz, mas não o encontram, um

98 LÉVI-STRAUSS, Claude. A origem dos modos à mesa. Tradução de Beatriz Perrone-

Moisés. São Paulo: Cosac Naify, 2006, p. 435. (Mitológicas, 3).

99 De acordo com Contreras (2011) as regras são normas estabelecidas para impor uma ordem,

criadas para ditar como as coisas devem ser realizadas ou organizadas. Questões jurídicas, políticas, sociais são estabelecidas por regras. No tocante à alimentação isto não ocorre de maneira diferente. A espécie humana possui regras sobre o que comer e como comer. Claude Lévi-Strauss estruturou um modelo universal (triângulo culinário) para se compreender as regras culinárias de acordo com diferentes culturas.

volta com a notícia de que ele provavelmente teria partido com um grupo de comboieiros de cachaça. Cordulina já nem chora mais, e pensa que talvez fosse para a felicidade do menino. Talvez também porque os sentimentos já tivessem se esvaído pela desnutrição, para os corpos famintos, esta é a sentença da fome.

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