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Implications of the UNCTAD projections

Dans le document THE LEAST DEVELOPED COUNTRIES REPORT 2016 (Page 102-113)

Ao traçar zonas fronteiriças entre o biológico e social, Jean-Peirre Poulain e Rossana Proença assinala que, independentemente da importância que se dá às dimensões sociais e políticas como determinantes da conduta alimentar, o certo é que as consequências derivadas da alimentação, neste caso da fome, são fundamentalmente fisiológicas. A obra descreve bem os fantasmas da seca: estado de osso e pele, magreza extrema, ventre inchado e pele seca dos corpos famintos. Além das consequências imediatas da fome sobre o corpo, Rachel ainda revela o montante de situações que degradam o indivíduo em seus aspectos emocionais e psicológicos. A luta incessante contra a seca e a fome acarreta determinados enfrentamentos como, por exemplo, crises de depressão, ou nas palavras de Mãe Nácia “pessoas loucas” pois “fome demais tira o juízo”100.

Em diversas passagens do espaço ficcional da obra é possível detectar sinais que assinalam esse quadro: tristeza profunda, revolta, delírios e transgressão são estados comuns oriundos do período de fome epidêmica. Abaixo seguem trechos da obra sobre situações de desordem emocional:

Quadro 4. Citações diretas da obra sobre crises emocionais e psicológicas

página Citação direta

48 “os meninos choramingavam pedindo de comer. E

Chico Bento pensava: “Por que, em menino, a inquietação, o calor, o cansaço sempre aparecem com o nome de fome?”

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57 “— Mãe, tô com fome de novo...

— Vai dormir, diacho! Parece que tá espritado! Soca um quarto de rapadura no bucho e ainda fala que tem fome! Vai dormir!”

72 “— Chico, eu não posso mais... Acho até que vou

morrer. Dá-me uma zoeira na cabeça!”

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82 “— contar o quê? Histórias de seca? Diz que um

negro lá pras bandas de Morada Nova matou um menino, salgou, e ficou comendo os pedaços, aos poucos”.

83 “Vicente contava a história de uma mulher conhecida

que endoidecera, quando viu os filhos morrendo à falta de comida” “— Talvez tenha enlouquecido também de fome.”

FONTE: Queiroz (2017)101.

Ao analisar estas passagens, no que diz respeito à condição emocional e psicológica, pode-se observar a perturbação frente a necessidade de alimentar- se. Os eventos são registrados em curtos intervalos de tempo, o que demarca uma cotidianidade para os que sofrem e os que rodeiam os famintos. Para Josué de Castro, a fome pode causar distúrbios mentais e, por isso, a loucura está muito próxima dela. Mesmo que a fome não se apresente como causa direta desta enfermidade, ela pode ser o limite para que ela se manifeste.

Uma investigação sobre essa questão foi publicada na Folha de São Paulo em 31 de maio de 1998. O estudo realizou uma análise sobre a reportagem Seca e fome acirram distúrbios mentais e constatou que parte da população no sertão do Ceará apresentaram “surtos de desequilíbrio” com comportamentos agressivos e violentos. O motivo para o aumento dessas ocorrências se deu mais aparente nos períodos de seca e estiagem na região,

em que a fome, castigou os moradores transformando-os nos “loucos da seca”102 103.

Pode-se questionar então, o que há em comum entre o regime da escassez e a deturpação mental? Ambas produzem sofrimento. A fome pode ser responsável pelo desmonte ético de cada indivíduo, assim como da referência de sujeito cidadão e seu comportamento em sociedade, onde o sofrimento acumulado pela miséria e a opressão de quem nada possui (moradia, dignidade, comida), faz com que o sujeito submetido a tais situações, se revolte e possa agir sem qualquer controle, resultando em partes na perda da dignidade, que, para o homem nordestino, não está nas suas posses, mas na sua conduta. Chico Bento, em decorrência da miséria em que se vê, mata uma cabra que encontra pelo caminho. Sua fome e a de seus filhos falam mais alto, e ele esfacela o animal, sem qualquer questionamento sobre o ato de se apropriar do alheio.

Além desse tipo de confronto, os famintos lidam com outro produto advindo da fome: o corpo magro, sofrido e desfigurado. Num repentino momento Chico Bento recordou de Cordulina na época do casamento, sua memória embaraçada trouxe imagens de uma mulher de branco, gorda e feliz. A imagem real e a evocada de sua esposa atormentou a cabeça do vaqueiro seus olhos só podiam ver uma Cordulina de pele empretecida e “magra como a morte”. Além dela, repousava no colo da mulher, seu filho quase que sumindo entre os trapos, a criança era só osso e pele104.

Em verdade, sabe-se que do ponto de vista sócio-antropológico o ato de comer tem forte relação com a dimensão corporal do humano. Bem como o alimento, o corpo propaga um aglomerado de significados que fundamentam a existência do sujeito, seja individual ou coletiva, podendo ser moldado de acordo com o contexto social e cultural. O corpo pode ser compreendido como áxis da relação com o mundo, na qual todos os significados tomam uma forma e são

102 GUIBU, F. Seca e fome acirram distúrbios mentais. Folha de São Paulo, 31/05/98. 1º

caderno, p. 17-18, 1998.

103 REBELLO, Lêda Maria de Vargas. Loucuras da fome. Caderno de Saúde Pública, Rio de

Janeiro, v. 14, n. 3, p. 643-646, 1998.

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refletidos na fisionomia de cada pessoa. Como nos lembra o sociólogo Claude ischler “somos aquilo que nós comemos”, tanto por um plano real como imaginário. O alimento absorvido, além de proporcionar a energia vital necessária para a sua manutenção do corpo e que, portanto, atua na sua modificação. Por isso, a incorporação de nutrientes é válida também no plano imaginário, uma vez que permite cruzar a fronteira entre o eu e o mundo, concedendo que se construa sua natureza, sua identidade105 106.

Tanto o corpo como o comer são instituidores de uma identidade individual ou coletiva. Os corpos dos retirantes foram moldados pelas violações e privações da inanição, a imagem da desnutrição e da magreza extrema opera como espelho das injustiças sociais. A fome além de definhar e corroer a sua carne, produziu marcas da identidade corporal como as duas imagens de Cordulina deliradas por Chico Bento. Nesta situação, o comer ou a privação, através do corpo, atuam como marcadores do espaço da diferenciação social107.

Nas sociedades multifárias, as diferentes classes e culturas orientam as significações e valores que os indivíduos possuem com o seu corpo. A forma estética do corpo pode representar um conjunto de condutas dadas por uma determinada classe social. À vista disso, tem se observado que indivíduos de classes baixas preferem pela estética do corpo gordo, isto pode ser explicado pelo fato de que o padrão de estética que valoriza o ac mulo de gordura, “a barriga cheia”, são formas de guerrear contra a ameaça da fome108.

Rachel de Queiroz não oferece nenhuma representação imagética dos corpos famintos da seca de 1915. Mas, além dos registros nas obras literárias, outros artistas também propuseram reflexões neste contexto, porém, em molduras de arte. Cândido Portinari (1903-1962) nasceu em Brodowski no

105 POULAIN, Jean-Pierre; PROENCA, Rossana Pacheco da Costa. O espaço social alimentar:

um instrumento para o estudo dos modelos alimentares. Rev. Nutr. [online]. 2003, vol.16, n.3, pp. 245-256.

106 FISCHLER, Claude. El (h)omnívoro: el gusto, la cocina y el cuerpo. Barcelona: Editorial

Anagrama, 1995.

107 POULAIN, Jean-Pierre; PROENCA, Rossana Pacheco da Costa. O espaço social alimentar:

um instrumento para o estudo dos modelos alimentares. Rev. Nutr. [online]. 2003, vol.16, n.3, pp. 245-256.

108 LE BRETON, David. A sociologia do corpo. 2. ed. Tradução de Sônia Fuhrman. Petrópolis:

Estado de São Paulo e ficou conhecido por suas obras de pintura em retratar a história do brasil em amplos aspectos. Dentre delas, a obra Retirantes de 1944, como o próprio nome anuncia, retrata uma família migrando em terras sertanejas.

Imagens 7: Retirantes de 1944. Fonte: Museu de Arte de São Paulo – MASP109.

O contorno escuro dos personagens dá um tom pesado à obra. Ao fundo é possível notar características da paisagem do sertão. Os quadros retratam de uma forma assustadoramente magra, onde a pele fina cobre os ossos. Em os

Retirantes uma criança pequena de barriga inchada caracteriza o quadro de

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Kwashiorkor. Assegura-se que o caminhar seja em busca de um mundo melhor.

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