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The economic and political calculus of graduationcalculus of graduation

Dans le document THE LEAST DEVELOPED COUNTRIES REPORT 2016 (Page 74-81)

International dimensions

G. The economic and political calculus of graduationcalculus of graduation

A obra literária regionalista tem sido definida, de acordo com Ligia Chiappini, como “qualquer livro que, intencionalmente ou não, traduza peculiaridades locais”, e que forma uma estética espacial. Decerto, toda obra literária seria regionalista, enquanto, com maiores ou menores mediações, de modo mais ou menos explícito ou mais ou menos mascarado, expressa seu momento e lugar e que pode ser apreendida como objeto de estudo27.

No campo das ciências humanas é possível observar o interesse de acadêmicos sobre estudos das relações sociais e o espaço. Edward Soja fundamenta sua crítica de Geografias Pós-modernas à medida que elenca os

26 GALENO, Alex. Comunicação, crueldade e compreensão. In: GALENO, A. FRANÇA, F.

AZEVEDO, G. Ensaios indisciplinados: comunicação, cultura e arte. EDUFRN: Natal. 2014, p. 261.

27 CHIAPPINI, Ligia. Do beco ao belo: Dez teses sobre o regionalismo na literatura. Estudos

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contributos de Henri Lefebvre, Michel Foucault, John Berger, Ernest Mandel e Anthony Giddens. Nota-se o debate sobre a importância da espacialidade na teoria e na prática social — o que torna visível o espaço como a (re)produção da sociedade. Um fenômeno inerente que se pode incluir a essa discussão é alimentação: tema que foi explorado por Vidal de La blache (1954) em seu clássico Princípios de Geografia Humana. O autor estabelece que entre as forças mais significativas que ligam o homem a um determinado espaço é o alimento28.

Em verdade, grande parte dos problemas alimentares enfrentados pela Saúde Coletiva têm profundas conexões com o cotidiano das pessoas e o lugar onde elas habitam. O processo de territorialização emerge como instrumento profícuo para localizar eventos e entender os contextos de uso do território em todos os níveis das atividades humanas (econômicos, sociais, culturais, políticos), viabilizando estas como categoria de análise social a atenção integral em saúde, que considera o homem em sua dimensão biopsicossocial, por conseguinte, a dimensão alimentar29. Logo, o construto dessas dimensões

supracitadas faz com que diversos sistemas alimentares sejam produzidos. Isto porque, na constituição desses sistemas, intervêm fatores de ordem ecológica, histórica, cultural, social e econômica que implicam representações e imaginários sociais envolvendo escolhas e classificações, que variam em cada território disposto. Suas inúmeras facetas se ordenam em dois grandes universos, pelo menos. O primeiro se estende do biológico ao cultural, da função nutritiva à função simbólica. O segundo, do indivíduo ao coletivo, do psicológico ao social. O homem biológico e o homem social, a fisiologia e o imaginário, estão próximos e mesclados no ato alimentar30.

Edificar um instrumento metodológico com fins de estudo para um fenômeno (espaço e alimentação) multidimensional, complexo e com múltiplos

28 VIDAL DE LA BLACHE, Paul. Princípios de Geografia Humana. Lisboa, Edições Cosmos,

1954.

29 GONDIM, Grácia; MOKEN, Maurício. Territorialização em saúde. In: BRASIL. Ministério da

Saúde. Dicionário da Educação Profissional em Saúde. Brasília: MS, 2009. Disponível em: <http://www.epsjv.fiocruz.br/dicionario/verbetes/tersau.html>. Acesso em: 12 set. 2018.

30 FISCHLER, C. El (h)omnívoro: el gusto, la cocina y el cuerpo. Editorial Anagrama, Barcelona,

acessos demanda a construção de um referencial epistemológico que abarque estes pressupostos. A ideia de espaço social alimentar proposta por Poulain e Proença (2003) constitui “um objeto sociológico total no sentido Maussiniano do termo quer dizer que coloca em movimento ... a totalidade da sociedade e de suas instituiç es”. Esta ferramenta funciona como uma possibilidade que assinala a conexão bioantropológica do estudo de fen menos alimentares deriva do conceito de espaço social de George Condôminas que busca “compreender as interrelaç es entre um grupamento humano e o seu meio, e encontra na alimentação um campo de aplicação particularmente fecundo”31.

Tratando-se da fome, a conexão entre o homem e o seu meio, ou seja, seu espaço, é princípio elementar para compreender o fenômeno. No Brasil, Josué de Castro em seu estudo pioneiro intitulado Geografia da Fome (1946) baseou-se nos princípios estabelecidos por Vidal de La Blache e outros geógrafos como Carl Ritter (1779-1859) e Alexander Von Humboldt (1769-1859) para “localizar com precisão, delimitar e correlacionar os fen menos naturais e culturais que ocorrem à superfície da terra”. O resultado apresentado foi uma representação cartográfica em cinco áreas alimentares e as principais carências nutricionais existentes no país: a área Amazônica, o Nordeste açucareiro, o Sertão Nordestino, o Centro-Oeste e o Extremo-Sul32.

Outra apresentação, pouco mais ambiciosa em termos de território, provém do Martín Caparrós e sua obra A fome publicada em 2016. Entremeado na Índia, Bangladesh, Sudão do Sul, Estados Unidos, Argentina, Madagascar e Nigéria o autor apresenta disposições causais de como a fome se expressa em cada uma das regiões a as influências condicionantes do espaço político, social, cultural e econômico.

Acredita-se que discutir eventos acerca da alimentação, sobretudo da fome, é uma tarefa que pode ser apoia através das produções literárias como

31 POULAIN, Jean-Pierre; PROENCA, Rossana Pacheco da Costa. O espaço social alimentar:

um instrumento para o estudo dos modelos alimentares. Rev. Nutr. [online]. 2003, vol.16, n.3, pp. 245-256.

32 Castro J. Geografia da fome (o dilema brasileiro: pão ou aço). 10a Ed. Rio de Janeiro: Antares

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fonte de acesso àquele espaço. Pois, as obras de arte, como nos lembra Edgar Morin, guardam reflexões sobre o humano e abriga um cosmo de possibilidades transcendentais. Pois, para além de uma estética da representação, pautada sob os direcionamentos de uma mimesis, a arte é criação do novo, poiesis33 34. A

geografia literária enquanto campo do conhecimento reflete essa potência criativa.

O conhecimento de uma poética social revela possibilidades para a compreensão da sociedade e seus espaços. É dessa forma que Walter Benjamin percebe a obra de Baudelaire. Com sua grande sensibilidade perceptiva, ele viu nessa obra uma fonte primacial, complexa, para compreender a relação entre homem e o lugar em que habita35. O espaço literário surge como categoria de

análise. Nesse sentido, é considerado como uma metáfora central e topos na literatura, e a crítica literária pondera o espaço como uma nova ferramenta e participação. Da mesma forma, a literatura revela-se como um campo ideal para estudos das Ciências Humanas36.

A ideia de representar os espaços literários não é recente. Um estudo que remonta historicamente o campo, mostra que há mais de um século pesquisadores tentam empreender esta tarefa, sobretudo, por meio da construção cartográfica. Um representante que talvez tenha feito isso em primeira instância e de forma mais sistematizada foi Franco Moretti, que tenta, em Atlas do romance europeu 1800-1900 (1997)37, ler fenômenos culturais,

33 MORIN, Edgar. A Cabeça Bem-feita: Repensar a Reforma, Reformar o Pensamento.

Tradução de Eloá Jacobina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.

34 MACHADO, Roberto. Deleuze, a arte e a filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 1999. 35 BENJAMIN, Walter. Charles Baudelaire – Um autor lírico na época do Alto Capitalismo. São

Paulo: Brasiliense, 1988. (Obras Escolhidas, v. 3).

36 PERALDO, Emannuelle. Literature and Geography: The Writing of Space throughout History.

Cambridge Scholars Publishing; 1 ed. 2016.

37 Moretti discute tanto a distribuição das formas literárias no espaço geográfico quanto o efeito

do espaço na literatura. No primeiro capítulo, Jane Austen e Sir Walter Scott são os temas de sua investigação sobre a ligação entre o enredo de um romance e os locais onde a história se passa - o campo, a fronteira e as colônias. O segundo capítulo diz respeito a uma comparação da Paris de Balzac com a Londres de Dickens, enquanto a terceira é dedicada a uma investigação sociológica sobre a dispersão de gêneros em toda a Europa. Moretti está convencido de que a geografia determina a forma literária. Sem um certo tipo de espaço, um certo tipo de história é simplesmente impossível. A geografia é o espaço informacional que

descritos nas obras literárias do século XIX, sob o apoio de mapas e diagramas. O ensejo deste autor localiza-se em uma década, anos 90’s, onde a abordagem do espaço começa tomar o lugar de um dos conceitos primordiais de análise nas Ciências Humanas: o de temporalidade. Sobre essa abordagem, Pierre Monbeig, apontou a necessidade de a Geografia trazer para seu escopo leituras não-técnicas com a finalidade de expressar seus conteúdos de forma mais vívida, mais humana. Leituras como as de literatura, que tão bem descrevem o espaço vital, poderiam ser auxiliares neste intento38 39.

No entanto, a geografia literária ultrapassou simplesmente a combinação das duas disciplinas para aprender umas com as outras. No passado, havia um foco nas maneiras pelas quais as configurações descritas em um romance ajudam a conectar esse espaço com localizações físicas no mundo. Este ainda é um bom ponto de partida para estudar as muitas facetas da geografia literária, todavia, mais recentemente uma abordagem interdisciplinar tem sido vista como mais útil e melhor representante de como essas tradições acadêmicas trabalham juntas para forjar novos conhecimentos. Novos estudos no campo da geografia literária precisam demonstrar mais do que apenas a “análise literária de temas geográficos ou a análise geográfica de textos literários”. Há menos preocupação com a precisão de um cenário específico e mais investigação sobre a geografia do próprio texto e o que nós, como leitores, podemos aprender com isso40.

O uso de passagens literárias descritivas como dado de análise foi sendo modificado por um crescente destaque humanístico. Inicialmente o enfoque que

estrutura a narração e programa as possibilidades da trama. A título de exemplo, em seus mapas, Moretti mostra que a estrutura dos romances de Dickens está ligada à estrutura geográfica (e social) de Londres. A Paris de Balzac (com suas margens esquerda e direita do Sena) programa outros anseios e planos do que a Londres socialmente estratificada de Dickens, ou a fronteira nos romances de Scott.

38 PIATTI, Barbara; REUSCHEL, Anne-Kathrin; HURNI, Lorenz. Literary Geography–or How

Cartographers Open up a New Dimension for Literary Studies. In: INTERNATIONAL CARTOGRAPHY CONFERENCE, 24, 2009, Santiago de Chile. Disponível em:

<&lt;http://icaci.org/files/documents/ICC_proceedings/ICC2009/html/nonref/24_1.pdf&gt;>. Acesso em: 31 jul. 2018.

39 MONBEIG, Pierre. Novos estudos da Geografia Humana brasileira. São Paulo: Difusão

européia do livro, 1957.

40 HONES, S. Literary geography. In: RICHARDSON, D. et al. The encyclopedia of geography.

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se encontrava nos recortes geográficos passou a entender o papel da narrativa literária como um evento espacial próprio que conta com a interação de múltiplos agentes; assim como propõe Sheila Hones (2017), a autora diz que a geografia apresentada em um romance é entendida como resultante das relações entre o escritor, o texto e o leitor. Nesse sentido, a geografia é uma co-construção edificada pelo o autor e o leitor, com o texto também escrevendo parte da geografia contida nele. Pois de fato, não existe uma compreensão única do corpo literário dispostas de leitores ou obras genéricos, o que existe são potenciais de criatividade moldados por eles. Saunders (2010) observa que “se quisermos obter uma compreensão mais completa do evento espacial do texto, precisamos entender as outras interseções a partir das quais ele é composto; aqueles que ocorrem no processo de criação do trabalho e não apenas o seu consumo”41.

Essa guia transdisciplinar foi usada por Hones em suas análises literárias: a autora tomou o espaço narrativo no romance Let the Great World Spin (2009), de Colum McCann. Ela indica que esta é uma tentativa de conectar teoria e método em estudos literários com teoria e método em geografia cultural. Seu trabalho propõe uma combinação de espaço geográfico e literário e rejeita a ideia de que o espaço dentro de um romance é simplesmente contido dentro do cenário. O romance foi usado como um estudo de caso para testar possíveis práticas dentro da geografia literária — esta pesquisa não foi projetada para ser uma crítica do romance. Hones observa que o livro oferece apenas uma abordagem do “amplo espectro do trabalho” que está sendo feito em geografia literária e questiona como o futuro da disciplina pode parecer, à medida que acadêmicos de estudos literários continuam adicionando discussão complexa.

A partir das dimensões do espaço narrativo proposto por Sheila Hones é que o romance de Rachel de Queiroz foi aqui analisado, para esse trabalho, três pontos elementares versa a literatura famélica em sua obra. São eles:

Primeiro: A trama de Rachel é encarnada pela seca, fator de um determinismo da natureza impiedosa, uma expressão objetiva dos infortúnios sociais para aqueles que não tinham melhores condições de sobrevivência nos

41 SAUNDERS, A. Literary geography: reforging the connections. Progress in Human

períodos prolongados de estiagem, sendo forçados a migrarem. A partir das dimensões apresentadas por Hones é possível traçar uma análise da fome que foge a imagem naturalizada da seca, neste caso há, o envolvimento político- social revelado pelo contexto de produção. A voz da autora como militante política de esquerda expressava o ensejo de uma transformação anunciada na obra. Pode-se considerar que a sua utopia era um ordenamento da natureza e que, portanto, a ordem social deveria estar mais de acordo com a “natureza humana”, a autora

trabalha com uma imagem idealizada do homem do sertão nordestino, o mito do sertanejo, ao mesmo tempo em que fala de ação e valentia, fala de reação ao urbano, às modificações tecnológicas, fazendo da denúncia das transformações sociais, trazidas pelo capitalismo e sua ética mercantil, o ponto de partida para a utopia de uma sociedade nova que, no entanto, resgatasse a pureza, os vínculos comunitários e paternalistas da sociedade tradicional. O seu socialismo se aproxima mais de uma visão paternalista de fundo cristão e exprime a revolta de uma filha de famílias tradicionais da região, que vê a vida dos seus degradada pelo avanço das relações mercantis e pelo predomínio das cidades. Seus personagens são subversivos à medida que contestam a ordem capitalista, mas a sua visão de sociedade futura mistura-se com uma enorme saudade de um sertão onde existia “liberdade”, “pureza”, “sinceridade”, “autenticidade”. Seus personagens se debatem mais contra o social do que pela mudança social. São seres sempre em busca desta verdade irredutível do homem contra as “mentiras” e o “artifício” do mundo moderno42.

Segundo: o espaço social alimentar engajado às dimensões narrativas do romance constitui uma ferramenta de análise que ultrapassa a compreensão alimentar por apenas a coleta de dados contidos na obra, e parte para o fomento de resquícios históricos imbricados no contexto de sua produção sob o olhar da autora. Ainda é possível inserir o trabalho do leitor (pesquisador) como voz ativa de relação com o objeto de estudo e o tempo atual.

Terceiro: estudos que tomam obras literárias como corpus ganham um campo cada vez mais dinâmico de abertura para uma abordagem transdisciplinar. Ao aproximar eixos múltiplos de conhecimento há diversas contribuições sobre os princípios de sua prática cientifica, desde a observação e

42 ALBUQUERQUE JR, Durval Muniz de. A invenção do Nordeste e outras artes. 4ª ed. Recife:

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descrição do lugar ao desenvolvimento de novas concepções e abordagens subjetivas nas relações sociais. A literatura como expressão artística cumpre o papel disseminador do conhecimento humanístico, do ato de criação e da produção artística. Como foi visto, a literatura pode viabilizar a produção de estudos científicos por uma ótica que rompe com o pragmatismo dos estudos cartesianamente biomédicos para o fenômeno alimentar. Assim, encontra-se no diálogo da literatura com o tema da fome, uma maneira de despertar no mundo inquietações do imaginário, (re)pensando sobre como compreender os aspectos singulares daqueles que têm fome.

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