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MOTOROLA MICROPROCESSOR DATA 3-1048

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Vimos que na passagem do terceiro ao quarto grau de despersonalização do eu lírico, a ação autorreflexiva do sonho aniquila a identidade das veladoras e força sua atitude psicológica a assumir uma forma indefinida, como se as personagens estivessem a falar de ninguém para ninguém64. Nesse momento, elas abandonam a série de oposições simbólicas do continuum temporal psicológico para personificar o sonho do marinheiro no plano de composição da não-identidade, percorrendo as flutuações simbólicas do diálogo como um sistema de antagonismos, cuja unidade torna-se possível apenas a partir da não-identidade da Quinta Pessoa. Certamente, o plano de composição da não-

identidade não aparece apenas no ato de escrita do drama, mas sobretudo como efeito

compreensivo de leitura, ou seja, como apreciação crítica do processo de despersonalização durante a progressão autorreflexiva do diálogo entre as irmãs. A Quinta Pessoa, ou Fernando Personne,65 é a figura que personifica esse efeito compreensivo, como um testemunho implícito de que, durante os momentos de pausa, descanso, ou intervalo descontínuo da leitura e da escrita, as veladoras continuam a existir através de uma série de disposições antagônicas na imaginação do leitor, como ocorre no poema irônico de Álvaro de Campos:

63 PESSOA, F. Obra Poética, O Marinheiro, p.450.

64 Quanto à ideia de um drama estático representado como figuras em um quadro, remeto o leitor ao seguinte

trecho do Livro do Desassossego: “O mais alto grau do sonho é quando criado um quadro com personagens — vivemos todas elas ao mesmo tempo — somos todas essas almas conjuntas e interactivamente. É incrível o grau de despersonalização e de encorajamento do espírito a que isto leva e é difícil confesso-o, fugir a um cansaço geral de todo o ser ao fazê-lo...” PESSOA, F. Livro do desassossego, p. 456.

65 Ou Ferdinand Personne, trocadilho com o nome do poeta, atribuído a sua namorada Ofélia. Leyla

Perrone-Moisés dedica um capítulo de seu livro à figura de Pessoa Ninguém, em que analisa algumas de suas implicações sob o ponto de vista psicanalítico. Cf. PERRONE-MOISÉS, L. Fernando Pessoa: Aquém

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À Fernando Pessoa

Depois de ler o seu drama estático “O Marinheiro” em “Orpheu I”

Depois de doze minutos Do seu drama O Marinheiro, Em que os mais ágeis e astutos Se sentem com sono e brutos, E de sentido nem cheiro, Diz uma das veladoras Com langorosa magia:

“De eterno e belo há apenas o sonho. Por que estamos nós falando ainda?” Ora isso mesmo é que eu ia

Perguntar a essas senhoras...66

Fixada “em moldes de realidade”, a série de oposições simbólicas produzida pela progressão do diálogo entre as veladoras dá origem ao plano de composição da não- identidade, no qual a autorreflexão formal do “drama estático em um quadro” promove o entrecruzamento de vozes despersonalizadas de uma identidade. À certa altura do diálogo, a despersonalização do eu lírico alcança uma forma mais elevada e rarefeita, na qual as diferentes vozes silenciam diante do sonho autorreflexivo do marinheiro, personificando a não-identidade da Quinta Pessoa como uma espécie de alteridade

absoluta da forma dramática. Os heterônimos encontram-se, de certa forma, prefigurados

na personificação da não-identidade da Quinta Pessoa, como antecâmara do quinto grau de despersonalização do eu lírico, que ocorrerá em toda sua extensão e plenitude com a personificação de Alberto Caeiro, n’O Guardador de Rebanhos e de Fernando Pessoa ortônimo, em Chuva Oblíqua, escritos poucos meses após O Marinheiro, em março de 1914.

Criei, então, uma coterie inexistente. Fixei aquilo tudo em moldes de realidade. Graduei as influências, conheci as amizades, ouvi, dentro de mim, as discussões e as divergências de critérios, e em tudo isto me parece que fui eu, criador de tudo, o menos que ali houve. Parece que tudo se passou independentemente de mim. E parece que assim ainda se passa. Se algum dia eu puder publicar a discussão estética entre

56 Ricardo Reis e Álvaro de Campos, verá como eles são diferentes, e como eu não sou nada na matéria.67

Alteridade absoluta, personificação da não-identidade ou alegoria da alteridade, Fernando Personne aparecerá, a seguir, no auge de sua despersonalização, personificado na imagem do argonauta das sensações, que traz para o universo dos leitores reais ou heterônimos o universo antiliterário das sensações verdadeiras,

Ainda assim, sou alguém. Sou o descobridor da Natureza.

Sou o Argonauta das sensações verdadeiras. Trago ao Universo um novo Universo Porque trago ao Universo ele-próprio. [...]

Da mais alta janela da minha casa Com um lenço branco digo adeus

Aos meus versos que partem para a Humanidade. [...]

Ei-los que vão já longe como que na diligência E eu sem querer sinto pena

Como uma dor no corpo. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? [...]

Passo e fico, como o Universo.68

personificado na imagem dos olhos heteronímicos de Ricardo Reis, que se observam ironicamente a si mesmos através dos olhos virtuais dos heterônimos e dos olhos reais do leitor, como se fossem a forma exterior do poema,

Melhor destino que o de conhecer-se Não frui quem mente frui. Antes, sabendo, Ser nada, que ignorando:

Nada dentro de nada.

Se não houver em mim poder que vença As Parcas três e as moles do futuro, Já me dêem os deuses

O poder de sabê-lo;

67 PESSOA, F. Obra em Prosa, Carta à Casais Monteiro, p.96.

57 E a beleza, incriável por meu sestro,

Eu goze externa e dada, repetida Em meus passivos olhos, Lagos que a morte seca.69

personificado na imagem do poema-navio que faz Álvaro de Campos sentir e pensar todas as sensações a bordo de todos os navios, com homens de todos os tempos, interrogando- se não apenas sobre quem escreve, mas também sobre o estado subjetivo de quem o lê,

Eu quem sou para que chore e interrogue? Eu quem sou para que te fale e te ame? Eu quem sou para que me perturbe ver-te?70

e na dor que nunca fora sentida, senão literariamente, por Fernando Pessoa ortônimo, Fernando Pessoa ele-mesmo, pelo leitor e por Ninguém:

O poeta é um fingidor. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente. E os que leem o que escreve, Na dor lida sentem bem, Não as duas que ele teve, Mas só a que eles não têm.

E, assim, nas calhas de roda Gira, a entreter a razão, Esse comboio de corda Que se chama o coração.71

69 PESSOA, F. Obra Poética, Odes de Ricardo Reis, p.276.

70 PESSOA, F. Obra Poética, Álvaro de Campos, Ode Marítima, p.335. 71 PESSOA, F. Obra Poética, O Cancioneiro, “Autopsicografia”, p.165.

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