• Aucun résultat trouvé

MOTOROLA MICROPROCESSOR DATA 3·1074

Dans le document II II (Page 149-152)

“A natureza é partes sem um todo”. Encontra-se neste verso a expressão máxima de dois elementos essenciais da atitude objetivista de Alberto Caeiro. Em primeiro lugar, ele exprime com extraordinária clareza o objetivismo absoluto do heterônimo. E exprime, em segundo lugar, também com maestria, o paganismo através do qual Caeiro eleva-se, aos olhos de Ricardo Reis, acima das limitações da época, revelando-se um português “mais grego que os gregos”. A primeira explicação está no modo como ele evidencia, com a força de uma tomada crítica de consciência, a um só tempo, a posição de Caeiro quanto ao misticismo ingênuo dos poetas românticos, quanto ao falso rigor do

73 objetivismo neoclássico93 e, por extensão, quanto aos princípios metafísicos da filosofia escolástica.

Ao afirmar que a natureza é partes sem um todo, Caeiro procura negar categoricamente a pretensão objetivista da poesia neoclássica, segundo a qual a beleza de uma obra de arte se manifesta através da justa proporção entre as partes que a compõem.94 Desde o início, com a escolha da forma livre dos versos e a disposição não-hierárquica dos poemas, o poeta procura alcançar um objetivismo conscienciosamente distinto do objetivismo formal dos neoclássicos, cuidando exclusivamente de registrar o conteúdo imediato da percepção. Distinto da tragédia, por exemplo, gênero supremo de realização da poética neoclássica, o fragmento lírico procura encerrar não um vislumbre premeditado dos elementos que constituem a totalidade da obra, mas uma visada completa, objetiva e instantânea de suas partes, sem qualquer referência a uma ideia do todo.

XXXVI

E há poetas que são artistas E trabalham nos seus versos Como um carpinteiro nas tábuas!... Que triste não saber florir!

Ter que pôr verso sobre verso, como quem constrói um muro E ver se está bem, e tirar se não está!...

Quando a única casa artística é a Terra toda Que varia e está sempre bem e é sempre a mesma.95

Numa perspectiva mais abrangente, ao procurar firmar a atitude objetivista de Caeiro através de uma forma impessoal como o aforismo, o poeta alça à altura de uma formulação filosófica a recusa ao objetivismo formal, deslocando o eixo da crítica às poéticas neoclássicas para o campo da filosofia escolástica, que concebia a natureza como

93 O objetivismo neoclássico aqui refere-se à escola italiana, representada por Petrarca, e à escola francesa,

representada por Boileau.

94 Encontra-se a origem desta ideia no livro VII da Poética: “Outrossim, a beleza, quer num animal, quer

em qualquer coisa composta de partes, sobre ter ordenadas estas, precisa ter determinada extensão, não uma qualquer; o belo reside na extensão e na ordem, razão por que não poderia ser belo um animal de extrema pequenez (pois se confunde a visão reduzida a um momento quase imperceptível), nem de extrema grandeza (pois a vista não pode abarcar o todo, mas escapa à visão dos espectadores a unidade e o todo, como, por exemplo, se houvesse um animal de milhares de estádios). Assim como as coisas compostas e os animais precisam ter um tamanho tal que possibilite aos olhos abrangê-los inteiros, assim também é mister que as fábulas tenham uma extensão que a memória possa abranger inteira”.

74 uma criação divina, marcada pelas formas da unidade e da totalidade. Sabe-se que, a despeito do fundamento cristão do pensamento teológico, a filosofia escolástica é essencialmente orientada pelo pensamento platônico e aristotélico. Platão e Aristóteles concebiam a obra de arte como produto de uma modalidade particular (poiesis) do fazer humano (tekhné) que se caracteriza pela imitação da natureza (mímesis). Ora, numa dedução comum à filosofia escolástica, chega-se à conclusão de que a obra de arte deve exprimir a unidade e a totalidade da natureza em sua forma. Uma conclusão que não parece faltar à lógica, mas que, para Caeiro, é perfeitamente manca quanto à sensação. Encontra-se, ainda, condensado neste verso, o desejo de sublinhar a diferença entre a atitude de Caeiro e o subjetivismo místico que anima a obra dos poetas românticos, sobretudo poetas franceses e ingleses. Marcados pela nostalgia de uma natureza distante e idealizada, os românticos confiavam numa suposta realidade oculta, que envolvia o poeta em ímpetos de espontaneidade através da súbita manifestação do gênio, momento de consagração poética dos mistérios da natureza. Mas a insistência de Caeiro em acentuar a diferença entre ambos não se detém nesta característica que evidentemente os distancia, mas na que, apenas aparentemente, os aproxima. Pois, a partir de uma perspectiva místico-subjetivista, faz-se necessário abandonar as formas antigas de composição em prol de uma escrita capaz de exprimir com maior autonomia os estados subjetivos do poeta. O verso livre será, assim, consagrado como a forma mais eficaz para dar vazão aos ímpetos de espontaneidade do gênio romântico. Ora, o espaço para a espontaneidade na liberdade formal de Caeiro serve para uma perspectiva diametralmente oposta aos apelos de expressão absoluta da subjetividade. O aparente descuido com o apuro formal visa a encontrar o maneira adequada de exprimir a autonomia do objeto com relação aos “estados subjetivos de alma”, de tal modo que os ímpetos de espontaneidade dos poetas românticos devem ceder lugar à espontaneidade serena do homem simples, isto é, do homem que antes de gênio ou poeta é um ser genuinamente natural.96

XLVI

Procuro despir-me do que aprendi,

Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram, 96 É por este motivo que não se aplica a crítica de Ricardo Reis à falta de disciplina exterior nos versos de

Caeiro, senão como um esforço de individuação da personalidade do discípulo heterônimo: “Falta, nos poemas de Caeiro, aquilo que devia completá-los: a disciplina exterior, pela qual a força tomasse a coerência e a ordem que reina no íntimo da Obra”. PESSOA, F. Obra em Prosa, p. 123.

75 E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,

Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras, Desembrulhar-me e ser eu, não Alberto Caeiro, Mas um animal humano que a Natureza produziu.97

Com a afirmação de que a natureza é partes sem um todo, o objetivismo sensível de Caeiro mostra-se, portanto, conscienciosamente distinto tanto do objetivismo formal dos neoclássicos quanto do racionalismo abstrato da filosofia tomista, como também dos impulsos subjetivistas dos românticos. A recusa às perspectivas neoclássica e romântica concorre dialeticamente neste verso-aforismo para afirmar, com um nível acima de intensidade, o pertencimento da obra de arte ao mundo dos objetos naturais, originariamente avesso tanto às categorias racionais da unidade e da totalidade, quanto à noção idealista de gênio. Caeiro demonstra, assim, de maneira categórica, seu distanciamento crítico da pré-concepção arbitrária do todo e da espontaneidade subjetiva, que se preocupam apenas abstratamente, ora com o acabamento formal da obra, ora com a liberdade formal dos versos, sem cuidar do perfeito acabamento da percepção, originariamente fragmentária, que sua obra aspira observar.

XLVII

Num dia excessivamente nítido,

Dia em que dava a vontade de ter trabalhado muito Para nele não trabalhar nada,

Entrevi, como uma estrada por entre as árvores, O que talvez seja o Grande Segredo

Aquele Grande Mistério de que os poetas falsos falam. Vi que não há Natureza,

Que Natureza não existe,

Que há montes, vales, planícies, Que há árvores, flores, ervas, Que há rios e pedras,

Mas que não há um todo a que isso pertença, Que um conjunto real e verdadeiro

É uma doença das nossas ideias. A natureza é partes sem um todo. Isto é talvez o tal mistério de que falam.

76 Foi isto o que sem pensar nem parar,

Acertei que devia ser a verdade

Que todos andam a achar e que não acham, E que só eu, porque a não fui achar, achei.98

Dans le document II II (Page 149-152)