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MOTOROLA MICROPROCESSOR DATA 3-1010

Dans le document II II (Page 85-89)

Ao narrar a estória do marinheiro, a segunda veladora duplica o movimento autorreflexivo da forma, operando a dobra subjetiva que situa a despersonalização do eu lírico na intermitência entre os dois mundos possíveis no drama: o mundo sonhado à luz de vela (à beira-mar) e o mundo sonhado à luz do sol (ilha longínqua). A ultrapassagem da ação pelo sonho e pela despersonalização da segunda veladora, fingidas à beira-mar, no mundo sonhado à luz de vela, servem de mola propulsora para a narrativa onírica do naufrágio e para a personificação da não-identidade na figura do marinheiro. A segunda veladora projeta seu sonho na estória do personagem náufrago que, na ilha longínqua, sonha viver numa pátria fictícia, criando um novo mundo, que apaga e substitui, a cada dia sonhado, a lembrança da pátria natal.

SEGUNDA — À beira-mar somos tristes quando sonhamos... Não podemos ser o que queremos ser, porque o que queremos ser queremo- lo sempre ter sido no passado... Quando a onda se espalha e a espuma chia, parece que há mil vozes mínimas a falar. A espuma só parece ser fresca a quem a julga uma... Tudo é muito e nós não sabemos nada... Quereis que vos conte o que eu sonhava à beira-mar?

PRIMEIRA — Podeis contá-lo, minha irmã; mas nada em nós tem necessidade de que no-lo conteis... Se é belo, tenho já pena de vir a tê- lo ouvido. E se não é belo, esperai..., contai-o só depois de o alterardes... SEGUNDA — Vou dizer-vo-lo. Não é inteiramente falso, porque sem dúvida nada é inteiramente falso. Deve ter sido assim... Um dia que eu dei por mim recostada no cimo frio de um rochedo, e que eu tinha esquecido que tinha pai e mãe e que houvera em mim infância e outros dias — nesse dia vi ao longe, como uma coisa que eu só pensasse em ver, a passagem vaga de uma vela. Depois ela cessou... Quando reparei

contexto que é o Eu, ao mesmo tempo em que não o é mais, pois já é, concomitantemente, o Outro. (MOISÉS, F.C. Fernando Pessoa: Almoxarifado de Mitos, p.167).

55 Em ensaios de Álvaro de Campos sobre a estética sensacionista, o heterônimo refere-se à reflexão, assim

como às demais atitudes introspectivas e autoanalíticas, como manifestação do impulso sensível, compreendendo-a como “sensação da sensação”. Cf. PESSOA, F. Obra em Prosa, Ideias Estéticas, pp. 424- 454.

50 para mim, vi que já tinha esse meu sonho... Não sei onde ele teve princípio... E nunca tornei a ver outra vela... Nenhuma das velas dos navios que saem aqui de um porto se parece com aquela, mesmo quando é lua e os navios passam longe devagar...

PRIMEIRA — Vejo pela janela um navio ao longe. É talvez aquele que vistes...

SEGUNDA — Não, minha irmã; esse que vedes busca sem dúvida um porto qualquer... Não podia ser que aquele que eu vi buscasse qualquer porto...

PRIMEIRA — Por que é que me respondestes?... Pode ser... Eu não vi navio nenhum pela janela... Desejava ver um e falei-vos dele para não ter pena... Contai-nos agora o que foi que sonhastes à beira-mar... SEGUNDA — Sonhava de um marinheiro que se houvesse perdido numa ilha longínqua. Nessa ilha havia palmeiras hirtas, poucas, e aves vagas passavam por elas... Não vi se alguma vez pousavam... Desde que, naufragado, se salvara, o marinheiro vivia ali... Como ele não tinha meio de voltar à pátria, e cada vez que se lembrava dela sofria, pôs-se a sonhar uma pátria que nunca tivesse tido: pôs-se a fazer ter sido sua uma outra pátria, uma outra espécie de país com outras espécies de paisagens, e outra gente, e outro feitio de passarem pelas ruas e de se debruçarem das janelas... Cada hora ele construía em sonho esta falsa pátria, e ele nunca deixava de sonhar, de dia à sombra curta das grandes palmeiras, que se recortava, orlada de bicos, no chão areento e quente; de noite, estendido na praia, de costas e não reparando nas estrelas.56

Assim como as veladoras, o marinheiro também se despersonaliza pelo sonho e passa a habitar um novo mundo, uma nova pátria, com uma nova vida, um novo passado e uma nova lembrança desse passado, como se nunca houvesse vivido uma realidade exterior ao sonho. Aos poucos o sonho do marinheiro personifica um plano de composição autônomo com relação à estória narrada pela segunda veladora, passando as três irmãs também a despersonalizar-se dos seus respectivos sonhos e a identificar-se com a possibilidade de viver na pátria sonhada pelo marinheiro, promessa de vida em uma realidade superior à vida por elas mesmas sonhada: “Dizei-me isto...Dizei-me uma coisa ainda... Por que não será a única coisa real nisto tudo o marinheiro, e nós e tudo isto aqui apenas um sonho dele?...”.57 O sonho do marinheiro personifica de tal modo a inação dramática das veladoras que as leva a acreditar na presença física do personagem ausente,

56 PESSOA, F. Obra Poética, O Marinheiro, p.445-446. 57 PESSOA, F. Obra Poética, O Marinheiro, p.449.

51 prenunciando a intervenção de uma “quinta pessoa” em cena: “Quem é a quinta pessoa neste quarto que estende o braço e nos interrompe sempre que vamos a sentir?”.58

PRIMEIRA — Contai sempre, minha irmã, contai sempre... Não pareis de contar, nem repareis em que dias raiam... O dia nunca raia para quem encosta a cabeça no seio das horas sonhadas... Não torçais as mãos. Isso faz um ruído como o de uma serpente furtiva... Falai-nos muito mais do vosso sonho. Ele é tão verdadeiro que não tem sentido nenhum. Só pensar em ouvir-vos me toca música na alma…

SEGUNDA –– Sim, falar-vos-ei mais dele. Mesmo eu preciso de vo-lo contar. À medida que o vou contando, é a mim também que o conto... São três a escutar... (De repente, olhando para o caixão, e

estremecendo). Três não... Não sei... Não sei quantas...

TERCEIRA — Não faleis assim... Contai depressa, contai outra vez... Não faleis em quantos podem ouvir... Nós nunca sabemos quantas coisas realmente vivem e vêem e escutam... Voltai ao vosso sonho... O marinheiro. O que sonhava o marinheiro?59

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