11. PSA ELEMENT ‘MQ’: MODEL INTEGRATION AND CDF QUANTIFICATION
11.2. Model integration and CDF quantification tasks and their attributes
Para melhor compreensão das especificidades do processo de trabalho em saúde, faz-se necessário, inicialmente, compre- ender como o trabalho é encarado enquanto conceito teórico. O trabalho é um processo no qual o homem transforma a na- tureza. É o conjunto de atividades, produtivas ou criativas, que o homem exerce para atingir determinado fim. Sempre foi muito valorizado em todas as sociedades, pois gera conhe- cimentos, riquezas materiais, satisfação pessoal e desenvol- vimento econômico.
Marx (1984), ao escrever sobre o trabalho e sua inserção conformadora da lógica capitalista, definiu força de traba- lho como sendo a capacidade que o homem tem de executar o trabalho. Essa capacidade o diferencia dos outros animais, que modificam os elementos da natureza com o único objetivo de sobreviver. O homem é capaz de concebê-lo, previamente, antes de executá-lo, imagina e prevê seus resultados e fina- lidades. Essa capacidade adquiriu valor econômico e social para a produção de bens necessários à sobrevivência humana. Segundo o autor, é no processo de trabalho concreto e imediato que os homens, ao mesmo tempo, atuam sobre a natureza e se apropriam dela, modificando-a e se modificando a si próprios.
O trabalho exerce papel significativo na estruturação psí- quica e nos processos de formação da identidade dos indiví- duos, ele vai além da força de trabalho por uma remuneração, podendo ser causa de sofrimento quando o trabalhador não consegue transformá-lo em prazer. (SZNELWAR; UCHIDA;
Atualmente, a realidade do trabalho evidencia uma trans- formação significativa, caracterizada por uma transição entre o modelo taylorista/fordista – que vigorou entre os anos 1950 e 1970 –, cuja organização do trabalho se caracterizava pela dominância do trabalho prescrito, com pouca autonomia dos trabalhadores, para um modelo tecnológico, baseado na inte- lectualização do trabalho, com destaque para o conhecimento técnico e a qualificação profissional. (BRASIL, 2007).
O trabalho em saúde é parte do setor de serviços, possui características comuns ao processo de produção no setor ter- ciário da economia, ao mesmo tempo em que tem caracterís- ticas especificas. É um trabalho essencial para a vida humana, sendo o produto indissociável do processo que o produz, é a própria realização da atividade. É majoritariamente um tra- balho coletivo, realizado por diversos profissionais de saúde. Tem características do trabalho assalariado, tipo artesanal, compartimentalizado/fragmentado, com divisão parcelar do trabalho. (PIRES, 2000).
Schraiber (1999) destaca a divisão de trabalho nas equipes de saúde onde, muitas vezes, os profissionais estão realizan- do ações isoladas e justapostas, sem articulação e conheci- mento do trabalho do outro. Essa divisão de trabalho levou à complementaridade e à interdependência entre os trabalhos especializados, o que pode gerar tensão quando o trabalho é multiprofissional e os agentes possuem autoridades desiguais.
O processo de trabalho em saúde tem acarretado sofrimen- to, estresse e ansiedade nos trabalhadores da saúde, sendo bastante significativo o número de agravos psíquicos entre esses trabalhadores. (CASTRO et al., 2014). Vários fatores têm
causado o adoecimento do trabalhador: falta de infraestrutu- ra, que acarreta estresse, problemas ergonômicos, acidentes e contaminações; excesso de burocratização nos serviços; verti- calização das relações interpessoais; contato com o sofrimento do usuário, dentre outros.
No setor saúde no Brasil há um grande número de profis- sões e especialidades, além das profissões não regulamentadas. Grande parte desses profissionais trabalha no SUS. São regis- tradas, atualmente, 14 ocupações na área pelo Ministério do Trabalho, por meio da Classificação Brasileira de Ocupações. Devido às precárias condições de trabalho, muitos profissio- nais de saúde, cuja função é cuidar dos usuários, têm adoecido devido às condições de trabalho a que são submetidos.
A presença do trabalho precário é uma realidade na área da saúde no Brasil. São desrespeitados direitos trabalhistas e sociais em situações de emprego mantidas pela administra- ção pública. Três principais conceituações de precariedade e de informalidade do trabalho são encontradas: na primeira, déficit ou ausência de direitos de proteção social, comumente assegurados pela legislação trabalhista e de seguridade social; na segunda, instabilidades de vínculos (contratos de curta du- ração ou bem delimitados no tempo); e, na última, condições de trabalho de determinados setores da economia que criam vulnerabilidade social para os trabalhadores aí inseridos, sen- do esse o conceito adotado pela Organização Internacional do Trabalho. (NOGUEIRA; BARALDI; RODRIGUES, 2004).
O documento do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (BRASIL, 2004), que trata da gestão de pessoas, destaca o fato de que, nessa área, o principal problema identificado é a au-
indefinição de uma política para o campo, e a ausência de ações de planejamento e de programação, acarretando remuneração insuficiente dos trabalhadores, diversidade de contratos e pre- carização das relações de trabalho. A ausência de concursos na área gera rotatividade e desmotivação.
Em pesquisa realizada com gestores municipais, sobre o processo de adoecimento de seus trabalhadores, Broto e Dalbello-Araújo (2012) inferiram que, na concepção dos gesto- res pesquisados, há, por vezes, uma naturalização do próprio processo de adoecimento dos trabalhadores do setor da saúde, visto que consideram como fatores que adoecem o trabalha- dor: contato com o usuário em momentos críticos, caráter de urgência dentro de ambientes de trabalho em saúde, desco- nhecimento da dinâmica e da proporção do adoecimento dos trabalhadores, a sobrecarga de trabalho, devido a vários vín- culos, e o fato dos trabalhadores lidarem com questões socio- políticas, econômicas e estruturais para as quais nem sempre podem dar soluções definitivas, apenas paliativas.
O adoecimento do trabalhador, provocado pelo trabalho, é algo preocupante e não deve ser visto como um fenômeno naturalizado, visto que restringe as possibilidades de se tra- balhar estratégias de enfrentamento dessa situação. Os ges- tores devem identificar e intervir em processos de trabalho que estão causando adoecimento dos trabalhadores da saúde.