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Diante dos inúmeros dilemas que ocupam a vida social, a sociedade e a própria existência humana, iniciamos esse tópico questionando: qual é o papel das instituições religiosas na construção de uma Cultura de Paz?

Berger (1985) defende que toda sociedade humana é um empreendimento de construção do mundo. Desse modo, a religião ocupa um lugar destacado nesse empreendimento. Ainda, conforme o autor, a sociedade não é só resultado da cultura, mas uma condição necessária dela. Ela estrutura, distribui e coordena as atividades de construção do mundo desenvolvidas pelos seres humanos. E só na sociedade os produtos dessas atividades podem durar. Nesse sentido, defendemos que a religião, como parte importante da organização e dinamização da vida social, assume extrema relevância na condução dos seus membros a uma transição da Cultura de Violência para uma Cultura de Paz. Ainda mais em tempos em que muitas organizações religiosas se unem em batalhas violentas a grupos conservadores religiosos que proliferam discursos de ódio.

Boulding (2002) compreende a Cultura de Paz14 como um mosaico de identidades, atitudes, valores, crenças e padrões que levam as pessoas a se relacionarem umas com as outras, lidando com as diferenças e compartilhando seus recursos. Para Cabral, Gothardo e Murback

14 UNESCO propôs no ano de 1999 o paradigma da Cultura de Paz, que consiste em valores, atitudes e condutas

que inspiram e suscitam ao mesmo tempo interações e intercâmbios sociais baseados nos princípios de liberdade, justiça e democracia, todos os direitos humanos, a tolerância e a solidariedade que rejeitam a violência e procuram prevenir os conflitos buscando atacar suas causas para solucionar os problemas mediante o diálogo e que garantam a todos o pleno exercício de todos os direitos e proporcionem os meios para participar do processo de desenvolvimento de sua sociedade (ALFONZO, 2005, p.VI). Sendo assim, em Paris, no dia 04 de março de 1999, um grupo de Prêmio Nobel da Paz redigiu o Manifesto 2000 por uma Cultura de paz e Não Violência com o objetivo de criar um senso de responsabilidade que se inicia em nível pessoal. Consta no documento, que é responsabilidade de cada um colocar em prática os valores, as atitudes e formas de condutas que inspirem uma cultura de paz.

(2014, p. 167), a Cultura de Paz “é uma junção da ausência de violência direta, presença de justiça e desenvolvimento social que busca oferecer ao sujeito a integralidade dos seus direitos e de suas necessidades básicas e plenas como pessoa humana”. No entendimento dos autores, a Cultura de Paz é uma opção no sentido de “fomentar novos repertórios comportamentais e novos olhares que despertem atitudes efetivas contra a naturalização da violência” (CABRAL; GOTHARDO; MURBACK, 2014, p. 168).

Os princípios de cultura de paz são defendidos pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) como essenciais para a construção de uma sociedade sem guerras e livre das armas nucleares. A UNESCO sustenta que os conflitos podem ser solucionados por meio da não violência, tendo como axioma o diálogo, o respeito, a segurança e a dignidade de todos. Nesse sentido, os princípios de cultura de paz vão ao encontro do pensamento do budismo de Nichiren Daishonin e os ideais da SGI/BSGI. Portanto, vale ressaltar também que a SGI é oficialmente registrada como uma ONG na Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (UNESCO).

As ações realizadas pela SGI/BSGI têm sustentação no escrito Ensinamento Correto para Pacificação da Terra de Nichiren Daishonin. Esse documento religioso foi redigido no dia 6 de julho de 1260, pelo monge budista, como uma carta a Hojo Tokiyori, ex-governante e influente membro do governo japonês da época, alertando sobre possíveis desastres no país. Conforme consta na Coletânea dos escritos de Nichiren Daishonin (2014, p. 27), “Daishonin acreditava que um apelo aos membros mais influentes do governo poderia ajudar a impulsionar uma reforma social”.

O texto, Estabelecer o Ensino Correto para Pacificação da Terra, que faz parte da Coletânea, narra a história de dois viajantes que buscam, por meio do diálogo, compreender os desastres da sociedade e as questões da vida cotidiana dos indivíduos que nela residem. Os membros da SGI/BSGI estudam esse escrito em palestras e outras atividades da organização e, com base nele, realizam ações proselitistas e de diálogos inter-religiosos na sociedade.

Anualmente, como foi enunciado em tópicos anteriores, Ikeda envia à ONU o seu documento Proposta de Paz15visando contribuir para a solução de conflitos que permeiam o mundo e a sociedade. Nesses documentos, variados temas são discutidos: degradação do meio ambiente, violência doméstica, empoderamento humano, racismo, xenofobia, questões de gêneros e, principalmente, o desarmamento nuclear16.

15 Esses documentos podem ser encontrados no site <http://www.culturadepaz.org.br/propostas/> 16 O desarmamento nuclear é um tema encontrado em todas as Propostas de Paz.

Conforme consta no material produzido pela UNESCO (NOLETO, 2010, p. 12), “a cultura de paz procura resolver os problemas por meio do diálogo, da negociação e da mediação, de forma a tornar a guerra e a violência invioláveis”. Ressalta-se os diálogos realizados entre Ikeda e diversos intelectuais, líderes políticos e humanistas com esse objetivo, muitos publicados no jornal Brasil Seikyo ou transformados em livros. Segundo os materiais da BSGI, o líder budista, ao longo dos anos, encontrou-se com personalidades como Arnold Toynbee17, André Malraux, Nelson Mandela, Austregésilo de Athayde18, Chu Enlai, Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, Harvey Cox, Nelakanta Radhakrishnan, Fidel Castro, Aleksei Kosyngin, Aurélio Peccei19, Joseph Rotblat, entre outros. No campo da cultura, a organização promove exposições, eventos artísticos e culturais e diálogos inter-religiosos buscando também difundir os ideais de Paz, Cultura e Educação.

Observam-se as aproximações entre a Cultura de Paz e os preceitos que norteiam a BSGI, por meio da leitura do Manifesto 2000. Consta nos materiais da UNESCO que os seis princípios do Manifesto 2000 são: 1) respeitar a vida; 2) rejeitar a violência; 3) ser generoso; 4) ouvir para compreender; 5) preservar o planeta e 6) redescobrir a solidariedade. Nesse sentido, seguindo as palavras do líder budista (IKEDA, 2008 e 2013), notamos que o movimento realizado pela SGI busca promover 1) o respeito pela dignidade da vida; 2) baseia-se na não violência; 3) empenha-se no relacionamento generoso entre as pessoas; 4) ouve as pessoas que passam por sofrimentos; 5) realizam ações que preservam o planeta e 6) busca a solidariedade entre os cidadãos comuns.

Realizou-se, neste e em tópicos anteriores, as elucidações do budismo e sua história como religião, o surgimento da SGI e a sua penetração em terras brasileiras e as aproximações entre a SGI/BSGI com o humanismo e os princípios da Cultura de Paz. Os próximos subitens serão dedicados a evidenciar como a BSGI se comunica com seu público interno e externo, por meio dos seus periódicos e das novas plataformas de mídia.

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