Considera-se que para compreender a BSGI, de forma mais ampla, torna-se imprescindível elucidar que esta organização atua em duas esferas: como organização religiosa (embora seja registrada como ONG) de leigos praticante do Budismo de Nichiren Daishonin e como ONG filiada à ONU. Para explicar o trabalho da BSGI, este tópico trata da estrutura
organizacional, das práticas religiosas e de alguns fundamentos que permeiam esse campo religioso.
Pela perspectiva de Geertz, a religião pode ser entendida como:
(1) Um sistema de símbolos que atua para (2) estabelecer poderosas, penetrantes e duradouras disposições e motivações nos homens através da (3) formulação de conceitos de uma ordem de existência geral e (4) vestindo essas concepções com tal aura de fatualidade que (5) as disposições e motivações parecem singularmente (GEERTZ, 2015, p. 67).
No campo religioso, os membros da BSGI concentram-se: a) na prática individual, que envolve a recitação do Gongyo e do mantra Nam-Myoho-Rengue-Kyo diante do Gohonzon e a participação das atividades nos núcleos espalhados pelo país, b) prática altruística, que envolve a propagação do budismo (Shakubuku) e c) Estudos dos Goshos (Escritos do Buda) e orientações do líder da SGI, Daisaku Ikeda. Essa tríade é denominada pelos membros como “Fé, prática e estudo”.
O budismo praticado pelos associados da BSGI enfatiza a relação entre o ser humano e o ambiente em que este está inserido. Esse princípio é denominado esho funi (unicidade de vida e seu ambiente). Ikeda (2007), em diálogo com René Simard e Guy Bourgealt, elucida que vida humana e o ambiente físico são unos e influenciam um ao outro. Esse processo está intimamente ligado à ideia de Dez Estados de Vida, que caracterizam os estágios que permeiam a vida humana. Esses estados são: inferno, fome, animalidade, ira, tranquilidade, alegria, erudição, absorção, bodhisattva e buda. Segundo essa noção, os quatro primeiros estados (Quatro maus caminhos) constituem o nível mais baixo da vida humana. Em contrapartida, os outros estados superiores se configuram como essenciais para o ser humano (PEREIRA, 2001).
A tabela abaixo elucida as características de cada estado de vida, de acordo com a filosofia do budismo.
Tabela 1 - Dez Estados de Vida
Estado de vida
Características Inferno Sofrimento, desespero
Fome O indivíduo é dominado pelo desejo que jamais pode ser satisfeito completamente
Animalidade A pessoa é governada pelos instintos
Ira O indivíduo é movido pelo egoísmo e ataca a dignidade da vida humana
Tranquilidade Calma e harmonia com o ambiente
Alegria Contentamento quando os desejos são satisfeitos
Erudição Busca pelo conhecimento
Absorção Busca pela autoperfeição, percepção dos fenômenos
Bodhisattva Benevolência e desejo de tirar as pessoas do sofrimento
Buda Iluminação, sabedoria
Fonte: Elaborada pelo próprio autor
Um aspecto de extrema relevância que envolve a BSGI é a relação entre “Mestre e Discípulo”, que serve como direcionamento para a prática religiosa dos membros dessa organização. Santos (2004, p. 156) elucida que o “mestre denota o Buda, iluminado para a Lei, e o discípulo é a pessoa que está no processo de tornar-se iluminada para a Lei12”. Portanto, continua a autora, “eles diferem apenas no fato de estarem ou não iluminados para a Lei. [...] O mestre ensina sobre a iluminação para que os discípulos compreendam a Lei, tentando dessa forma fazer com que os discípulos se igualem perfeitamente a ele”. No budismo da SGI/BSGI, Ikeda é visto como mestre e os membros de todo o mundo como seus discípulos. Vale ressaltar que no discurso budista, mestre e discípulos são dois participantes ativos na “causa do Kosen- Rufu”, outro princípio de extrema relevância para o budismo da BSGI.
O ideal do Kosen-rufu, conforme Pereira (2001, p. 221) é “a missão e a utopia a ser realizada pela SGI”. Esses ideais, segundo o autor, vêm sendo adaptados à realidade de cada época, na mesma proporção e à medida que a Soka Gakkai se institucionaliza, legitima-se e acomoda-se à expectativa e ao contexto de cada sociedade em que se insere.
Pela perspectiva dessa religião, Kosen-Rufu é um termo utilizado como significado de “Paz Mundial” (MIYASHIRO, 2013). Porém, denota também que o Kosen-rufu significa ensinar a Lei do Nam-Myoho-Rengue-Kyo. Nesse sentido, envolve uma atividade de propagação do budismo com o intuito de alcançar a paz mundial. Isso porque, segundo os princípios budistas, a prática budista permite ao ser humano alcançar a sua revolução humana.
Santos (2004, p. 180) elucida que, do ponto de vista do budismo, esse conceito significa a “reforma da própria vida”, “uma mudança na tendência básica da vida por um certo período ou durante a vida inteira”. Segundo Pereira (2001, p. 221), os membros da BSGI acreditam que a melhor forma de alcançar a revolução humana é por meio da recitação do Nam-Myoho- Rengue-Kyo. Ikeda (2014, p. 8) acredita e sugere aos associados da organização budista que esse processo tem sua essência no empoderamento, “que permite a cada indivíduo manifestar ilimitadas capacidades”. Segundo o líder budista, “a coragem e a esperança resultantes dessa mudança interior levam as pessoas a enfrentar e vencer as dificuldades vindouras; é um processo de criação de valor que culmina na transformação da própria sociedade”.
A prática religiosa dos membros da BSGI envolve também uma prática institucional. Essa organização possui diversos núcleos espalhados em todo o território nacional. Santos (2014, p. 28) salienta que “um núcleo da BSGI nasce em uma determinada localidade pelo esforço de uma ou mais pessoas residentes no local”. Acima desses núcleos, constituem-se comunidades, distritos, RM (Regiões Metropolitanas), Subcoordenadorias, Coordenadorias e a própria BSGI. Em cada estrutura, existem os líderes das 5 divisões (Divisão Feminina, Divisão Feminina de Jovens, Divisão dos Estudantes, Divisão Masculina de Jovens e Divisão Sênior). Esses líderes são “responsáveis” pelo direcionamento das organizações. A junção da prática religiosa individual dos membros e a prática institucional simbolizam o que é denominado pela BSGI como “organização vertical” e “prática vertical”. Além da “organização vertical”, a instituição é composta por grupos de apresentação e apoio que se configuram como “organização horizontal”, e como ONG, possuindo diversos grupos que realizam aparições, debates e diálogos na sociedade brasileira.