Quivy e Campenhoudt (2003: 190) consideram que os “dados recolhidos por questionário, em grande número de respostas que são pré-codificadas, não tem significado em si mesmas.”. Assim, tendo em conta que no questionário realizado temos algumas questões pré-codificadas, isto é, questões onde o inquirido necessita de escolher obrigatoriamente uma opção entre as várias que lhe são propostas, e a nossa vontade em analisar mais aprofundadamente o quadro de disposições que os indivíduos adquiriram ao longo da sua trajetória biográfica, decidimos levar a cabo entrevistas biográficas. Estas entrevistas biográficas permitem-nos obter informação mais aprofundada sobre os aspetos da vida do indivíduo que influenciam as suas práticas de consumo. Nesta medida, estas entrevistas constituem a base para a construção dos retratos sociológicos.
De acordo com Lahire apud Lopes (2012), a entrevista biográfica, tal como as histórias de vida, constitui uma peça essencial para aferir as pequenas contradições (hererogeneidade comportamental), não evidentes para o indivíduo.
Cada indivíduo, no seu quotidiano e ao longo da sua vida, contacta com diversos universos sociais e diferentes contextos de interação, que contribuem para a formação de disposições heterogéneas, que incluem princípios de
diferentes doutrinas e até mesmo dissonantes (Lopes, 2012). Desta forma, ao realizarmos as entrevistas biográficas recolhemos informação sobre os contextos com que cada entrevistado contactou, de forma a perceber como é que se formaram as disposições que podem influenciar a utilização de boleias entre Porto e Lisboa.
Com o intuito de obter o consentimento dos potenciais entrevistados para a realização das entrevistas, foi estabelecido contacto telefónico com dois participantes, um contacto por e-mail e um contacto por mensagem de Facebook. Nesta primeira abordagem foram clarificados os objetivos do estudo e da entrevista e acordadas as condições em que a entrevista iria decorrer. Os potenciais entrevistados foram também informados sobre a garantia de confidencialidade de toda a informação recolhida, e que consistia da assinatura de uma declaração de consentimento informado, cujo modelo disponibilizamos em anexo. Assim, após a obtenção do consentimento de cada participante foi agendada a respetiva entrevista.
Três entrevistas realizaram-se via telefone e uma presencialmente nas datas acordadas, durante o mês de março e abril, e obedeceram sempre à mesma sequência, constituída pelos seguintes momentos:
1. Assinatura da declaração de confidencialidade e validação dos dados sociodemográficos presentes no inquérito por questionário;
2. Introdução e explicação dos objetivos da entrevista; 3. Realização da entrevista;
4. Transcrição da entrevista.
Num primeiro momento, cada entrevistado analisou a declaração de confidencialidade, na qual consta o nome do entrevistado e do entrevistador e se explicita a reserva de utilização, da informação obtida pelas entrevistas, para fins unicamente académicos. Note-se que no caso das entrevistas telefónicas, a declaração com a minha assinatura foi enviada por e-mail no dia anterior para os
entrevistados poderem analisar e enviar de volta a declaração assinada. No anexo 1 está presente o modelo da Declaração de Confidencialidade utilizado e, por questões de confidencialidade, optamos por não tornar públicas as declarações assinadas pelos entrevistados. Antes de iniciarmos a entrevista validamos, no contacto telefónico ou presencial, a idade e estado civil do entrevistado, tendo em conta a informação recolhida no inquérito por questionário. De seguida, foram explanados os objetivos da entrevista a todos os entrevistados, e que consistem em:
1. Compreender a trajetória escolar do entrevistado (e.g. que escolas frequentou, em que faculdade estudou, qual a sua área de formação), bem como a trajetória profissional (e.g. o que faz atualmente, que outras profissões exerceu, com que idade começou a trabalhar);
2. Compreender a sua realidade familiar (e.g. perceber com quem vive, qual a profissão dos pais, qual a idade dos irmãos, clarificar se os seus familiares já usavam esta página de Facebook de partilha de boleias antes do entrevistado começar a utilizar);
3. Compreender como são ocupados os tempos livres dos entrevistados, que práticas de sociabilidade adotam, analisar a importância da interação com os amigos para a utilização das boleias, bem como conhecer um dia do quotidiano de trabalho e um dia de lazer do entrevistado;
4. Compreender aspetos relevantes sobre a experiência da partilha de boleias do entrevistado (e.g. como se processa a partilha de boleias, quando aderiu à página e o que o motivou a aderir, se valoriza a interação com novas pessoas na partilha de boleias);
5. Conhecer a forma de deslocação que o entrevistado utiliza no dia-a-dia; 6. Analisar a frequência desta prática de consumo entre Porto e Lisboa e
entre outras cidades, e quais as suas motivações, a existirem, para continuar a usufruir desta prática.
7. Conhecer os contextos que ativam as disposições para a partilha de boleias.
Depois de esclarecidos os objetivos, decorreu a entrevista propriamente dita. As entrevistas são semidirigidas ou semidiretivas, uma vez que o entrevistador tinha um conjunto de perguntas-guias relativamente sobre a informação que se pretendia obter junto do entrevistado (Quivy e Campenhoudt, 2003). Os autores defendem que o entrevistador deve deixar o entrevistado “falar abertamente, com as palavras que desejar e pela ordem que lhe convier” (Quivy e Campenhoudt, 2003, p. 192). Nesta etapa, os entrevistados falaram sobre quatro grandes blocos: a sua trajetória escolar e profissional; vida familiar; sociabilidade e práticas culturais; e, por fim, partilha de boleias (o guião da entrevista encontra- se no Apêndice III). Deste modo, a intervenção do entrevistador deveria ocorrer apenas para encaminhar o entrevistado para os objetivos da entrevista sempre que ele se distanciar dos mesmos e colocar questões às quais o entrevistado não consegue alcançar por si próprio (Quivy e Campenhoudt, 2003).
Elaborámos um guião no qual as questões se encontram agrupadas em quatro grandes blocos, mencionados anteriormente (Apêndice III). Todas as entrevistas foram gravadas em formato áudio, e, posteriormente, transcritas.