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O primeiro relato é do ex-aluno Sr. José Herval Dias de Moraes. Nascido em 1921 na Fazenda Macaúbas, município de Batatais, distante 40 km de Franca, Sr. José é filho de italianos e seu pai trabalhava nesta fazenda executando serviços diversos de carpintaria, manutenção de máquinas de beneficiar café, entre outros.

Quando completou 14 anos, Sr. José Herval foi incentivado pelo pai e pelo irmão mais velho, Justino, a buscar um curso profissionalizante em São Paulo, mas a distância e a imaturidade fizeram com que Sr. José retornasse logo para casa. A opção mais próxima era a Escola Profissional de Franca; Sr. José juntou-se a um grupo de alunos vindos de Brodósqui, Batatais, Restinga e fazendas da região que viajavam todos os dias cerca de três horas de trem pela estrada de ferro Mogiana até a Escola Profissional de Franca, retornando à tarde. De acordo com seu relato, a maioria desses alunos vindos da região era “gente do povo”, filhos de colonos das fazendas que buscavam uma “melhoria de vida”.

O incentivo para que o Sr. José freqüentasse um curso profissionalizante vinha de dentro de casa. Nessa época, seu irmão mais velho, Justino, que apenas cursou o primário, havia iniciado uma sociedade com Antonio Nori, numa oficina de reparos em marcenaria e outros serviços em Batatais. A sociedade não durou, mas Justino, que havia aprendido várias funções ajudando o pai na fazenda, deu continuidade à oficina em sociedade com o irmão Ermelindo. Enquanto isso, Sr. José Herval passou três anos e meio se especializando nos cursos de modelagem, fundição, ferraria, fresa e torno, oferecidos pela escola profissionalizante. Segundo seu relato, o aprendizado seguia um roteiro: “[...] a plástica era para melhorar, pra educar, mais a vista do operário, então a gente trabalhava em argila, fundia em gesso figuras... em seguida era então a fundição, era um ano de fundição de ferro [...]”.

Ainda quando era estudante, seu José Herval começou a fazer pequenos trabalhos para a oficina do irmão, colocando em prática o aprendizado da escola.

[...] No principio era uma oficina de atendimento e conserto, eu ainda estava estudando em Franca, eu chegava para jantar e tinha um bilhete do Justino pra eu ir lá para fundir peças [...] na escola, a gente trabalhava no sábado até 12 horas fazendo limpeza, espera o trem sair às 5 horas e chegava às oito, no domingo eu trabalhava praticamente o dia todo na oficina dele modelando e fundindo [...] comecei a fundir peças em alumínio e bronze que era o que eu tava aprendendo na fundição primeiro [...].

A fundição era uma atividade que Sr. José realizava com grande habilidade e isso acabou lhe rendendo notoriedade na cidade:

“Eu acredito que a influência da escola na parte de fundição trouxe pra Batatais, na época um progresso muito grande. Quando é que ia surgir fundição aqui, ninguém conhecia isso [...]”.

O conhecimento adquirido na Escola proporcionou a diversificação dos serviços oferecidos pela oficina.

“[...] eu fundia peças variadas de alumínio, bronze, bucha para motor [...]. Naquele tempo os motores não eram de rolamento de esfera, o motor girava em cama de óleo e em bucha, então eu fundia, trouxe de Franca esse melhoramento [...]”.

O Sr. José Herval atribui ao caráter empreendedor e à “genialidade” do irmão (apenas vendo uma máquina trabalhar conseguia fazer uma interpretação completa de seu funcionamento) o crescimento da empresa, mas em nenhum momento desvincula o aprendizado que obteve na escola de todo esse processo:

“[...] Paralelo à oficina, Justino começou a montar rádio pequeno, e eu acompanhava esse montar rádio, na escola eu aprendi a enrolar transformadores, nós tínhamos um professor de matemática que calculava transformadores, num domingo eu fui cedo lá, ele me pediu para enrolar um transformador e deixou o cálculo pronto [...] a partir daí desenvolvi muitos transformadores, 35 mil, 1000 KWA [...]”. A oficina expandiu e, em meados da década de 40, o trabalho lá realizado envolvia todos os irmãos Moraes: Justino, Ermelindo, Moacir e José Herval. Os serviços oferecidos pela oficina iam desde conserto de geladeiras, reparos em motores até instalações elétricas:

“[...] Justino passou a enrolar motor, pequenos motores, além de motores começou a trabalhar com instalações elétricas fora de Batatais, fazia instalações em fazendas, onde tem os transformadores Jumil, agora eu é que desenhava e construía os transformadores Jumil [...]”. Em vários momentos de sua fala, Sr. José Herval ressalta a importância do conhecimento teórico assimilado de algumas disciplinas que ajudou na sua prática profissional, como se vê a seguir:

“[...] a parte elétrica eu desenvolvi com base na matemática e desenho que eu aprendi na Escola, quer dizer tudo tem uma Escola [...]”. Em outros momentos destaca a prática desenvolvida na escola através do aprender fazendo como determinante para realizar algumas funções:

“[...] com dois anos de escola já desenhei o primeiro cúbilo e fundi aqui no quintal [...] cúbilo é o que derrete o ferro, junto com o carvão, põe na panela e fundi no chão [...] hoje é máquina moderna não é mais carvão é elétrico [...]”.

A oportunidade de crescimento da empresa veio com a segunda guerra mundial. A produção de gasogênio deu impulso aos negócios da firma “Justino de Moraes e Irmãos”, que passou a trabalhar em prédio próprio e montou uma fundição de bronze e outra de ferro, esta última sob orientação do Sr. José Herval.

[...] No tempo da guerra não tinha reator para motor de partida, eu comecei a fabricar, ia a São Paulo ver os laminadores, conversar com a turma lá e então comecei a enrolar motores pequeno e médio, além dos transformadores [...]”.

Para acompanhar o processo de industrialização em curso no país, a empresa procurou importar equipamentos para melhorar a produção:

“[...] eu fui com o Justino a São Paulo numa feira [...] da fábrica russa nós compramos duas fresas, da Espanha uma máquina de fazer modelo,

dos Estados Unidos um tôrno pequeno semi-automático e uma máquina de furar também [...]”.

Com a vinda de firmas estrangeiras para o país, a empresa começou a sofrer com a concorrência, principalmente na parte elétrica; a alternativa adotada foi diversificar as atividades passando a produzir máquinas e equipamentos agrícolas, através do melhoramento e da adaptação de modelos de máquinas já existentes:

“[...] O êxito da Jumil foi acompanhar o agricultor, tinha uma máquina funcionando, uma adubadeira melhor [...] uma plantadeira funciona melhor [...] daí fazia um melhoramento das máquinas existentes usando o sistema nosso [...]”.

Figura 25: Plantadeira Jumil – 2004.

Para acompanhar o desenvolvimento da tecnologia, Sr. José Herval procurava por vezes freqüentar cursos para atualização:

“[...] às vezes eu ai lá onde tinha curso de fundição para aperfeiçoar, porque primeiro mesmo na Escola a gente fundia no chão, calçava com terra e depois que eu vim, começamos a fazer com colete, depois aperfeiçoamos com máquinas, depois fundimos em máquina moderna e hoje é a máquina que faz tudo né, nós temos três máquinas Hunter americana aqui na fundição [...]”.

Figura 27: Fundição da Jumil – 2004.

Esse impacto causado pela modernização foi acompanhado de perto por Sr. José Herval através do tempo:

“[...] Eu era bom desenhista lá na escola, eu gostava de fazer desenho, a gente achava interessante e através do desenho você podia vislumbrar uma máquina, parte da máquina. E hoje, quem faz desenho na Jumil é o computador [...]”.

Atualmente, aos 83 anos de idade, Sr. José Herval está aposentado, chegou a ser sócio na Jumil com 10% das ações, mas, com a morte do irmão mais velho, o controle passou para os filhos de seu irmão Moacir. Depois de um período difícil, quando a empresa entrou em concordata, conseguiu se reerguer e hoje exporta máquinas e implementos agrícolas para diversos países, entre eles, África do Sul, México e China.

O trabalho desenvolvido por Sr. José Herval acabou fazendo escola na cidade. Segundo seu relato, cerca de três fundições que abriram posteriormente em Batatais pertencem a ex-funcionários que foram treinados por ele. Dentro de casa, Sr. José Herval conseguiu influenciar o filho, que se formou em engenharia elétrica e tem uma firma que presta assistência técnica e faz projetos de instalações elétricas para indústrias na região.

Sr. José Herval confirma que todo ex-aluno tinha um emprego garantido quando terminasse o curso na Escola Profissional, principalmente em sua época, quando havia grande carência de técnicos qualificados. Ele próprio chegou a ser convidado para

trabalhar na Arno e CESP e, durante um tempo, chegou a trabalhar no Aeroclube de Batatais, como auxiliar para conserto e manutenção de motores de avião.