2.2 Exemples d'application
2.2.3 Modèle HEC-RAS
criou a reação. Eles fechava, a gente derrubava, eles fechava.
Dona Vilma, moradora de Saramandaia
Os limites estabelecidos se comportam como referência física ou simbólica para demarcar o trânsito entre duas ordens ou territórios. Em Saramandaia, esses limites também se expressam através da colocação de barreiras físicas materializadas em muros e cercas, visando uma delimitação entre o bairro e a cidade e instituindo uma separação entre os de dentro e os de fora. Desse modo, os muros que antes serviam como marcas exteriores à cidade tornam-se figuras internas essenciais para constituir divisões generalizadas com base no princípio da separação. (PAQUOT; LUSSAULT, 2013)
Esta forma de controle territorial pode ser interpretada através da com- preensão de contenção territorial na medida em que essa prática promove uma evitação sem, contudo, excluir ou eliminar a totalidade do território. Assim, as cercas e muros construídos em Saramandaia, na fronteira sul, desempenhavam o papel de barrar a circulação dos moradores, evitando que o terminal rodoviário e o pátio do Detran fossem utilizados como passagem para acessar a cidade, onde trabalhavam como trabalhadoras domésticas, lavadeiras, porteiros, pedreiros, ambulantes, dentre outras funções. Esse processo apartado pode ser percebido em recorrentes narrativas tecidas pelos moradores, como ilustram, nessa ordem, Dona Neiva e Dona Zuca:
O Detran já tinha. Quando aterrou foi pra fazer o Detran novo, aí que botou o muro. Antes da delegacia do Detran, eles queriam fazer o muro para as pessoas de Saramandaia não passar por causa do barro, por causa da lama. A gente passava e sujava lá o asfalto. Antigamente passava pela rodoviária.
Eu saía daqui e levava um balde de água pra lavar os pés, quando eu trabalhava na Graça. Não tinha muro da rodoviária, era cerca.
Os pés sujos de lama, marca da precariedade territorial que os moradores estavam inseridos, encontravam limites para trafegar não apenas pelo terminal rodoviário. Segundo o Jornal A Tarde (DETRAN…, 1984), o muro do Detran esten- dia-se por mais de 350 metros ao longo do bairro e visava “proteger os veículos estacionados no pátio interno do Detran”. Também tinha a função de controlar a visibilidade da pobreza, fazendo Saramandaia parecer ausente aos olhos dos moradores da cidade.
Figura 21 Muro entre o Detran e o bairro de Saramandaia Fonte: Larissa Rocha (2014).
Assim, os primeiros anos da década de 1980 são marcados por práticas para- doxais. Concomitantemente à construção pelo Detran de centenas de metros de muro ao longo do bairro − como mostra a Figura 21 −, o Estado intervinha para promover ações de urbanização (construção de escadarias, drenagem, esgota- mento sanitário e pavimentação de vias) e o reconhecimento jurídico do território mediante instituição das Áreas de Proteção Socioecológica e distribuição de títulos de permissão de uso da posse. Essa postura demonstra a ambiguidade de uma ordem urbanística que, embora permitisse fissuras, estabelecia e continua a estabelecer limites à integração dos territórios populares.
As tentativas de impedir ou apagar os vestígios de lama deixados pelos moradores não são absorvidas pela população sem indignação ou resistência. Os moradores buscavam investir-se na condição de sujeitos coletivos de direitos, insurgindo-se e confrontando a ordem instituída, como se percebe na narrativa de Dona Lúcia:
Ali na época, onde tem a Rua da Rodoviária, onde hoje tem o muro. Ali onde hoje tem as casas, ali tinha cerca. Quando a invasão cresceu, foram fazendo as casas, aí foram fazendo as casas, aí veio a rodoviária e ali cercou. A gente cortava com alicate, a gente não aceitava botar cerca. A gente tirava, a gente quebrava aquelas madeiras todas, aqueles pau. A gente não deixava. A gente quebrava. A resposta a esse movimento de “desordem” veio imediatamente por meio da presença do 15º Batalhão da Polícia Militar e da vigilância privada da Sociedade Nacional de Apoio Rodoviário e Turístico (Sinart), empresa que administra o terminal rodoviário. Mas instalação de uma ordem autoritária não foi suficiente para frear o movimento. Os moradores agiam de forma astuciosa, derrubando os muros durante o período da noite, momento em que a vigilância da ordem instituída se fazia menos presente. Também foi durante a noite que os moradores iniciaram os preparativos da obstrução da pista, aproveitando taticamente a ocasião da inauguração da Delegacia do Detran2 para promover uma manifestação, como relata Dona Neiva:
Fizemos uma manifestação. Terezinha era viva. Foi todo mundo de faixa lá com seu Horácio. No mês de Maria, pegamos todo o lixo lá do lixão e fechamos a pista. Foi na época de inaugurar o Detran. Na inauguração a gente fechou. Foi para abrir aqui. Aí eles abriram e colocaram um portão que abria e fechava. A gente ficava preso. Eles não queriam que a gente passasse nem pela rodoviária, nem pelo Detran.
O movimento de interdição da avenida obrigou os dirigentes do Detran a reconhecer a Associação Beneficente das Senhoras de Saramandaia e o Conselho de Moradores como interlocutores, sendo deflagrado um momento de negociação que teve como resultado o alargamento e a pavimentação de ruas dentro do bairro, bem como a abertura de uma estreita passagem entre o Detran e a rodoviária, como pode ser visto nas Figuras 22 e 23. Este momento de irrupção política é lembrado com detalhes por Dona Vilma, liderança que esteve à frente da situação:
Eles fizeram a cerca de arame e a gente não aceitou. Essa cerca de arame a gente não aceitou. Tinha muito acidente e a gente derrubou. Eles se aborreceram e meteram o muro de broco. Esse muro é da rodoviária. O do Detran é por fora. Quando a gente ficou tudo irado, fecharam a Sinart, fecharam o Detran. O pessoal criou a reação. A gente já não tinha nem entrada nem saída. A gente derrubou uma parte pra fazer passagem. Eles fechava, a gente derrubava, eles fechava. Foi até que Antônio Carlos Magalhães3 veio pra inaugurar o Detran e ele aceitou e fez essa passagem: beco da morte4 pra a gente entrar e sair. Era o beco do PDS, porque era tempo da política. […] A gente derrubou o muro, a metade do muro. Hoje é fechado. Foi a guerra de Saramandaia. A guerra foi essas duas passagens. Se as pessoas daqui não fosse enérgica, isso não existia. As força maior não deixava a gente aqui.
Esse “agir político e urbano”, no dizer de Agier (2011a, p. 194), marca uma linha divisória entre o antes e o depois. A vitória dos moradores ocorreu, sobre- tudo, no plano simbólico, na medida em que impunha aos poderes públicos um processo de negociação e reconhecimento. Essa “guerra”, expressão utilizada por Dona Vilma, vai deflagrar outras lutas de acesso à cidade, levando os moradores a reivindicar a construção de uma passarela cortando a Avenida Antônio Carlos Magalhães, próximo ao Detran, permitindo acesso ao outro lado da pista que levava ao mercado Atakarejo, aos bairros do Itaigara e Caminho das Árvores e, principalmente, às instituições escolares, pois a primeira escola oficial só foi implantada no bairro em 1984-1985.
Figura 22
Moradores atravessando o Beco da Morte Fonte: Arquivo pessoal da autora (2014).
Figura 23
Localização do Beco da Morte: acesso dos moradores de Saramandaia à Avenida Antônio Carlos Magalhães (Av. ACM)