PARTIE III - APPROCHE EXPERIMENTALE
3.1. Mesures de traînée
Pretendíamos partir da realidade dos cuidados de enfermagem do serviço de pediatria internamento e, com os enfermeiros que os concebem e implementam, identificar as oportunidades de mudança. Para Coutinho, Sousa, Dias, Bessa, Ferreira e Vieira (2009), sempre que numa investigação se coloca a necessidade de proceder a mudanças, de intervir na reconstrução de uma realidade, a investigação-ação afirma-se como a metodologia mais apta a favorecer as mudanças nos profissionais e/ou instituições que pretendem acompanhar os sinais do tempo.
A investigação-ação é uma metodologia de pesquisa particularmente prática e aplicada que se rege pela necessidade de resolver problemas reais. Esta forma de investigar possui um duplo objetivo, o de ação, através da qual se obtém a mudança numa comunidade, organização ou programa, e o de investigação, uma vez que permite aumentar
a perceção por parte do investigador, do participante e da comunidade. O propósito fundamental da investigação-ação não é tanto conceber conhecimento, mas melhorar e compreender a prática e a situação onde essa tem lugar, com a finalidade de explicá-las (Latorre,2003), tendo, para tal, que transportar em si “estratégias de ação” que se adotam consoante as necessidades e situações (Coutinho et al., 2009, p.365).
Coutinho et al. (2009), fundamentando-se nos estudos de vários autores (Kemmis & McTaggart, 1998; Zuber-Skerritt, 1992; Conhen & Manion, 1994; Descombe, 1999; Elliot, 1991; Cortesão, 1998), enunciaram que a investigação-ação tem por base cinco características principais:
Participativa e colaborativa, uma vez que todos os intervenientes são implicados no processo;
Prática e interventiva, pois intervém diretamente na realidade em questão, não se limitando à teoria;
Cíclica, na medida em que a investigação resulta de uma espiral de ciclos, que termina na implementação de mudanças, que são novamente avaliadas, dando início a uma nova espiral;
Crítica, sendo que a comunidade crítica, para além de procurar melhores práticas, atua também como agente de mudança, sendo crítica e autocrítica das possíveis restrições sociopolíticas que possam haver;
Auto-avaliativa, para que novos conhecimentos possam ser adaptados e produzidos.
Entre outros, Latorre (2003), refere que é neste diálogo entre pressupostos teóricos e a ação concreta que surge o caracter cíclico. O processo cíclico ou em espiral alterna entre ação e reflexão crítica. Nos ciclos posteriores são aperfeiçoados os métodos, os dados e a interpretação feita pela experiencia, obtida no ciclo anterior (Dick, 1999). Neste ciclo de investigação-ação observamos um conjunto de fases que se desenvolvem de forma contínua, e que se resumem na sequência: planificação, ação, observação (avaliação) e reflexão (teorização) (Coutinho et al., 2009, p.366). Segundo a mesma autora, esta natureza cíclica envolve uma espiral de ciclos, nos quais as descobertas iniciais dão origem às possibilidades de mudanças, implementadas e avaliadas como introdução do ciclo seguinte. Como tal, está-se perante um permanente cruzamento da teoria e prática. O conjunto de procedimentos em movimento circular dá início a um novo ciclo que, por sua vez, desencadeia novas espirais de experiências de ação reflexiva (Coutinho et al., 2009, p.366), como apresentado na Figura 3.
Figura 3 - Espiral de ciclos da Investigação-Acão
Fonte: Adaptado de Coutinho et al. (2009, p. 366)
Assim desenvolve-se um plano de ação, que, ao pretender atingir a melhoria de uma determinada prática, avança para a implementação do plano de forma intencional e controlada; durante a ação o investigador vai observando os efeitos da própria ação através da recolha de evidência, usando diversas técnicas e instrumentos de recolha de informação; na fase posterior á ação, há o debate de forma reflexiva, sobre os efeitos da ação, no sentido de reconstruir o significado da situação problemática que motiva a investigação e, com base no trabalho realizado, rever o plano gizado e partir para um novo ciclo de investigação-ação (Coutinho et al., 2009).
Em conformidade com a autora supracitada, também Marshall & Mckay (2002) referem que as fases do ciclo da investigação-ação centradas na resolução de problemas estão relacionadas com os interesses e responsabilidades do problema, compreendendo: a identificação do problema; a clarificação da sua natureza e contexto; o planeamento e a implementação das estratégias que lhe permitem a resolução do problema; gerir e avaliar a eficiência das intervenções, avaliando o seu impacte na resolução do problema. A ação termina com os resultados, se estes se revelarem satisfatórios. Caso contrário, o investigador terá de melhorar a ação planeada através de mudanças complementares no contexto identificado, dando início a um novo ciclo de investigação-ação (Marshall & Mckay, 2002).
Em suma, e em conformidade com as propostas de Marshall e Mckay (2002), este processo de investigação é apropriado quando se pretende produzir teoria no contexto de uma problemática a ser melhorada.
Para compreender os “ciclos de ação reflexiva”, Kurt Lewin, citado por Coutinho et al. (2009, p.367), defende que uma investigação parte sempre de uma “ideia geral” a propósito de uma tema ou problema relevante sobre o qual é traçado um plano de ação, devendo proceder-se a um reconhecimento e avaliação do seu potencial e das suas limitações para se partir para ação, seguida de uma primeira aferição dos resultados dessa ação. A seguir a esta fase, o investigador faz uma revisão do plano inicial de acordo com os elementos de informação já recolhidos e planifica o segundo passo a partir desta fase.
O desafio do presente estudo tem como ponto de partida a teoria que fundamenta a atual prática dos enfermeiros do serviço de pediatria do CHTMAD no foco papel parental: parceria de cuidados, sendo sua finalidade capacitar os mesmos de bases teóricas para o desenvolvimento da sua prática nessa temática e gerar resultados com ganhos para os pais e para o exercício profissional.
Face ao tipo de estudo que se pretende, adotou-se uma metodologia que permitisse o desenvolvimento do conhecimento dos enfermeiros envolvidos, encontrando soluções para a problemática identificada, a partir da investigação, e orientasse para a promoção e generalização de melhores práticas no foco papel parental.
Deste modo, ao ter-se em conta estas diretrizes, procurou-se, no presente estudo, respeitar alguns princípios, nomeadamente: i) conceptualização da investigação-ação, constituída por dois ciclos de conveniência, os quais se interligam, ou seja, um refere-se à atenção centrada na resolução de um problema emergido da prática, outro diz respeito ao ganho para a investigação; ii) adotaram-se critérios com qualidade e rigor, fazendo uso das questões, tidas como um desafio contínuo, bem como se refletiu acerca das ações; iii) utilizou-se o modelo processual da investigação-ação, que auxiliou no desenho de uma pesquisa rigorosa, de modo a poder-se sustentar a gestão da complexidade de todo o processo.
Para uma melhor perceção da investigação, apresentamos na figura seguinte, adaptado do modelo de investigação-ação de Lewin (1946), referenciado por Coutinho et al. (2009, p.368), o desenho de investigação: