CHAPITRE 4 : DISCUSSION GÉNÉRALE 51
4.2 Les phases amont de la transformation 54
4.2.2 Mesurer l’existant 55
ENTREVISTAS FINAIS COM OS PROFESSORES
O desenvolvimento de professores exige que eles se tornem conscientes da necessidade de mudança – ou pelo menos do desejo de experimentação – e das alternativas disponíveis.
Pennington
Neste capítulo, são apresentados os resultados da análise das entrevistas individuais dos professores, realizadas seis meses após a realização da pesquisa. Ressaltem-se importantes efeitos das sessões de reflexão interativa nas atividades profissionais desses professores. Esses efeitos vão desde a decisão de permanecer atuando na rede pública de ensino até a alteração de procedimentos pedagógicos. Além disso, os depoimentos revelaram que algumas teorias foram reforçadas e outras foram alteradas. Tais concepções se expressam no âmbito do “contexto”, do “conteúdo”, dos “objetivos”, dos “procedimentos pedagógicos”, do “professor” e dos “resultados do processo de ensino–aprendizagem”. São também registrados os depoimentos sobre as sessões de reflexão interativa.
Este capítulo divide-se em quatro seções, em que os participantes são focalizados individualmente, uma vez que se pretende considerar as conseqüências deste estudo para cada um deles. No final, apresenta-se a síntese dos resultados dessa análise (Quadro 6.1).
6.1 ANA CLARA
Ana Clara foi a professora que mais sofreu influências das sessões de reflexão interativa. Isso certamente se deve ao fato de que, além de ser uma professora inexperiente na escola pública, ela não se adaptou às normas da escola.
6.1.1 Contexto
Ao responder à pergunta sobre o que tinha feito durante os seis meses após o semestre em que foi realizada a pesquisa, Ana Clara declarou: “Eu mudei de escola. Onde eu trabalhava era com crianças, período matutino, eu estava muito insatisfeita”. Vale lembrar, em vários momentos das sessões de reflexão interativa, Ana Clara tinha se mostrado descontente com a escola em que dava aula e até havia manifestado a vontade de pedir exoneração da rede pública e trabalhar somente em cursos de língua.
Os problemas mais graves apontados por ela eram a agressividade dos alunos e a relação autoritária entre a diretora e os professores e entre os professores e os alunos. A orientação dada pela diretora para resolver o problema da indisciplina era que ela deveria ser mais dura com os alunos, o que foi de encontro aos seus princípios educacionais: “Eu não acredito nesse tipo de educação, eu não acredito que você tratando mal os alunos, você está educando. [...] [Além disso], educação não é manter o aluno na carteira, quietinho, paradinho”.
As oportunidades de reflexão interativa ajudaram Ana Clara a ver outras realidades escolares, em que os alunos não são agressivos e o ambiente não é autoritário: “A pesquisa foi me ajudando a ver que esse era um problema de lá”. Assim, Ana Clara viu a possibilidade de encontrar condições mais interessantes de trabalho – do ponto de vista pedagógico – em outras escolas da rede pública. Para ela, também era importante um emprego estável, que lhe permitisse fazer carreira. E Pedro Henrique, especialmente, foi fundamental na decisão de Ana Clara de mudar de escola, ao indicar uma vaga existente na escola em que ele trabalhava no período noturno. Ele próprio fez a intermediação do contato entre o diretor dessa escola e Ana Clara.
Essa mudança, segundo avalia Ana Clara, propiciou-lhe maior liberdade de ação pedagógica, e assim ela pôde pôr em prática os conhecimentos novos adquiridos nas sessões de reflexão interativa, como se verá a seguir.
6.1.2 Conteúdo, objetivos e procedimentos pedagógicos
A decisão de permanecer na rede pública de ensino é a conseqüência mais relevante da pesquisa para a vida profissional de Ana Clara. E um efeito importante das
sessões de reflexão interativa foi ter ampliado seu conhecimento a respeito do conteúdo e dos objetivos de ensino de língua. Antes das sessões, Ana Clara centrava seu trabalho nas habilidades orais, como única abordagem possível e eficaz. Depois, ela passa a reconhecer que o desenvolvimento das habilidades de leitura é uma alternativa viável: “Me foi muito válido conhecer o inglês instrumental nessa perspectiva de educação, de cidadania”. Assim, hoje, ela entende que ambos os enfoques podem ter resultados positivos, dependendo de quem são os alunos e de quais são as suas expectativas em relação à língua:
[92] Nesta escola, eu encontrei três 5as séries totalmente diferentes. Uma 5ª série é a dos mais novos, eles são adolescentes, são hiperativos e vão para escola porque querem algo mais do inglês do que simplesmente ler e escrever. E tem uma turma daqueles mais problemáticos, sempre é assim, que realmente a aula não rende muito [...]. É um pouco mais difícil de lidar com eles, você tem que pedir silêncio, as atividades não têm aquele rendimento que você tem nas outras. E tem a turma dos mais velhos, pessoas com mais de quarenta anos, é uma turma mais lenta [...], alguns com dificuldade de aprendizagem. Então, eu comecei a trabalhar de uma maneira diferente.
É importante ressaltar que essa mudança não implicou o abandono de sua teoria prática sobre a abordagem comunicativa, mas, sim, a ampliação de seu conhecimento, na medida em que hoje ela percebe que a utilização dessa abordagem depende de condições contextuais propícias, tais como o número de alunos na turma, a carga horária e a necessidade dos alunos.
[93] [...], porque as pessoas têm uma idéia errada do que é o communicative approach, na medida em que acham que é só um blá-blá-blá [...] e que isso não atende às necessidades dos alunos. Mas atende, sim. Depende do que eles precisam realmente. [...]. Eu tenho uma turma, que é a 5ª B, que é o meu xodó. É uma turma com apenas 12 alunos e isso faz toda diferença, porque [...] eu comecei a falar com eles em inglês, comecei atividades orais, levei música, tentando trabalhar a oralidade, e eles aceitaram isso muito bem. Tanto é que eles me cobraram atividade de pair work. Na segunda semana de aula, a gente já estava fazendo pair work. Coisa simples, What’s your name? My name’s ...,
Nice to meet you, mas eles conseguiam falar e queriam isso. [...]. E agora, com a grade
paritária, eu tenho uma aula de 40 minutos e outra de 80. Então, eu tenho uma hora e quarenta minutos para trabalhar com eles o que eu quiser. Isso é muito bom e aumentou a qualidade das aulas no município.
Ana Clara afirmou também que, nessa turma, cujo enfoque é a comunicação oral, ela passou a utilizar mais textos, e os resultados foram melhores dos que conseguia quando trabalhava na outra escola.
Um outro efeito das reflexões interativas manifesta-se na forma como Ana Clara agora reconhece a importância da formação do aluno, visto que suas turmas demonstram precariedade de conhecimento de mundo. Isso a tem levado a trabalhar o conteúdo de outras disciplinas.
[94] Por exemplo, quando chegou na questão dos países, eu entrei um pouco na geografia. Isso foi um pouco de interdisciplinaridade, porque, às vezes, eles falavam Estados Unidos, mas eles não tinham noção do que era Miami, se era um país ou um estado ou uma cidade, se a América era um país ou um continente. Então, eu levei mapas, mostrei, fiz competição, tipo gincana sobre o que é continente, quais são os continentes, quais são os países, quais são as cidades... E conhecimentos gerais: Onde fica a Estátua da Liberdade? Onde fica o Cristo Redentor? Onde fica o Museu do MASP? Onde fica o Memorial JK? Essas coisas assim, e explorando muito sobre o Brasil.
Nessa mesma perspectiva, mas denotando uma alteração mais radical, é o seu depoimento de que, para algumas turmas, o conhecimento de mundo deve suplantar o desenvolvimento lingüístico.
[95] [...], eu percebi que realmente inglês para essas turmas do noturno, essas turmas que têm muita dificuldade, o inglês serve como pano de fundo. Na verdade, o que trabalhei mesmo com eles foram conhecimentos gerais, que iam ajudá-los na geografia, no português, na história, quem foi George Washington, o que foi a independência dos Estados Unidos.
Segundo Ana Clara, nessas turmas ela passou a trabalhar estratégias de leitura, como palavras cognatas, linguagem não-verbal, conhecimento prévio etc., com resultados positivos: “A gente fechou o ano muito bem”. E, se antes Ana Clara criticava os projetos, ela passou a perceber sua validade.
[96] [...], a gente trabalhou um pouco folclore, porque o colégio pediu, [...] o que também foi muito bom, porque aí a gente explorou saci-pererê, lendas, superstições, simpatias, e eu sempre pedia que eles escrevessem no final da aula um parágrafo de dez linhas em português.
Embora a escola onde trabalha agora seja seriada e não trabalhe com projetos, ela afirma:
[97] Eu não sei se eles [os professores da escola] querem fazer projeto, [mas] eu faço [...]. Eu gostei muito da idéia que aprendi com Márcia, Pedro Henrique e Jonas e acho que vale a pena trabalhar assim.
Essa fala e o depoimento de Ana Clara, de modo geral, permitem concluir que o enfoque na leitura passou a ser o fundamento de suas aulas, ao passo que a oralidade agora é trabalhada quando os alunos mostram interesse e capacidade para desenvolvê- la: “Eu acho que eu consegui um equilíbrio entre as quatro habilidades, de acordo com o que eles dão conta mesmo”.
Ana Clara também passou a considerar a importância da confluência entre os objetivos que ela tem para com o ensino e as razões que os alunos apresentam para aprender a língua: “Eu estou ensinando inglês, [mas] vai servir para eles para quê, na 5ª série?” E para saber mais sobre os objetivos dos alunos, ela passou a adotar o procedimento de análise de necessidades.
[98] Eu tive que avaliar quais eram as necessidades deles, o que eles queriam realmente do inglês, o que eles esperavam do inglês. E nisso foram muito válidas aquelas conversas que a gente teve [...] depois da apresentação das filmagens.
Ouvir os alunos, especialmente quando não são mais crianças, é considerado importante na literatura especializada, pois a possibilidade de se obter sucesso na aprendizagem de uma língua estrangeira é maior quando os objetivos do curso refletem o que os alunos querem aprender.
6.1.3 Professor
As sessões de reflexão interativa possibilitaram uma outra concepção de escola pública para Ana Clara. Além disso, sua experiência na nova escola contribuiu para que essa concepção se firmasse, por uma série de fatores: ela foi “muito bem recebida” pela coordenadora pedagógica e pelos alunos; foi orientada sobre o funcionamento da escola; ela sentiu que “existia amizade entre aluno, professores, coordenação e direção”; seus alunos são “calmos e muito bons”; a biblioteca é muito boa (“a bibliotecária é bibliotecária de verdade”); e, por fim, a coordenação pedagógica funciona e
[99] [...] está mais interessada em ter o aluno em sala de aula, em educá-lo como ser humano e cidadão do que realmente tê-lo ali quietinho, passivo. Não é isso que eles querem. [...]. E outra, o nosso diretor é uma pessoa muita engajada politicamente. Acho que isso também faz a diferença.
Vários aspectos, então, corroboraram para que Ana Clara tivesse confirmadas as expectativas que começaram a se criar nas sessões de reflexão interativa, por meio das aulas gravadas e dos testemunhos dos outros professores.
[100] A gente tem um ótimo ambiente de trabalho, a gente realmente sente que tem colegas de trabalho, parceiros mesmo de trabalho, todo mundo está a fim de mudar, de trabalhar. [...]. Por isso que o Pedro Henrique gostava tanto dessa escola e por isso que ele é apaixonado pelo que faz. Eu acredito que hoje estou gostando do que eu faço.
O destaque a ser dado ainda refere-se à atitude de Ana Clara questionar seu papel como professora. Hoje, ela se vê mais como uma educadora do que como uma professora de língua.
[101] Antes eu pensava muito na língua. [...]. Eu já não me preocupo tanto com isso, não, porque eu acho que mais importante é eles adquirirem conhecimento, adquirirem o hábito de ler e principalmente o hábito de debater, de colocar as idéias.
Nessa fala, Ana Clara deixa claro que a aula de língua estrangeira deve aprimorar não só o conhecimento de mundo do aluno, mas também suas habilidades discursivas tanto na língua estrangeira (leitura) quanto na língua materna (comunicação oral).
A influência das reflexões na vida profissional e na prática pedagógica de Ana Clara foi significativa. Além de ela reconhecer que hoje tem um papel a cumprir na escola pública, ela está menos presa a uma única abordagem de ensino. Se antes ela não entendia por que uma aula funcionava em uma turma, mas não funcionava em outras, hoje ela percebe que a diferença entre as turmas exige abordagens diferentes. Seu contentamento com o trabalho que está realizando na nova escola e a segurança que adquiriu, pelo fato de ter dividido com os outros três professores as angústias e as realizações de ensinar inglês nesse contexto são notáveis. Também é motivo de satisfação para Ana Clara o rompimento com sua solidão pedagógica, pois agora trabalha na mesma escola e turno que Pedro Henrique.