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Marls, limestone and white subrecifal limestone (middle (lower Cretaceous)

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ANTI-LEBANON MASSIF

5. Marls, limestone and white subrecifal limestone (middle (lower Cretaceous)

Um pouco mais tarde Roberta Maria Neves, conhecida como Mestra Maria do Pandeiro se apresenta também de grande importância para uma melhor compreensão dos primeiros momentos da prática da capoeira na Alemanha. Sua importância está por trazer uma trajetória diferente dos demais. Natural de Santos, litoral do estado de São Paulo, é aluna de Mestre Sombra do grupo Capoeira Senzala de Santos.

Saiu do Brasil em 1987 viajando de mochila nas costas, aca- bando sua turnê na Holanda quando arranjou emprego no ramo de negó- cio de flores trabalhando também como au pair. Na Holanda se reen- controu com a capoeira começando a dar aulas em Den Haag, partici- pando de apresentações e eventos de Mestre Samara, Marreta e Gildo Valu – primeiros mestres de capoeira chegar à Holanda – que também serviu para melhorar o inglês que ,segundo a mestra, era básico. Foi para Bremen, onde a irmã do Mestre Gildo Valu já dava aulas de capoeira para um grupo bastante articulado e ativista de feministas.

Fotografia 11 - Mestra Ma- ria do Pandeiro. Fonte: acer-

vo da Mestra acessado em maio 2013

Com a ida desta professora para Berlim, em meados da década de 1990, o grupo de feministas convidou Maria do Pandeiro para ficar em seu lugar, conseguindo inclusive um visto para ela com a exigência do grupo ter aulas de capoeira com uma mulher. Ainda na década de 1990 fundou o Grupo Dandara de Bremem tendo como padrinho o Mes- tre Sombra do grupo Senzala de Santos. De acordo com Mestra Maria do Pandeiro “Não saí do Brasil pela capoeira e sim pela aventura [...]

nunca imaginei que ia acabar dando aulas”.

Mestra Maria do Pandeiro foi um dos primeiros contatos que eu tive em relação à capoeiragem na Alemanha. Consegui seu contato ain- da quando estava no Brasil, através de indicações de pessoas ligadas ao mundo da capoeira. Ainda no Brasil já trocávamos mensagens através das redes sociais virtuais, de onde consegui a maior parte das informa- ções levantadas sobre ela. Durante esse evento que participei, tive pouco tempo para falar com ela, principalmente por estar diretamente envolvi- da em todo os detalhes do evento. Portanto duas características saltam aos olhos sobre a Mestra. Uma diz respeito a sua facilidade de manipu- lar e utilizar as redes sociais e se manter conectada, fato raro entre os mais antigos, mas bastante salutar para minha pesquisa. De outro lado a sua personalidade e temperamento forte que fazem dela uma eterna inquieta e sempre com alguma coisa por fazer.

No início do mês de maio de 2012 em uma quarta feira atípica de sol e calor para uma primavera, cheguei pela primeira vez em Bre- men para o evento de Mestra Maria do Pandeiro. Meu GPS acusava alguns quinze minutos de caminhada da estação de trem até a casa da mestra. Um pouco mais de uma da tarde cheguei e uma rua um pouco afastado do centro da cidade onde a santista já tinha me avistado e ace- nava pela janela do quinto andar de um prédio no meio do quarteirão. Sempre muito simpática e receptiva e faladora me recebeu já preparando o almoço. Mestre Sombra que já se encontrava na casa.

Sentei-me e fiquei por quase meia hora ouvindo escutando as histórias de Maria e de sua vinda para Europa enquanto esperávamos o almoço. Uma vida repleta de viagens, rebeldia e muita vontade de co- nhecer o mundo. Mestra Maria do Pandeiro cursou o primeiro semestre de filosofia e letras na USP e quando chegou à Europa já falava francês. Na sala da casa, onde fiquei hospedado durante minha estadia, uma prateleira de livros sobre capoeira, algumas raridades como livro de Nestor Capoeira com a última edição esgotada. Após o almoço e algu- mas horas de conversa, saímos em direção à sua academia onde, às 19h, começaria as aulas que só terminaria às 22h. A Mestra, como se repeti-

ria durante todo o evento, não parava um só segundo, indo de um canto a outro organizando e preparando os detalhes.

A aula de Mestre Sombra se desenvolveu com treinos e repeti- ções de movimentos típicos da Capoeira Angola, como a Cocorinha, a Queda de Quatro e a Negativa de Angola, movimentos basicamente executados com o corpo no chão, alternando os pontos de apoio entre braços e pernas. Mais uma vez a questão das inversões hierárquicas (REIS, 2010) se apresentam como modelo de valorização de movimen- tos de baixo para cima, onde todos os movimentos acima citados se desenvolvem no chão.

A classe era predominantemente formada por mulheres onde um grupo de alunas se destacava pelo clima de amizade. Entre elas Ma- ria Bilous, Matilda Büyüker, Alice Beckmann-Petey e Thomas Sege- mann que estão sempre assessorando e dando suporte aos projetos de Mestra do Pandeiro. Um dado bastante interessante de se notar é que a grande maioria de seus alunos são mulheres, fato que se distingue dos outros grupos, mestres e professores que pesquisei na Alemanha. Princi- palmente quando diz respeito aos mais graduados, pois a grande maioria dos professores e mestres são do sexo masculino.

No final do treino foi feita uma roda iniciada com uma ladainha versada pela mestra a São Bento Pequeno de Angola35, que exigia um jogo mais cadenciado típico do jogo de Angola. Todavia, a roda termi- nou ao ritmo de São Bento grande de Regional, onde a mestra fez sinal para eu entrar no jogo e aproveitar, já que se trata de um toque caracte- rístico do estilo de Capoeira Regional, de onde minha própria prática de capoeira é um desdobramento. Depois de um dia inteiro de treino de Angola fiquei feliz de poder jogar um jogo de Regional.

Depois da roda a Mestra comentou que alguns Mestres de anti- gamente estão ficando muito estrelas e que a capoeira Angola também se modernizou com a influência e determinação de Mestre Morais. Pelas circunstâncias daquela época – década de 1980 – onde os grandes gru- pos de capoeira estavam em todos os cantos do Brasil e dominavam a opinião pública, tiveram que assumir um discurso mais radical contra o estilo Regional para se afirmar e conseguir espaço.

Nossas discussões sobre a capoeira se delongaram por todo per- curso até a casa da mestra e começaram a se acirrar. Mestre Sombra sempre com um tom irônico e crítico sobre o que falávamos, mostrava

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Um toque específico de berimbau característico do estilo de Capoeira de Angola

sempre a ideia de preconceito e de racismo pelo qual os negros sofreram e sofrem até hoje. Mestre Sombra, ao contrário de Mestra Maria do Pandeiro, se mostrava em defesa de uma posição autoritária do Estado - confidenciando ter sido a favor do golpe militar, mas que depois acabou discordando do teor de repressão que o golpe tomou – para organizar a capoeira. Para ele o Estado deveria impor as regras e quem quiser o dinheiro do Estado que aceite as regras.

Mestre falou também sobre a “virada da Angola dos anos de 1980”, que veio devido a uma reação dos Angoleiros estavam nas mãos dos Mestres do estilo Regional, pois só se conseguia trazer os mestres de Angola para os eventos por intermédio de alguns destes mestres da Re- gional. Falou também que Mestre Morais e o Mestre Cobra Mansa che- garam na época à ele dizendo que iam reorganizar a Capoeira Angola.

O esquema de graduação do grupo Dandara é bastante peculiar. Mestra Maria do Pandeiro usa cintos de cores diversas para representar as diferentes etapas e graduações de seus alunos adultos e utiliza cordel para as crianças. Fato bastante inusitado já que acaba por fazer uma interessante mistura do esquema de graduações instaurada por Mestre Bimba da capoeira Regional, com a vestimenta da capoeira Angola que usa calça de cinto e sapatos. Misturando, portanto estes elementos, adap- tou as vestimentas da Capoeira Angola a questão das graduações, bas- tante representativo do movimento constante de conectar elementos de sistemas supostamente distintos.

Imagem 11 - Painel usado como fundo de palco para a encenação dos Músicos de Bre- men no Sertão Brasileiro: Fonte: Pesquisa de

Campo (Fernandes,2012)

Imagem 12 - Um dos painéis usados como fundo de palco com as imagens dos músicos de Bremen com o bando de Lampião. Fonte: Pesquisa de Campo

(Fernandes, 2012) No dia do batizado teria uma festinha com jantar e uma apre- sentação cultural dos alunos do grupo. Desde cedo Mestra Maria do Pandeiro não parava montando o cenário da apresentação que tinha como tema as aventuras dos Músicos de Bremen (historia infantil criada pelos irmãos Grimm) no sertão do nordeste brasileiro. Mais um elemen- to de hibridação é apresentado. De acordo com a mestra:

não é a primeira vez que usamos a ideia dos Mú- sicos de Bremen como tema, mas dessa vez pen- samos em mandá-los (Os músicos de Bremen) pa- ra o Brasil em vez de ficar em Bremen. Lá conhe- ceram um coronel que capturou o burrinho e o fez trabalhar colocando nele uma cangalha. Os outros pediram socorro ao bando de lampião, que o liber- taram do coronel. O burro agradecido resolveu fi- car por lá mesmo com os cangaceiros e os outros animais o esperam até hoje em Bremen (Entrevis- ta dada através do Facebook, 2013).

A fusão criativa dos personagens da historia dos irmãos Grimm com um contexto brasileiro do sertão e do coronelismo típico do nordes- te brasileiro representa uma habilidade adquirida pela mestra de misturar elementos identitários assumindo certa autoridade neste assunto. Um lugar de legitima fronteiridade por onde ela se constitui enquanto sujeito tendo a partir deste lugar a autoridade criativa de combinar elementos distintos referentes a imagem de brasilidade do sertão nordestino brasi- leiro com elementos socioculturais característicos do imaginário de Bremen em que há mais de vinte anos reside.

A fábula Músicos de Bremen fala-se sobre um burro, um ca- chorro, um gato e um galo que, sofrendo os maus tratos e exploração do campo, resolvem migrar para a cidade-estado de Bremen. Uma cidade independente, basicamente protestante, onde o comércio desenvolvido através de seu porto, o segundo maior da Alemanha, oferecia um territó- rio de liberdade das “amarras feudais” da época. A fábula revela a ima- gem desenvolvida de defesa às diferenças e um lugar de liberdade e autonomia.

Tanto no caso dos cintos coloridos usados como graduação, quanto na história dos músicos de Bremen no Sertão, a Mestra segue borrando fronteiras de todos os tipos, conectando elementos concebidos em diferentes mundos ou estruturas socioculturais. Fazendo associações

peculiares proporcionadas basicamente por sua experiência de tramita- ção entre diferentes mundos. Através da mestra, diferentes cosmologias sofrem um processo de fricção, proporcionando com o tempo um espaço intersticial que é o próprio lugar de subjetivação por onde a mestra foi se reinventando. Um lugar de subjetivação que associo ao conceito in between de Bhabha (1994), por se posicionar entre mundos, entre estru- turas lógicas concebidas de maneira distintas sem conexões a priori, nem temporais tampouco espaciais.

Um lugar inventado pela mestra de onde ela se deixa atravessar e, com isso, se fazer enquanto uma opção. Suas experiências pessoais são disponibilizadas para uma coletividade como um novo espaço pos- sível de subjetivação. Com efeito, seus alunos e discípulos podem usu- fruir das experiências individuais da mestra, coletivizadas através da capoeiragem, ao modo de, com a prática da capoeira, poderem se refaze- rem como sujeitos híbridos.

No caso dos cintos, a mestra faz um movimento de conexão, quase sempre duramente criticado por setores mais conservadores da capoeira, entre Capoeira Angola e Regional. Na situação do tema dos Músicos de Bremen no sertão, cria uma narrativa que conecta duas his- tórias de temporalidades, contextos e espacialidades diferentes, propon- do assim uma situação in between, bastante familiar à mestra. Ambas geram possibilidades múltiplas de seus alunos, se posicionarem até de maneira participativa, como vista nas fotos quando os alunos ajudam na preparação do cenário e na organização do evento.

3.3. Adaptação e nacionalidade nas primeiras construções de alteridades

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