Exerc´ıcio
2.5 Efeitos Num´ ericos
2.5.4 Mal Condicionamento
352 Sobre o acolhimento da Companhia de Jesus em Portugal, protecção do rei D. João III e sua implantação («(...) a Companhia de Jesus encontrou em terras lusitanas (...) os seus maiores amigos e aliados que a fizeram grande e respeitada, isto é, em certa medida, encontrou em Portugal o seu berço mais promissor (...)»), Vide, José Eduardo Franco, O Mito dos Jesuítas, Vol. I, Lisboa, Gradiva, 2006, pp.87/89
353 António José Saraiva, História da Cultura em Portugal, Vol. III..., p.225 354 Ibd.,pp.225/226
355 A Companhia de Jesus « Apresenta-se (…) como uma tentativa de síntese entre a tradição monástica e as novas correntes de espiritualidade (...) emergentes da modernidade. Neste esforço de síntese (...) os Jesuítas desenvolveram uma nova piedade perfilada para a acção. A sua reflexão teológico-antropológica professava uma valorização do indivíduo e da sua liberdade, do seu espírito crítico e da possibilidade de o homem se capacitar e se aperfeiçoar pela aquisição de saber e de técnicas.», José Eduardo Franco, op cit.,p. 67
Hervé Pennec nos Catálogos356 constantes dos Arquivos da Companhia de Jesus em Roma .
Aí teria iniciado, o jovem Pais, os estudos do nível superior, isto é três anos de Filosofia, com formação também em Moral e Matemática (Geometria e
Cosmografia). No Colégio de Belmonte conheceu Tomás de Ituren357 seu professor
de filosofia, com quem se corresponderia durante toda a vida358.
Podemos imaginar Pais na época, certamente como um jovem entusiasta, cuja personalidade fora moldada pelos Exercícios Espirituais concebidos pelo fundador da ordem, que visam a perfeição espiritual através da fé, mas também do exercício da autodisciplina e ordem, do pragmatismo, determinação da razão na
conduta humana359 e pelo zelo apostólico que orientavam a actuação da Companhia.
A 5 de Maio de 1587 o ainda estudante, Pêro Pais, escreve ao Geral da Companhia, Cláudio Aquaviva solicitando o seu envio para as missões do Oriente do Padroado Régio português. E assim, ainda antes de ser ordenado, o irmão Pêro Pais, dirige-se a Lisboa, de onde embarca para Goa na nau S. Tomé, em Abril de 1588.
Goa, a terceira província da Companhia, criada em 1549, era o ponto de difusão da actividade missionária no Oriente, englobando a África Oriental e convertera-se igualmente num centro de formação. O jovem Pais ali aporta em Outubro de 1588 e retoma a sua formação, iniciando os estudos de Teologia, no Colégio de S. Paulo, que deveriam ter a duração de quatro anos.
Entretanto, face ao estiolar da pequena missão jesuíta em território etíope, o provincial da companhia em Goa, Pêro Martins pressionado pelas recomendações do
monarca360, Filipe II de Portugal, transmitidas ao através do recém nomeado
Governador, Manuel de Sousa Coutinho, decide enviar para a terra do Preste mais dois missionários , pois, como afirma Pais, «(...) por ser necessário grande secreto
pareçeo ao Governador, q não convinha fossem mais q dous.»361. São eles,
precisamente o jovem Pêro Pais e o já experimentado P.e António de Monserrate, com longos anos de Companhia e 53 de idade, coadjutor espiritual , natural da
356 Listas de dados pessoais dos missionários, no caso da Etiópia compostos de três em três anos pela
província de Goa. Cf., nota 137 in Hervé Pennec, op cit., p.108 357 George Bishop, op cit., p.17 e Javier Reverte, op. cit., p. 49
358 Vide,como exemplo a carta a Ituren ap., Hervé Pennec, op cit, p. 106
359Vide, Francisco Rodrigues, História da Companhia de Jesus na Assistência de Portugal, Tomo I, Porto,
Apostolado da Imprensa, 1931, pp. 162/173 360 Vide,Cap. I, da presente obra, p. 28 361 Ibd.,p. 369
Catalunha, que fora enviado à corte de Akbar, o Grão-Mongol, em Agra, em 1580 e havia redigido o manuscrito Mongolicae Legationis Commentarius.
Trata-se de uma nova tentativa de missionação e de retomar as comunicações, difíceis de estabelecer desde o avanço turco no Mar Vermelho e da ocupação de Suaquém, Maçuá e Arquico (c.1557), pontos na costa etíope que possibilitavam a entrada nesse reino. Por conseguinte, os contactos com a “missão mãe” de Goa são esporádicos mercê de mensageiros ocasionais (abexins, mercadores judeus, muçulmanos, etc.) que conseguem passar correspondência por entre as apertadas “malhas” turcas.
Preparando-se para a partida, o jovem irmão Pêro Pais, então com 24 ou 25 anos, recebe as ordens sacras em Janeiro de 1589, apenas com dois anos de formação em Teologia. Deve, assim interromper os seus estudos, destinado a constituir “uma guarda avançada“ na Etiópia, que pouparia os melhores teólogos e as maiores dignidades dentro da Companhia. O que se pretendia ao contrário da missão de 1557, era simplesmente « (...) faire passer à travers les mailles du filet ottoman deux prêtres capables d’administrer les sacraments aux membres de la communauté métisse portugaise. Au caso où les événements tourneraient à leur avantage, un contact avec la cour par exemple, l’expérience d’António de Monserrate (...) pourrait lui servir.»362.
É o próprio P. Pêro Pais que nos relata o início da missão na sua Historia que seguiremos tanto quanto possível no que aos seus dados biográficos diz respeito, uma vez que o padre muitas vezes nos aparece como protagonista ou interveniente dos assuntos narrados.
Desta forma logo a 2 de Fevereiro de 1589, os dois padres partem de Goa, via Chaúl, para Baçaim, onde o jovem padre Pais celebrou a sua primeira missa, no colégio local. Os dois missionários pretendiam dirigir-se a Diu, importante centro de ligação com o Golfo Pérsico e o Mar Vermelho graças á existência de uma comunidade local de mercadores com ligações a essas zonas, o que facilitaria um possível acesso à costa etíope. A partir dessa cidade tentariam alcançar o Mar Vermelho, disfarçados de mercadores arménios, dirigindo-se a Moca, de onde seguiriam pelo golfo de Adem, até ao porto de Macuá, na costa etíope.