Exerc´ıcios
1.5 Auto-Valores e Auto-Vetores
Maçuá e Zeila e de tôdas as ilhas do mar Roxo e dos cabos das nossas terras (...)», p. 386
287 Elaine Sanceau, Em Demanda do Preste João, Porto, Livraria Civilização, s.d., p. 157 288 Ibd.,p. 285
289 Ibd., pp. 286/289
290 Cf.,Gaspar Correia, Lendas da Índia,Cap. III, Vol. III, p.49 291 Ibd.,p. 288
292 «(...) logo nesta noite, segundo dia de nosso caminho, o pecado começou ordenar outras brigas, que João Gonçalves, nosso feitor se começou a tomar de razões com um João Fernandes que trazia, ou o Capitão- mor lho dera por seu ajudador (...), de maneira que diziam que lhe dera com um pau. E, as brigas armadas, fizemo-los em paz o mais que pudemos e o Embaixador favoreceu ao João Fernandes e êle deixou o feitor (...)». Mas ao entrarem nas terras do Abdenago [senhor local], indo o grupo por duas passagens distintas, «(...) o pecado meteu-se na cabeça de João Fernandes e foi aguardar o feitor que ia só com a fazenda e com uma lança do Embaixador lhe deu duas lançadas (...), a da mão feriu-lhe os dedos e a dos peitos quis Deus dar-lhe em uma costela (...)». No entanto «(...) achámo-lo quási morto, quis Deus com a boa diligência dar-lhe saúde.» Por seu lado, ao fugir João Fernandes, para junto do embaixador «(...) bradaram rijamente os que após êle iam que o prendessem que matara o feitor e foi preso e o feitor [que pelos vistos não estava exactamente morto] bradava e dizia que o Embaixador o matara com favor e lança que dera a seu criado (...)».Com tanto desentendimento, não alcançam o sítio onde deviam pernoitar. João Fernandes foi preso e atado, mas durante a noite alguém o soltou e este escapou-se para junto de Jorge de Abreu, ficando o embaixador ainda mais apreensivo. Ibd., pp. 288/289
O clima é de tal ordem que emissários do Preste exortam o grupo à paz:«(...) o Adrugaz [oficial da corte do Preste] fêz fala ao Embaixador, dizendo porque o fazia tão mal com os seus naturais (...) que se não costumava entre os grandes, que olhasse quanto desprazer dele tivera o Preste João, por tanto maltratar a sua companhia e, que se doutra maneira os tratara, doutra maneira viera êle tratado e
mais contente (...)»293.O embaixador mantém-se, todavia, irredutível na acusação de
traição a Jorge de Abreu e recusa-se a partilhar os seus mantimentos. Seguem-se episódios violentos como o assalto à pousada de D. Rodrigo pelo grupo de Abreu, para roubar espingardas. A comitiva portuguesa exibe uma triste imagem de si
perante os desalentados emissários do monarca etíope294. Talvez as razões das
disputas adviessem do carácter improvisado da embaixada , que não havia delimitado com precisão as questões do exercício de autoridade e competncias. Ou trata-se apenas de um episódio ilustrativo das querelas entre fidalgos, que pareciam proliferar
no Oriente295. Como refere J. P. Oliveira e Costa, a nobreza encabeça o processo da
expansão portuguesa, nela se distinguindo os membros necessiitados de réditos e honrarias da baixa nobreza, fidalgos, cavaleiros e escudeiros que encontraram um modo de vida e de ascensão social nas actividades administrativas e bélicas do Estado da Índia296. É, pois, natural que a pertença a “casas” nobres diferentes, a inveja, a disputa e a arrogância do estatuto nobre despoletassem acesas contendas e inimizades.
293 Ibd., p.293
294 «E, jazendo nós [o escrivão, ele e seu sobrinho] na cama, alta noite ouvimos bradar: - Toma de cá, toma de lá. E logo espingardas. E, acudindo nós a isto (...)os vimos como com vaivens [aríetes] derribavam as casas e tiravam espingardas, parecendo-nos que eram mortos os que dentro estavam que tamanho era o arruído, fomos correndo às casas do Barnagais [senhor local] em que pousavam os ditos senhores [emissários do Preste] a dizer-lhes que acudissem (...) entrando nós por uma porta e o Embaixador e os seus entravam por outra e traziam consigo a coroa e cartas do Preste e a fazenda que puderam (...). E saíram-se (...) por um postigo que a casa tinha. Mandaram logo estes fidalgos [o embaixador e os seus homens] todos os outros prender (...) e ainda os achámos [o grupo de Jorge de Abreu] no derribar das casas (...) e aí os andaram maltratando a punhadas e pancadas, porque êles já não tinham pólvora (...) e foram todos levados ante estes fidalgos. Mais outro-sim os maltrataram e os mandaram levar a outro lugar (...) que aí estivessem sem saír e lhes deram guardas que os guardassem (...) [os emissários do Preste] não sabiam que fazer de nós e não ousavam de nos deixar nem levar nem êles se tornar nem podiam meter paz entre nós e todavia tomaram seu conselho de nos tornar em côrte (... )»,Ibd., pp.294/295
294 Vide, os numerosos episódios de rivalidades entre fidalgos narrados por exemplo por Gaspar Correia, op. cit.
295 Ibd., p. 296
As desavenças farão perder a paciência aos corteses etíopes297. Seguirão com o importunado Barnagais e serão alojados separadamente: os do embaixador em Baruá e os de Abreu em Barruá, onde também fica o Barnagais, «(...) e diziam que o fizera para não estar a chaças do Embaixador (...). Neste tempo éramos bem mal providos de tôdas as cousas. Melhor provido era Jorge de Abreu e os que com êle estavam, que nós outros e valia-nos o nosso grande caçar e pescar que fazíamos (...)»298.
O regresso não seria fácil. A embaixada permaneceriam ainda em terras etíopes por mais cinco anos. Durante a sua permanência Francisco Álvares continua a narrar e a protagonizar os episódios e deslocações que não são claramente localizados no tempo ao contrário da progressão da viagem inicial até à corte, tendo que ser inferidos a partir de pormenores resgatados no meio da informação diversa
assim como a sua sequência cronológica. Seguindo C. F. Beckingham299, estarão
novamente na corte do Preste, nas terras de Gorage, em Abril de 1523, onde passarão
a Quaresma e onde encontrarão novamente Pêro da Covilhã300. Ali recebem cartas
de D.Luís de Meneses, capitão–mor da esquadra que os aguardava em Maçuá, pelas quais sabem do falecimento do rei D. Manuel (13 de Dezembro de 1521), que comunicam ao Preste. Partindo um mês e meio depois, já não encontram a armada portuguesa na costa, mas apenas cartas e mantimentos. D. Rodrigo decide partir novamente para a corte para ofertar toda a pimenta recebida, levando consigo o P. Francisco Álvares para traduzir as cartas, no início de Setembro. Alcança-a desta feita em terras de Fatigar, nos finais de Novembro. Pelas informações que o autor
recebe sobre a região é provável que reencontrassem novamente Pêro da Covilhã301.
Quando abandonam a corte (1524) são seguidos por um novo emissário abexim, o frade Zagazabo, já conhecido dos portugueses pela intempestiva aparição que fizera durante a viagem inicial dos portugueses, na região de Tigré, espancando o
297 «(...) encontrámos com o Barnagais que vinha da côrte e trazia recado para os fidalgos [etíopes] e para
nós (...). Foram estes fidalgos mui repreendidos (...) por nos trazerem sem licença [à corte] e assim bradou muito com o Embaixador e com Jorge de Abreu (...) e entre o Embaixador e Jorge de Abreu se passaram mui feias palavras.»,Álvares, op, cit., pp.
298 Ibd., pp.296/297
299Cf. C. F. Beckingham, «Francisco Alvarez and his book on Ethiopia» in, Between Islam and Christendom, texto XII, London, Variorum Reprints, 1983, pp. 1/11
300 Álvares, op cit., p. 310 301 Cf. Ibd.,pp. 315/316
oficial que os guiava e suscitando a animosidade da embaixada, que acalmou falando um pouco em italiano302.
No decorrer da narração, o nosso autor afirma que «Êste frade andava na
Itália e sabia algum tanto de latim.»303.Assim quando o Preste interroga D. Rodrigo e
Francisco Álvares «(...) se nos parecia Zagazabo ser suficiente para êste caminho, porquanto sabia falar a nossa língua e fôra já a nossas terras. Nós lhe respondemos que (...) era bem suficiente (...) porque era homem que se entendia bem connosco e
nós com êle e que não havia mister de turgimão(...)»304.Alcançam novamente Baruá,
mas nesse ano não há sinais da armada. O soberano abexim envia-os então para a localidade de Aquaxumo, onde são aprovisionados e onde permanecerão cerca de oito meses. Álvares acompanhará ainda o embaixador abexim à corte em demandas sobre terras (final de 1524), onde saberá da morte da velha imperatriz Helena, apressando-se o Preste a arrecadar os direitos da terra que aquela senhoreava e a afastar certos dignitários próximos da imperatriz. Ali encontram igualmente a rainha moura de Adea em busca de auxílio contra a invasão do reino por um parente.
O Preste partirá com sua corte em seu auxílio, sendo acompanhado de vários
frangues: o nosso conhecido Jorge de Abreu, Diogo (ou João, antigo auxiliar do feitor?) Fernandes, Afonso Mendes (membro da embaixada) e Alvarenga (?), além de cinco ou seis genoveses305. Mas antes resolveu o caso de Zagazabo, ainda lhe concedendo outro senhorio.
Zagazabo, acompanhado de Álvares segue para a sua nova possessão, que era a caminho do local de pousada dos portugueses (Aksum ou Debaroa?), onde chegaram dez dias antes do Entrudo de 1525, segundo a datação portuguesa. Zagazabo toma posse da terra, sendo também investido da dignidade de Licacanate ou superior de um mosteiro, que ali existia.306 A meio da Quaresma alcançam a morada da embaixada, da qual se vai apossando a melancolia: «(...) indo como os olhos longos que naquela Páscoa viriam os portugueses por nós. E passando a Páscoa
que é a monção não vindo ninguém, ficámos tristes como dantes (...)»307.Os
302 De facto o desconhecimento entre europeus e abexins não era total. Como vimos no capítulo anterior, os frades etíopes peregrinavam à Terra Santa e a Roma entre outros locais; por seu lado havia contactos com os europeus via Mediterrâneo/Norte de África (e daí a presença de genoveses, venezianos e catalães) e na zona do mar Vermelho e Índico, com a presença portuguesa nessas paragens.
303 Álvares, op cit., pp. 109/110 e p. 204 304 Ibd.,p.326
305 Ibd., p.340
306Sobre o embaixador etíope cf. Isabel Boavida, «Damião de Gois e “a frase caldaica e etiópica”» in , Damião de
Góis na Europa do Renascimento, Braga Faculdade de Filosofia da Universidade Católica, 2003, pp.731/742
portugueses recebem ordem de se afastar da costa e dirigir-se ao reino de Abugima onde ficavam as terras do embaixador abexim, para receberem mantimentos. Os
portugueses seguiram contrafeitos como relata o P.e Francisco Álvares308.
Instalados em Baruá na Páscoa de 1526, sofrem um momento de pânico face a um boato da derrota portuguesa na Índia:
«(...) Vinham como mortos e começaram a dizer:- Não há aí portugueses que venham por nós, nem os há na Índia que todos são desbaratados e a Índia perdida e diziam que esta nova sabiam pelos mouros de três naus que chegaram à ilha de Maçuá com muitos tangeres e festas (...). e me fui só por uma ribeira acima até uma grande rocha, chorando todo o caminho e com chôro e suspiros me deitei naquela sombra espaço mais de uma hora e deixando o chôro tornei em mim e comigo falando disse:- Ora isto de Deus vem e se há-de por servido de mim nesta terra, o Senhor seja louvado (...)»309
A pequena comitiva portuguesa é confrontada com a possibilidade de ficar retida em terras etíopes, de onde seria muito difícil partir visto estar rodeada de estados muçulmanos. Francisco Álvares, com base nos conhecimentos e experiência que tem da terra, reanima-se e esboça um plano de contingência, o que revela uma espantosa força de ânimo:
«(...) Porque ando a caçar e sei as montanhas e as águas delas e a terra que é boa para aproveitar e que dará tudo o que lhe plantarem e semearem, e tenho bons escravos e catorze vacas e tenho carneiros que trocarei por ovelhas; ir-me-ei junto dalguma água e mandarei fazer grande e forte tapume de mato por guarda das feras alimárias e armarei minha tenda (...) e logo ordenarei uma ermida dentro e cada dia direi missa e me encomendarei a Deus (...). Mandarei roçar matos em que faça hortas e semearei pão de toda a sorte e por minhas novidades e caças manterei a mim e aos meus moços e criados.»310
308 «(...) fomos com intenção de não estar lá mais de até acabar de receber e logo fazer volta e assim o fizemos que em meio do Janeiro [ 1525 ] que vinha nos partimos daquela terra caminho donde siamos estar perto do mar e sem licença , nem esperámos pelo Embaixador [Zagazabo] nem lho fizemos a saber por nos não embaraçar senão nós a nosso cabo.»,Ibd., p. 366
309 Ibd., p. 367
310«(...)- Isso é cousa que vem por Deus e nós iremos todos convosco e levaremos nossas mulheres e
filhos e escravos; temos mui boas mulas e sabemos mui bem o mar e as feiras da terra e deles ficarão connosco, outros iremos tratar, enriqueceremos e faremos um lugar nosso em que criemos gados e faremos grandes semeadas.»Ibd., p. 368
Quanto aos seus companheiros, portugueses e de outras nações, todos
aprovam o seu plano311, excepto D. Rodrigo (que preferia retornar à corte do Preste).
Mas heis que chega finalmente uma nova armada chefiada por Heitor da Silveira, A embaixada parte de Baruá, provavelmente incluindo os tais referidos escravos e mulheres que alguns teriam tomado nesta sua estadia e seus filhos e ainda alguns europeus (segundo Gaspar Correia um grupo de frangues teria partido com a embaixada portuguesa em 1521, mas entretanto muitos se haviam dispersado, permanecendo apenas à data da partida, segundo o mesmo autor, um castelhano e dois biscaínhos312). Também decerto a eles se juntariam o grupo dissidente, mas sobre este não nos dá o autor mais notícia. Partem desse local a 9 de Abril de 1526 com o Barnagais e sua gente a acompanhá-los; depois de uma semana de viagem, aposentam-se em Arquico. Finalmente na terça-feira chegam junto à armada; quinta –feira chega Zagazabo, que viajara dia e noite para chegar a tempo de acompanhar a embaixada portuguesa no seu regresso, e esperam a monção (fins de Abril, princípios de Maio) para partir.
Contudo a 21 de Abril chegam emissários da corte, instando-os a
regressarem. Mas a embaixada ignorando a nova decisão do Preste 313 (assim como
o emissário etíope, que receia ser deitado aos leões se se apresentar ao Imperador sem os portugueses) e zarpa a 26 de Abril.
A viagem de regresso à Índia e depois ao reino é descrita por Álvares, numa segunda parte da sua obra, ilustrando as rotas e caminhos entre as praças portuguesas da Índia, e exemplificando os sucessos e dificuldades de uma viagem marítima do Oriente para Lisboa, pela Rota do Cabo.
Uma vez abandonada a costa etíope no mar Vermelho e antes de aportar em Ormuz (onde serão acolhidos pelo novo governador Lopo Vaz de Sampaio e
recompensados314) fazem escala na ilha de Camarão, onde Álvares recolhe, em
segredo, as ossadas do embaixador Duarte Galvão, que devolverá posteriormente a seu filho António Galvão em Cochim (sendo depois igualmente em segredo,
311 Ibd., p.369
312 Gaspar Correia, op. cit., Cap.III, Vol.III, p.49
313 «Respondeu Heitor da Silveira e nós com êle (...) que em nenhuma maneira podíamos tornar, nem êle esperara, nem a monção dava lugar e que desta feita não fôssemos que nunca naus por nós viriam e que seu Embaixador podia tornar se quisesse. (...) [Este] respondeu que em nenhuma maneira regressaria sem nós porque o mandaria deitar aos leões e assim ficámos todos com muito prazer. E os calacens descontentes por ser em balde seu trabalho.», in ibd., p. 373
314 «O Governador Lopo Vaz de Sampaio fêz mercê a D. Rodrigo de Lima (...) de duzentos pardaus e ao Embaixador do Preste doutros duzentos e a mim fêz mercê de cem pardaus.» Estas mercês talvez contribuam para explicar as acrimónias com Jorge de Abreu, Ibd., pp. 380-381
transportadas para o reino, pois os mareantes recusavam tal transporte considerado de mau augúrio). Na sua viagem armada sofre uma forte tormenta no golfo de Adem que a divide. Esta reunir-se á no porto de Mascate, conquanto apenas dez dias depois seja avistada a nau capitania, que transportava o capitão-mor e ambos os embaixadores, onde muito se havia sofrido de fome e principalmente de sede.
Invernam em Ormuz e dali partem com o Governador para Chaul, «(...) terra mui forte e viçosa (...)»315, onde reencontram o capitão Heitor da Silveira com as presas que tomou no mar Vermelho. Seguem depois para Goa, onde chegam a 25 de Novembro de 1526.Três dias depois dirigem-se para Cananor, onde permanecem seis dias e finalmente alcançam Cochim. Aí Francisco Álvares encontram-se com António Galvão, filho de Duarte Galvão. Este convida-o a partir para o reino na nau que comanda, a Santa Maria do Espinheiro. A armada em que segue (ambos os embaixadores irão na nau comandada por Tristão Vaz da Veiga) reúne-se ao largo de Cananor para carregarem (além da pimenta e cravo que já levam) gengibre e provisões para a viagem de volta ao reino: biscoito, pescado, vinho de palma, pólvora316.
Partindo a 18 de Janeiro de 1527 arrostam com todas as dificuldades da travessia marítima da rota do Cabo: encontros e desencontros com as restantes naus das armadas, os desvios da rota e a terrível falta de água ao falhar-se a aguada de Stª Helena, resolvida por trovoadas e fortes aguaceiros; a recolha de náufragos; o receio dos corsários franceses317, cujos ataques e roubos no mar dos Açores parecem ter sido um problema comum e receado especialmente nas décadas de 20 e 30 do século XVI318.
Por fim entram na barra do Tejo dia 24 de Julho de 1527, assinalado pelo P. Francisco Álvares com uma frase expressiva:«Neste dia entrámos e surgimos defronte da cidade de Lisboa que nos deu assás prazer.»319 Depois da chegada ao reino inicia uma breve descrição do caminho, também não isento de dificuldades, de Lisboa (isolada pela peste) a Coimbra, onde se encontra a corte de D. João III.
315 Ibid., p.388
316 Cf.,Ibd.,p.391
317 Como refere Ana Isabel Buescu entre os problemas que D. João III herdava dos últimos anos de governação do pai um deles era «(...) o dos primeiros tentames da França de Francisco I na aventura oceânica, e o corso e a pirataria sobre navios portugueses, realidade sensível [e receada como atesta Álvares] já nos finais do reinado de D. Manuel e que haveria de tornar-se um dos problemas mais persistentes e de difícil resolução no reinado de D. João III (...)», D.
João III, Lisboa , Círculo de Leitores, 2005, p.224
318 Vide, Ibd., pp.231/234 319 Álvares, op cit., p.395
Alcançando Sernache, ali, ficam de quarentena por receios de peste. Um mês depois são entusiasticamente visitados por Diogo Lopes de Sequeira, «(...) Almotacé-mor de Sua Alteza e que à terra do Preste João nos levara sendo Capitão- mor e esta embaixada havia por coisa sua e de sua mão feita e veio abraçar o
Embaixador e do Preste João e a nós todos cada um per si (...)»320Com ele partem
para Coimbra onde são recebidos nos paços reais. Avistam-se com o rei duas vezes, entregando-lhe as cartas e o presentes do Preste. Nessa ocasião Francisco Álvares apresenta as cartas e a pequena cruz de ouro que o Preste enviava ao Papa, «(...) dizendo a Sua Alteza como o Preste mandara que fôssem entregues (...) a Sua Alteza, de mão de Sua Alteza fôssem dadas a mim Francisco Álvares que as levasse a Sua Santidade(...)»321.
Porém, também a missão de Álvares a Roma não será destituída de dificuldades. Como vimos já no capítulo inicial, o novo monarca, D. João III representa uma inflexão no projecto imperial de seu pai. Como refere Ana Isabel Buescu, «(...) a construção do império português, nas suas várias frentes, foi, ao longo dos tempos, tudo menos um processo homogéneo de meios projectos e
vontades.»322Assim o ideal imperial de D. Manuel,defendido pelo seu conselheiro, o
malogrado embaixador português à Etiópia, Duarte Galvão, é abandonado em prol de uma visão mais pragmática..
Pouco depois a corte parte para Lisboa via Almeirim, localidade na qual o padre lembra ao rei a necessidade do desempenho da missão de que fora incumbido pelo Preste. Porém, o rei desaconselha-o devido às rivalidades entre a França e Carlos V, e o saque de Roma pelas tropas imperiais (1527). O diálogo repete-se estando já a corte em Lisboa. Na verdade os pedidos e as recusas parecem ter-se estendido de 1527 a 1529 e nesse último ano, assinada a paz de Cambrai entre a França e o Império, Álvares é impedido de partir com o embaixador em Roma, Brás Neto, com o pretexto que este se iria avistar com o Imperador e não com o Papa.
O rei acaba por decidir que o Francisco Álvares partirá apenas com o novo embaixador português na Santa Sé. D. Martinho de Portugal. O interesse pela aliança
abexim parece ter esfriado323, com a confirmação do carácter herético do
320 Ibd.,p. 399
321 Ibd., p.401
322Ana Isabel Buescu, op cit., p.226 323 Vide, Cap. I, p.21
cristianismo etíope. Entretanto o rei poderá ter nomeado Francisco Álvares, capelão régio e concede-lhe um benefício no arcebispado de Braga.
Assim para sua confirmação, a 30 de Julho de 1529, encontra-se Álvares naquela cidade durante alguns dias, durante os quais se avista com o arcebispo, D.Diogo de Sousa, e «(...) sendo eu com sua senhoria jamais cessava de me preguntar por cousas do Preste João. Eu lhe respondia na verdade como o eu mui
bem sabia e Sua Senhoria tudo mandava escrever(...)»324.Com a transcrição deste
relatório termina o relato de Álvares.
Segundo a análise que Jean Aubin faz deste relatório, apenas uma reduzida parte das questões postas pelo Arcebispo de Braga dizem respeito ao culto e costumes religiosos e nenhuma sobre dogmas teológicos, o que lhe permite afirmar: «L’archevêque sait. Le pays du Prêtre n’est pas celui d’une puissance alliée dont
rêvait D. Manuel, c’est une terre de mission.»325 Reafirmando esta posição o mesmo
autor refere as duas versões conhecidas das instruções régias a D. Martinho para sua missão. Numa das versões é patente a necessidade de correcção da religiosidade