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Equa¸ c˜ oes n˜ ao Lineares

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Seguindo o relato que Pais nos deixou incluido na sua obra, podemos acompanhar a sua primeira tentativa de entrada em terras etíopes, que ilustra as dificuldades a que estavam sujeitos os padres da Companhia na prossecução das suas

missões nessa região. Os dois missionários seguem para Diu363. É curioso

acompanharmos os estratagemas utilizados pelos missionários para não serem detectados por possíveis delatores às autoridades uma vez em território turco. O disfarce será uma constante nas viagens dos Padres da Companhia neste percurso.

Assim apenas entram na cidade «(...)cõ toucas, e cabayas como

Armenios(...)»364, são conduzidos pelo elemento de ligação, o Luís Mendonça, para

uma casa onde permanecem secretamente um mês à espera de transporte. Nesse intervalo, Pais procura uma nau que os conduza . Mas este plano era difícil de cumprir. Luís Mendonça não encontra um capitão local que se atreva a transportar os dois cristãos.

Procurando alternativas, os dois padres acabam por aceitar o percurso proposto por um mercador arménio de Alepo: iriam até à Síria, daí à Babilónia, de onde seguiriam para o Cairo e deste para a Etiópia. Era um longo trajecto por terra, mas na altura parecia ser o único possível. Partiram, então, de Diu, numa nau que rumava a Ormuz a 5 de Abril de 1588. Após 49 dias devido à falta de água o navio entra na fortaleza portuguesa de Mascate. Aí o trajecto é novamente discutido com o capitão da cidade, Melchior Calaça, que avisa os dois padres do perigo de tal jornada e lhes propõe transporte com um piloto mouro seu conhecido até ao estreito de Meca e daí à costa abexim, ao porto de Zeila.

Entretanto os Padres chegam a Ormuz, onde deveriam aguardar. E ali ficam por três meses resguardados num mosteiro de Agostinhos. Durante esse tempo, retiram os disfarces, ocupando-se da direcção espiritual dos portugueses, que necessitavam de especial encaminhamento naquela cidade« (...)por estarem

misturados, com Iudeos, Persios e harabios, q sam m.tº deliciosos.»365

As peripécias da sua viagem ilustram o domínio turco do mar Vermelho e a sua forte restrição à entrada de cristãos. Partem de Mascate no final do ano de 1588, com destino a Zeila. Uma tempestade quebra o leme do navio, que fica à deriva,

363«(...) por não achar Navio nos metemos em hua Manchica embarcação m.tº pequena q hia pera Dio

carregada de arroz; pello q dando nos hua tormenta no golfo, q durou toda a noute estivemos tão perdidos q o Capitão della cobrio a cabeça cõ sua cappa, e se meteo entre os bancos dizendo, q não queria estar olhando sua morte(...)»Pais, Vol. II, ,p.372

364 Ibd., 365 Ibd., p. 376

sendo os passageiros transportados por pequenos barcos de pescadores para a costa desértica do sul da Arábia. Resolvem procurar solução alcançando as ilhas de Guria Mura ao largo da costa da Arábia. Tendo ali o navio recebido um reparação improvisada, fazem-se ao largo para evitar a cidade muçulmana de Dhofar. Mas os ventos contrários impedem-nos de ultrapassar este ponto encaminhando-os para a indesejada costa, sendo interceptados por embarcações muçulmanas.Os missionários haviam sido denunciados e em Dhofar são acusados de espionagem e da intenção de levantar o monarca etíope contra os turcos, sendo seguidamente

aprisionados366.Assim se inicia o seu cativeiro, gorando-se outra tentativa de

alcançar a Etiópia por parte de missionários jesuítas367.

As atribulações dos dois padres continuarão, como nos relata Pais: saindo de Dhofar seguem por mar, durante cinco dias, após os quais se internam em caravana no deserto de Hadramaut, (ou Recinto da Morte em árabe368) no actual Yemén,

onde empreendem uma difícil jornada narrada impressivamente por Pais369. Seriam

os primeiros europeus a internarem-se naquelas desoladas regiões e Pais o primeiro a referir-se a elas por escrito.

Prosseguindo a viagem e recebidos na cidade de Qatna por um irmão do Sultão local, foram os primeiros europeus a provarem cahúa, ou a bebida da fervura do bun, fruto do arbusto do café370. Depois de uma noite de caminho chegam à cidade de Heinam, onde são aprisionados numa torre da fortaleza de adobe do sultão Humar durante quatro meses. O sultão inclinar–se-ia a possibilitar o seu resgate, não fora o receio das autoridades turcas. De facto todas estas regiões estavam sujeitas ao Paxá turco do Yémen, cuja capital se localiza em Sana, e que sabendo da existência dos cativos cristãos, exige ali a sua presença. Pais e o seu companheiro iniciam uma nova jornada através do deserto da zona sul do Rub-al- Khali ou «Casa Vazia»371. Eram, de novo os primeiros europeus a percorre-lo. No

366 «(...) mandou q nos metessem mais dentro em hua Camara onde nos fecharão e estivemos toda a noute nsem poder dormir pellas m.tas pulgas, e persevejos q nella avia. O outro dia nos passarão a huas casas de taipa m.to fraca q elles tinhão por fortaleza, onde estivemos alguns dias padeçendo grande fome(...).Estando aly nos foi visitar o mouro q trazíamos de Mascate, e nos disse q o Capitão da Cidade se resolvera em nos não matar, senão mandar nos onde estava seu pay, pera q elle nos desse a morte, q milhor lhe parecesse.»,Ibd.,pp.380/381

367 Para as várias tentativas de entrada de missionários na Etiópia, Vide, cap. I, do presente trabalho, pp.40/43 368 Javier Reverte, op. cit.,p.87

369«Andamos por aelle deserto dez dias sem achar gente, nem caminho, porq o vento o çegua cõ a area, e

assi de dia guiavão pello sol, e de noute pello Norte; e no ult.º dia a tarde chegamos a hua Cidade grande q chamão Tarîm.», Pais, op.cit.,p.382. Apenas no século XIX os exploradores europeus se aventurariam nelas; o alemão A .Werde em 1843 e o britânico Hirsch em 1893. Vide, Javier Reverte, op.cit.,pp.89/90

370«[Câhua] (…) he agoa cozida cô a casca de hua fruta q chamão Bûn q bebem m.to quente em lugar de vinho.» , Pais, op cit,Vol. II, p.383

percurso são igualmente os primeiros ocidentais a visitar as ruínas e as inscrições

desconhecidas de Melkis372.

Chegados a Sana são novamente encarcerados.Naquela prisão encontram outros cativos portugueses e cristãos locais, aprisionados ao largo de Melinde.

Com o passar do tempo as condições dos cativos melhoram um pouco: são- lhes retirados os grilhões e vão trabalhar para as hortas nos arredores da cidade; o alcaide da fortaleza atribuí-lhes uma nova sala com uma câmara onde fazem um pequeno oratório, no qual celebram as suas práticas religiosas. Ao que parece a boa disposição dos funcionários turcos para com eles provinha de muitos serem de origem cristã, originários dos Balcãs (Pais refere-se-lhes como Albaneses). capturados em criança nas razias turcas e educados para serem fiéis elementos do império otomano373.

A situação dos dois missionários mantém-se por dois anos, durante os quais Pais, com a sua propensão para poliglota, aprende árabe e hebreu com outros prisioneiros. Entretanto, como era prática corrente, em troca da sua libertação é proposto um resgate. Apesar de terem contado com a intercessão da mulher do Paxá e da protecção de um turco natural Argel, homem letrado e considerado, e de um Paxá originário de Sevilha, os dois padres não obtém a liberdade, face ao problema da negociação do resgate. Entretanto os restantes cativos vão sendo resgatados pela Misericórdia de Chaúl, e os Padres optam por realizar o seu apostolado ali mesmo, na prisão de Sana, acompanhando os cativos cristãos, como escrevem ao Provincial da Índia374.

No entanto, levantando-se novamente a questão do resgate, cujo valor a pagar pelos Padres seria maior do que pelos outros cativos, e face à recusa destes em assegurarem que esse valor seria liquidado, o Paxá, envia os dois missionários para a cidade de Moca, onde aportavam naus da Índia, para uma mais fácil negociação do seu resgate, empreendendo uma terceira e novamente acidentada viagem pelo deserto, especialmente para o já debilitado P.e Monserrate, como nos relata o P.e Pais375.

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