A. Les modifications épigénétiques
2. La méthylation de l’ADN
2.4. La méthylation de novo
Existe uma separação nítida entre a formação universitária e as práticas relacionadas ao exercício da profissão de médicos-veterinários quando exercendo seus trabalhos na vigilância sanitária. As escolas de medicina veterinária estão direcionadas para formar clínicos, cirurgiões, administradores, nutricionistas. Além disso, a maioria dos egressos nestes cursos quer exercer a clínica, isto é, parece existir uma afinidade dos alunos com o tratamento de doenças e atos cirúrgicos.
Dos médicos-veterinários entrevistados nenhum comentou que tinha como intenção inicial trabalhar com saúde pública, como é demonstrado pelo sargento Cruz pela trajetória profissional e dificuldades que teve de enfrentar para assumir o cargo assim que foi aprovado em concurso público:
Eu nunca acreditei que ser funcionário público fosse uma boa profissão para mim. Mas eu tinha uma sócia na clínica que buscava segurança no funcionalismo público, e eu fui na carona dela. Fiz concurso na Secretaria da Agricultura, na Emater e na Secretaria da Saúde, que fiquei em primeiro lugar na segunda vaga... E há uns sete anos eu fui chamado, sete anos depois do concurso. Chamaram em 2001, e também entrei numa crise muito grande entre aceitar e não aceitar. Com toda a estrutura que eu tinha aqui, com clínica bem estruturada, tu deixar tudo isto aqui para ser funcionário público, para ganhar um salário que não é condizente com tua condição de médico veterinário, eu não sei... Se olhar o piso salarial dos médicos veterinários é uma vergonha. Mas comecei a me questionar, por que um médico que ganha vinte, trinta mil por mês e trabalha na saúde pública? Eu fui falar com ele e descobri... É uma segurança para quando eu me aposentar. (Sargento Cruz, Médico-Veterinário do serviço público)
A declaração transcrita demonstra que o entrevistado não tinha a intenção de trabalhar com epidemiologia, pois sua formação e seu interesse pessoal eram pela clínica. Entretanto, em razão da segurança financeira que o emprego público garante em caso de aposentadoria, ele escolheu esse caminho.
Os profissionais que realizam o diagnóstico laboratorial da tuberculose e que são da iniciativa privada demonstram em suas considerações que realizar vigilância sanitária é
apenas mais uma fonte de renda; em outros termos, é uma atividade secundária, pois praticam clínica e administração de propriedades leiteiras, além de serem proprietários de lojas agropecuárias. O profissional entrevistado declarou: “Trabalho com manejo de gado leiteiro e
alguma coisa de clínica. Também trabalho aqui na agropecuária e nas propriedades. No início tentei trabalhar com pequenos animais, mas não tem como conciliar, é quase impossível conciliar grandes com pequenos” (Márcio, médico-veterinário da iniciativa
privada). Citou ainda a necessidade de cursos de especialização.
A formação universitária foi considerada limitada pelos profissionais entrevistados. Por exemplo, Márcio, ao ser questionado sobre se a formação recebida fora suficiente, afirmou que a medicina veterinária é uma área extensa, logo é impossível trabalhar em toda a sua abrangência.
Quanto às zoonoses, os profissionais apontaram deficiências da universidade, porém confirmaram que as instituições de ensino cumpriram com seu currículo, contudo, em virtude da amplidão do tema, o curso fica a desejar. O sargento Cruz, relatou a respeito:
Eu coloco a questão das zoonoses, porque na universidade a gente não aprendeu nada das zoonoses em relação ao homem, como que a doença faz no homem. Hoje eu cuido o que a doença faz no indivíduo, mas na faculdade, quando víamos zoonoses, diziam a vaca transmite a leptospirose, na vaca o sintoma é tal. E no homem nem se comentava ou se comentava vagamente, tu não tinha a pretensão de saber o sintoma no homem, não era a nossa parte. Se via a doença no animal e que se podia transmitir ao homem, e hoje eu tenho que cuidar dessa parte, tenho que capacitar médicos... Sim, capacito médicos, enfermeiros, para eles estarem ligados nesse tipo de zoonoses. ( Sargento Cruz, médico-veterinário da iniciativa pública)
Fica explícito na declaração do entrevistado a forma como o ensino de medicina veterinária é realizado em algumas universidades brasileiras, onde mesmo havendo conteúdo programático, não se dá enfoque à saúde humana, ou seja, o ensino não leva em consideração que a doença pode acarretar aos homens; tampouco considera que os alunos, no caso médicos- veterinários, podem vir a desempenhar funções trabalhando com populações humanas. Notamos também que o profissional, quando estudante, não demonstra interesse, em trabalhar com pessoas. Fica, portanto, clara a necessidade de se abordarem as zoonoses com ênfase na ecologia humana, levando em consideração seus níveis de complexidade. Mais adiante o mesmo entrevistado acrescentou:
Em relação a médicos e zoonoses acontece a mesma coisa com nós, não abrimos a cabeça. Eu acompanho um caso de raiva em São Valério do Sul, e depois da 18º morte começou a se suspeitar de raiva. Imagina o veterinário, claro uma gurizada nova, pouca pratica de campo, nunca viram na faculdade um caso de raiva, encontra um bicho, uma vaca de leite, com sintomas de raiva. Ele já tratou de tudo que podia tratar, já meteu a mão dentro da boca, até no rabo, sem proteção, sem vacina pré- exposição, sem nada. Acontece o mesmo com os médicos que não estão muito ligados e que estão acostumados a trabalhar em uma região e tratar isto, isso e isto e não abrem o leque (sinais em círculos com as mãos). (Sargento Cruz, médico veterinário do serviço público).
Nesse depoimento evidencia-se a necessidade de serem abordadas as zoonoses de forma abrangente, tanto pelos médicos humanos como pelos de animais, e levando em consideração os hábitos e os costumes das populações. O profissional entrevistado demonstra que, além da forma tradicional de se avaliar um caso clínico, é necessário levar em consideração as características regionais do espaço em que o animal vive, ou seja, a doença deixa de ser universal para apresentar particularidades, as quais devem ser consideradas para que o profissional obtenha êxito. Ele revela que teve uma formação clínico-cirúrgica, característica da biomedicina, entretanto acrescenta em haver uma necessidade de serem analisadas essas doenças de uma forma mais abrangente.
Além disso, a citação nos remete à análise das condições de trabalho dos profissionais da vigilância sanitária responsáveis pelo controle de zoonoses. Mesmo tendo formação continuada, esses técnicos se colocam em situação de risco. Na sociedade atual sempre estamos sujeitos a acidentes ou perigos, no caso relatado acima, o risco é de contaminação pela raiva. Nesse aspecto, é importante questionar sobre o papel do setor de vigilância da saúde do trabalhador (mencionado no capítulo III). Até que ponto as medidas de segurança protegem aos trabalhadores em contato com doenças contagiosas? Como a probabilidade de contaminação é real, a idéia de “risco zero” deve ser questionada, como sugere Beck (1997).
A falta de entendimento sobre o ciclo das doenças zoonóticas desde o período universitário tende a repercutir no trabalho de campo dos profissionais. Disso decorre a necessidade de uma capacitação constante, como mencionado por muitos entrevistados. Abordagens que não levam em conta o ciclo completo das doenças prejudicam o diagnóstico e o controle das doenças emergentes, já que as patologias são tratadas apenas quando manifestam seus sinais e sintomas clínicos. Assim, a doença na forma subclínica geralmente não é considerada pelos órgãos oficiais. Reportamo-nos aqui à forma de compreender e agir em surtos e prevenção de acordo com Ávila-Pires (2005), que menciona fatores como tamanho da população, relações humanas com vetores, reservatórios rurais e urbanos, além de
movimentações das populações a serem analisadas para controlar algumas situações das doenças.