O turismo é visto por muitos políticos e empresários como a “salvação de Floria nópolis”, pois a capital catarinense é tida como naturalmente turística. Segundo Helton Ouri- ques, esta idéia perpassa grande parte da população, mesmo naqueles que não têm benefício algum com tal atividade.84 Entretanto este pesquisador mostra que o turismo, componente da chamada “indústria pós-modema”85, precisa ser analisado no contexto do desenvolvimento capitalista, que se caracteriza, basicamente, pela concentração e acumulação do capital. Sem dúvida, o turismo gera algumas oportunidades de emprego, e “desempregados encontram, nos momentos de pico turístico, saídas momentâneas para esta situação”86, por outro lado, o “de semprego, a partir dos crescentes progressos técnicos (ou mudanças contínuas no composição orgânica do capital), vem-se mostrando inerente a essa forma de sociedade, que se propõe i- mutável” .87 Florianópolis não foge ao modelo sócio-econòmico capitalista, portanto, não é essa ou qualquer outra atividade económica que trará a solução para os problemas cruciais de nossa sociedade, como por exemplo, a falta de emprego, enquanto for mantido este modelo sócio-econômico.
Mesmo considerando os aspectos levantados acima, a cidade, no caso Florianópo lis, aparece como o lugar onde a utopia da vida melhor poderá ser realizada. O sonho de supe rar as dificuldades toma forma e tem endereço. Nos contatos por carta ou mesmo em visitas a Serra, dos que já estavam na cidade, todas as notícias davam conta de que, na cidade, as con dições de sobrevivência eram muito melhores.
Por utopia entendemos, projetos de transformação da realidade atual em que se vi ve. Segundo Jerzi Szacki, entre as muitas significações de utopia, pode-se dizer que ela é a
w OURIQUES, Helton Ricardo. Turismo em F lorianópolis: uma critica à industria pós-m odem a. Florianópolis: Ed. da UFSC, 1998, p. 10-11.
85 Idem, p. 11. 86 Idem, p. 91. 87 Idem, p. 92.
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“incessante viagem da humanidade em direção ao país que não existe; a busca da ilha feliz, concebida nas maneiras as mais diversas e registradas em formas literárias as mais variadas.”88
Teixeira Coelho fala da imaginação utópica, que é “uma força de contradição” ca paz de “superar limites freqüentemente medíocres da realidade e penetrar no mundo do possí vel.”89 Continua Coelho dizendo que:
Essa imaginação utópica é o ponto de contato entre a vida e o sonho, sem o qual o sonho é uma droga narcotizante como outra qualquer e a vida, uma seqüência de banalidades insípidas. É ela que, até hoje pelo menos, sempre esteve presente nas sociedades humanas, apresen- tando-se como o elemento de impulso das invenções, das descobertas, mas, também, das revoluções. E ela que aponta para a pequena bre cha por onde o sucesso pode surgir, é ela que mantém em pé a crença
numa outra vida. 90
Toda discussão em tomo de utopia se refere à idéia de uma vida melhor, diferente da que se está vivenciando no momento atual. Para os caboclos serranos, a cidade configurou- se, ao longo dos anos, como a possibilidade concreta de realização do sonho de ter emprego, moradia própria, saúde, educação, entre outras necessidades básicas.
Em todos os relatos, a cerca das motivações para a vinda para Florianópolis encon tramos elementos que demonstram a busca de se tomar real o que imaginavam ser uma vida com mais liberdade e autonomia. Por vezes, a sobrevivência na Serra era garantida, mas sem pre às custas da submissão e da dependência das elites locais.
No relato de Irani, no qual fala sobre o que o levou a deixar o Planalto, ele acentua a importância dos parentes que já estavam morando em Florianópolis. Além das notícias que recebia dos conhecidos, teve um primeiro contato direto com a Capital, quanto sua mãe preci sou de tratamento de saúde, só realizado em Florianópolis. Continuando a história, diz Irani:
88 SZACKI, Jerzi. .4s utopias ou a felicidade imaginada. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1972, p. 03 89 COELHO, Teixeira. O que é utopia. 3“ ed. São Paulo: Brasiliense, 1981. p. 08.
Daí os cunhados fizeram uma proposta pra mim, de vender um barzi- nho lá embaixo, pra mim acertar as conta lá e vim embora pra cá; daí eu achei que a proposta estava mais ou menos, fu i falar com o patrão se ele me aumentasse eu não vinha, porque naquele tempo o salário era 5 conto por mês, com todos os filhos e a mulhé trabalhando junto, pra nós não tinha domingo, não tinha feriado, não tinha chuva, não tinha neve, não tinha nada, porque era obrigado a trabalhar porque as vacas de leite, tudo sem terneiro, não podia ficá sem ordenhar, era duas vezes por dia, ai fu i falar como o patrão e ele disse que não po dia aumentar, porque a granja não tava boa [...] e quando ele disse
que não podia aumentar; fo i aonde eu pedi os 30 dias pra ele, então
eu disse: já não tem mais acerto, vou trabalhar mais 30 dias, isso fi-
• nal de 85, digo oh, tô avisando que no mês de janeiro tô indo embo
ra.91
A transição do campo para a cidade não aconteceu de forma tranqüila e fácil, mas, como toda vida dos migrantes caboclos, foi um processo carregado de sacrifícios e incertezas, bem como de esperanças e sonhos. Tanto os que vieram para ficar próximos de familiares pre sos na Penitenciária Estadual, quanto os que vieram depois, passaram por momentos difíceis, que só não os fizeram retroceder, porque tal atitude era quase impossível. Foi a força de von tade de vencer, a tradição em superar obstáculos e a solidariedade dos parentes e vizinhos, que garantiu a sobrevivência.