A. Méthode abstraite
1. Méthode du minimum vital
Como em todas as religiões, o catolicismo possui seu rito de iniciação, que é de nominado Batismo. Por ser o ato que acolhe o novo membro no grupo, ou, na linguagem cris tã, na comunidade, este ritual tem importância vital para a existência do grupo religioso. Por esta razão, é o evento pelo qual todos os fiéis têm de passar. Dos sete sacramentos da Igreja Católica95, é o Batismo que se destaca.
Nas práticas populares do catolicismo entre os caboclos serranos, o Batismo ad quire ainda mais importância. No entanto, não é o oficial, realizado na Igreja, ministrado pelo padre ou outro agente qualificado oficialmente. A marca registrada é o Batismo feito em casa,
■3 MACHADO, op. cit., p. 17.
04 Esta característica do não isolamento verificamos, por exemplo, no capitulo anterior ao comentarmos a prática comum dos homens em sair do lugar em busca de trabalho.
0? Os sete sacramentos da Igreja Católica Apostólica Romana são: Batismo. Eucaristia. Crisma, Reconciliação. Matrimônio. Ordem e (Jnção dos Enfermos.
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nos primeiros dias de vida da criança. Como diz Maria Cecília, “primeiro batiza em casa, prá depois batiza na Igreja.”96 Outro serrano confirma: “Ah, o batizado tinha que ser em casa, pri meiro. Depois, que os padre começo querê dá contra, mas tinha gente que teimava em batizá [...] Sempre fazia o batizado em casa, mesmo que o padre não gosta, Deus deixô, prá fazê em
Sobre as razões da existência do Batismo em casa, Alberto diz:
Eu acredito que devia ser por medo daquela criança morrer pagão
/.../ porque levava muito tempo pro padre batiza a criança. Às vezes ficava homem, moça e não tinha chance de batiza. Eu já assisti casa
mento e batizado tudo junto, porque o padre quase não vinha.98
Confirmando esta explicação, Cezário diz que “a igreja era muito longe, ficava cri ança sem batizá.”99 E, para explicar a necessidade de se realizar o Batismo em casa, logo nos primeiros dias de vida, ele segue a mesma lógica, de que a criança poderia ter problemas sem a bênção do Batismo, pois, lhe faltava a proteção de Deus. Falando sobre esta necessidade de batizar logo a criança recém-nascida, Cezário e Maria lembram. Cezário. “Os antigo já diziam que, enquanto não batizasse a criança, não podia ficá escura a luz”. Maria: “É, e nós, era só lampião.” Cezário: “E eu não gostava de dormi no claro. Era dois ou três dia já não dava cer to. Ficá com a luz acesa uma semana não dá.” 100 Assim, tratavam logo de realizar o batizado.
Nesta mesma perspectiva, Maria Conceição afirma:
Batizavam em casa, pelo seguinte, porque lá era difícil ir na igreja. Primeiro a gente batizava em casa, prá depois batizava na igreja. A- queles tempo existiam muitas coisas. A mãe contava que existia bru xa, existia lobisomem. E claro que existe por que eu já vi. Batizava
em casa, quase o mesmo Batismo que nem na igreja, só que não era
com padre, as pessoas. 101
96 Alberto N ovaes dos Santos e Maria C ecília dos Santos, p. 03. 97 C ezáno França Moreira e Maria dos Prazeres Oliveira, p. 02 e 04. 98 Alberto N ovaes dos Santos e Maria C ecília dos Santos, p. 03. 99 Cezário França Moreira e Maria dos Prazeres Oliveira, p. 02 e 04. 100 Idem
Percebe-se, nestes depoimentos, a presença do sentido mágico atribuído ao Batis mo. Neste caso, o ritual tem muito pouco, ou quase nada, de rito de iniciação à uma comuni dade religiosa, e adquire o caráter de bênção, de invocação de Deus e sua força sobre a crian ça, garantindo-lhe sua proteção e a segurança de salvação espiritual.
O Batismo permaneceu forte e presente nas práticas religiosas populares, ao con trário dos demais sacramentos, porque, segundo Pereira de Queiroz, “se adaptou às necessida des locais, prescindindo do padre” 102. Ao contrário do que se poderia pensar, a realização do Batismo em casa, não representa uma prática fundamentalmente divergente com relação às exigências canônicas. É o que nos lembra Monteiro:
De falo, o Catecismo Romano admite, na administração do Batismo,
o que denomina “ministros de emergência ", e que são “todas as pes
soas, também os leigos entre o povo, homens e mulheres, qualquer que seja a sua Religião. /.../ Ora, ao se considerar o isolamento sob o qual, muito freqüentemente, vivem as comunidades nisticas, sendo ra refeitos os contatos com sacerdotes e, mais ainda, os riscos de vida a que usualmente estão sujeitos os recém-nascidos, dadas as condições que nelas prevalecem, compreende-se que as situações de urgência não sejam excepcionais, mas, ao contrário, comuns. A combinação de certas normas canônicas e de circunstâncias concretas aqui referidas, favoreceu o desenvolvimento da prática de um duplo Batismo, permi
tindo inclusive a multiplicação de padrinhos.103
O ritual do Batismo doméstico é descrito com algumas variações, mas basicamen te, continha orações, como o Pai-Nosso, a Salve-Rainha e o Creio em Deus Pai, e símbolos como o ramo verde (galho de arruda, preferencialmente), a vela e o principal, a água, que pre cisava ser apanhada em uma fonte corrente, e depois do Batismo devia ser devolvida na mesma água corrente.
Alberto, descrevendo este ritual, explica: “rezava o pai-nosso, salve-rainha e aque la aguinha, a vela na mão, um galhinho de arruda. Aquela água era devolvida na fonte de onde
102 QUEIROZ. M ana Isaura P., 1976, p. 90. 103 MONTEIRO. 1974. op. cit., p. 58.
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foi pega. Tinha que pegá água corrente.” 104 Maria Cecília completa: “Quem tinha guardada a água do pocinho de São João Maria usava ponhá um pouco junto com a água do Batismo.”105 Praticamente, a mesma descrição aparece em todos os depoimentos, como é o caso de Maria Conceição. “Usava água corrente, uma vela, e o gainho verde naquela água. Com aquela água eles diziam as palavras e batizavam. Rezava a Salve Rainha, o Creio em Deus padre, a mesma coisa como quando batiza com o padre” 106.
Componente essencial do Batismo são os padrinhos. Normalmente pessoas muito próximas da família, muitas vezes parentes. Nosso depoente, Cezário França Moreira diz que, todos os seus irmãos e vizinhos são também seus compadres e comadres: “lá no meu lugá, to do mundo era meu compadre. Tinha bastante. Levava sempre dois prá batizá, um prá apresen- tá. Repassou tudo, né” 107. Na maioria das vezes, os padrinhos do Batismo em casa não são os mesmos do Batismo na Igreja. Pereira de Queiroz destaca o papel importante dos padrinhos, pois não eram meros coadjuvantes, mas tinham também responsabilidade sobre a criança. Nes te sentido, diz ela que “tomou-se hábito batizar ele o afilhado o mais depressa possível a fim de que, se algo ameaçar a saúde deste, não parta pagão para a vida melhor” 108.
O compadrio, gerado a partir do Batismo, foi uma das bases de sustentação da so ciedade rústica. Como já vimos no primeiro capítulo, era normal os filhos dos peões e agrega dos terem como padrinhos os donos das fazendas, o que produzia laços sagrados de união en tre membros de diferentes segmentos sociais, e garantia certa estabilidade social.
No tempo dos redutos ou movimento do Contestado, o Batismo tomou-se o ato de inserção na irmandade, de adesão a um estilo de vida e a um grupo social. Segundo Gallo:
104 Alberto N ovaes dos Santos e Maria C ecília dos Santos, p. 03. 105 Idem.
106 Maria Conceição de Oliveira, p. 02.
107 Cezário França Moreira e Maria dos Prazeres Oliveira, p. 04 108 QUEIROZ. Maria Isaura Pereira de. 1976. p. 91.
A adesão voluntária ou obrigatória à causa da “Guerra Santa ” pas sava pelo ritual do batismo.[...] O sentido simbólico do batismo nos
aldeamentos dos rebeldes divergia do costumeiro, pois representava
uma garantia pessoal, e para o grupo, do status do iniciado, como "sócio '' na lei da Monarquia. [...] Participar da lei da Monarquia significa comungar, como pares, como irmãos, de idéias e bens. O ba tismo sedimentava essa aliança, e não fo i sem razão que esse ato as sumiu uma importância fabulosa entre os rebeldes, pois o simbolismo presente neste ritual já adquirira, para o catolicismo, um significado muito profundo, marcando um renascer do individuo, um vir à luz. [...] O batismo é, em suma, o estabelecimento de um compromisso e, para os irmãos, isso representava que “todos iam beber - até o fim - a
■ água que um só bebesse. ” 109
Passado o Contestado, há o processo de repressão a tudo que lembrasse os redutos e a busca de fortalecimento das instituições hegemônicas, dentre elas, a Igreja Católica. No entanto, o Batismo doméstico continuou sendo praticado, mas, daí por diante, se consolidou como algo próprio da família, dos parentes, vizinhos e conhecidos mais íntimos. E é este modelo que aparece nas memórias dos caboclos migrantes. Cezário diz que, para padrinhos “convidava os amigo, o compadre - uma pessoa que a gente considerava, que visse que era católico, ia lá, convidava, e fazia o batizado”." 0
Desta forma, os laços de compadrio voltam-se à co-responsabilidade pela criança e amizade entre os compadres e comadres. E isto que vemos no depoimento de Marinete:
Ser comadre é quando a gente é madrinha, eu sou madrinha de tantos que eu até já me esqueci o número de afilhado... Quando a gente é madrinha tem uma responsabilidade pela criança, e um respeito mui to grande pelos meus compadre, nem que a gente não se visita, mas
eu tenho respeito por eles, um carinho por eles. 111
Ao falar do Batismo, aparecem também referências ao Batismo na igreja, ou seja, aquele realizado oficialmente, por representante legal da instituição eclesial. No entanto, apa recem sem qualquer destaque, diante da grande importância dada às memórias dos Batismos
109 GALLO, op. cit., p. 154-155.
110 Cezário França Moreira e Maria dos Prazeres Oliveira, p. 02. 111 LISBOA. D ona M arinete, op. cit.. p. 23.
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em casa. Outra razão, é que o Batismo na igreja acontecia muito esporadicamente e, quando ocorriam, nas raras visitas dos padres, eram feitos muitos batizados ao mesmo tempo, junto com outras celebrações de sacramentos como confissões, primeira eucaristia ou casamentos. Desta forma, era mais uma, entre tantas “desobrigas” oficiadas pelo sacerdote, não havendo condições de ser celebrado com a mesma atenção que o eram nas casas.
Outro fator que afastava os caboclos do batismo oficial, era a necessidade do pa gamento de taxas, inviáveis para muitos, pois raramente dispunham de dinheiro. Tal prática gerava inclusive incerteza, pois, ao contrário, os atos religiosos rústicos eram sempre gratuitos. Esta situação foi destacada por Vinhas de Queiroz, ao escrever sobre o relacionamento dos caboclos da região serrana catarinense e a oficialidade da Igreja, representada no Frei Rogério e outros padres estrangeiros. Queiroz diz que “se o catolicismo popular e sincrético daquela área recebia, apesar de tudo, com uma certa desconfiança a palavra de Rogério Neuhaus e a dos raros padres estrangeiros, era porque eles cobravam pelos batismos, casamentos e mis sas”. " 2 Esta questão cobrança para a realização de rituais religiosos perpassa toda a vida da Igreja Católica, sempre alimentando muitas controvérsias.
Cabe lembrar ainda uma função importante exercida pelo Batismo oficial que era o registro no batistério, pois isto garantia, para muitos caboclos a única referência para a confec ção de documentos civis.