Chapitre 1 : Bibliographie
1.3. Leviers de contrôle des propriétés texturales des supports
1.3.2. Introduction d’alcools
1.3.2.2. Mécanismes proposés
O início da I Guerra Mundial coincidiu, como se analisou em ponto anterior, com um momento de expansão da actividade científica nacional, onde ainda se procurava implementar as resoluções da reforma universitária de 1911 e desenvolver os estabelecimentos científicos anexos às instituições de ensino superior.
Durante os dois primeiros anos do conflito foi ainda possível prosseguir, com relativa normalidade, a actividade dos laboratórios e institutos universitários, em virtude de lhes terem sido asseguradas as dotações anuais e da frequência estudantil permanecer estável, apesar do envio dos primeiros contingentes militares para a frente africana.
323 RICHMOND, Marsha L. 1997, “’A Lab of One's Own’: The Balfour Biological Laboratory for
Women at Cambridge University, 1884-1914”. Isis, Vol. 88, No. 3: 422-455.
324 Vd. CORREIA, Sónia. 2013.
325 SALAZAR, Abel. 1936, “O defunto Instituto de Histologia da Universidade do Porto”. Medicina.
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Não obstante, no âmbito das relações internacionais, o ano de 1914 ficou marcado pela crise da internacionalização científica326, em virtude da emergência de novos nacionalismos científicos, mormente no contexto alemão327. Em Outubro desse ano, 93 intelectuais e professores universitários alemães328 divulgaram um manifesto, intitulado “Apelo às Nações Civilizadas”, onde defenderam e procuraram justificar a opção militarista alemã e, consequentemente, a invasão militar da Bélgica:
“No es verdad que la lucha contra lo que se ha llamado nuestro militarismo no sea una lucha contra nuestra cultura, como pretenden hipócritamente nuestros enemigos. Sin el militarismo alemán, la cultura alemana habría desaparecido de la faz de la tierra hace mucho tiempo. Es para proteger esa cultura, que un país que durante siglos ha sufrido más invasiones que ningún otro, ha salido de sus fronteras. El ejército y el pueblo alemanes forman una unidad.”329
Este manifesto acabou por extremar posições e cindir a comunidade científica, entre apoiantes dos países Aliados e defensores das potências Centrais, originando a interrupção de relações científicas centenárias. Provocou, também, um sentimento de desconfiança para com a própria ciência alemã, então intimamente associada ao militarismo do estado alemão330. Em resposta ao posicionamento destes intelectuais, em Novembro de 1914, as universidades de Paris, Aix-Marseille, Alger, Besançon, Bordeaux, Caen, Clermont, Dijon, Grenoble, Lyon, Montpellier, Nancy, Poitiers, Rennes e Toulouse subscreveram um manifesto intitulado “Comme les armées alliées,
326 “Of course the scientist may be strongly inclined, especially in wartime, to manifest his patriotism by
applying his knowledge and skills toward the solution of urgent practical problems. […] Logically this need not be accompanied by any repudiation of the ideology of scientific internationalism, although with this reorientation of the scientist's goals that ideology loses much of its utility. In fact, however, the scientist's persona, his image of himself, usually makes him most reluctant to admit that he has chosen between his science and his nation. He will often prefer to equate the interests of his nation with those of science (and, perhaps, humanity), most easily and most often when his nation is both a leading scientific power and a leading military power.”, FORMAN, Paul. 1973: 155-156. HAMMERSTEIN, Notker. 2004, “Epilogue: Universities and War in the Twentieth Century”. RÜEGG, Walter (ed.), A History of The
University in Europe, Vol. III – Universities in the nineteenth and early twentieth centuries (1800-1945), Cambridge University Press: 642.
327 SOMSEN, Geert J. 2008, “A History of Universalism: Conceptions of the Internationality of Science
from the Enlightenment to the Cold War”. Minerva, No. 46: 364.
328 Entre os subscritores do Manifesto encontravam-se Adolf von Baeyer, Emil Fischer, Ernst Haeckel,
Walther Nernst, Max Planck e Paul Ehrlich. Poucos foram os intelectuais alemães que se manifestaram publicamente contra o Manifesto, destacando-se, não obstante, os nomes de Georg Nicolai, Albert Einstein e Wilhelm Förster. SÁNCHEZ RON, José Manuel. 2011: 572.
329 “Apelo às Nações Civilizadas” (1914), transcrito em SÁNCHEZ RON, José Manuel. 2011: 570. 330 Forman considera que o Manifesto dos 93 resultou da convicção de que a hegemonia científica era
essencial para a afirmação do poder político alemão, crença que presidira já à organização da Kaiser Wilhelm Gesellschaf. FORMAN, Paul. 1973: 161-162.
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elles défendent, pour leur part, la liberté du monde”, enviado a todos os estabelecimentos universitários dos países neutrais, no qual se podia ler:
“Déjà, vous pouvez consulter les documents publiés par les chancelleries, les résultats des enquêtes faites par des neutres, les témoignages trouvés dans les carnets allemands, les témoignages des ruines de Belgique et des ruines de France. / Ce sont nos preuves. / Contre elles, il ne suffit pas, ainsi que l'ont fait les représentants de la science et de l’art allemands, d'énoncer des dénégations, appuyées seulement d’une «parole d’honneur» impérative. / Il ne suffit pas davantage, comme font les Universités Allemandes, de dire: Vous connaissez notre enseignement; il n’a pu former une nation de barbares. / Nous savons qu’elle a été la valeur de cet enseignement. Mais, nous savons aussi que, rompant avec les traditions de l'Allemagne de Leibnitz, de Kant et de Goethe, la pensée allemande vient de se déclarer solidaire, tributaire et sujette du militarisme prussien et qu'emportée par lui, elle prétend à la domination universelle. / De cette prétention, les preuves abondent. Hier encore, un maître de l'Université de Leipzig écrivait: «C'est sur nos épaules que repose le sort futur de la culture en Europe». / Les Universités Françaises, elles, continuent de penser que la civilisation est l'œuvre non pas d'un peuple unique, mais de tous les peuples, que la richesse intellectuelle et morale de l'humanité est créée par la naturelle variété et l'indépendance nécessaire de tous les génies nationaux. / Comme les armées alliées, elles défendent, pour leur part, la liberté du monde.”331
Como não poderia deixar de ser, este assunto teve repercussões em Portugal. Num discurso proferido por Ricardo Jorge, e publicado n’A Medicina Contemporânea em 1915, este professor abordou a questão, criticando os subscritores do Manifesto dos 93 e acusando-os de “amesendar os seus laboratórios nas tendas de campanha, fazendo da alma dos canhões a alma da cultura”332:
“O Apelo às Nações Civilizadas […] reboou pelo mundo como um dobre fúnebre. […] Delito único na história do pensamento, seria a mais nefanda abominação no campo da dignidade mental, se não sintomatizasse um desvio
331 AH/MUHNAC-UL, fundo Faculdade de Ciências, série Organização dos Cursos, “Les universités
françaises aux universités des pays neutres”, 03-11-1914, pp. 1-3 (cota 1688).
332 JORGE, Ricardo. s.d., A Guerra e o pensamento médico, Edição da Sociedade das Ciências Médicas,
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funcional de psicologia colectiva. Revela, como nenhum outro sinal, a pandemia vesânica que pouco a pouco se apoderou da mentalidade dum povo, envolvendo- se em agravações sucessivas: primeiro, egotismo vaidoso; depois, megalomania, fanatismo racial, imperialismo místico, religião messiânica; enfim, agitação irritada, fúria agressiva. […] Gritam-nos todos que os acreditemos, sob o seu nome e a sua honra. […] Qual é o cientista que se atreve, mesmo nas matérias de sua autoridade, a invocar a sua palavra como elemento de convicção?”333
A conferência de Ricardo Jorge ecoou pela Alemanha, valendo-lhe uma controvérsia pública com Carl Mense, director do Archiv für Schiffs-und Tropenhygiene. Em protesto, Mense suspendeu a permuta da sua revista com a revista portuguesa A Medicina Contemporânea. Ricardo Jorge ainda responderia publicamente, reafirmando a sua admiração pela ciência e cultura alemãs, cujos altos ideais considerava terem sido desprestigiados pela posição dos seus “representantes”: “por muito as admirar, me doeu como a tantos, que o apelo signifique um atropelo contra a própria ciência”334.
Apesar destes incidentes isolados, a comunidade científica portuguesa continuou a assegurar, durante grande parte da conjuntura bélica, as suas relações científicas internacionais, mantendo-se bastante optimista relativamente às potencialidades dos fenómenos de internacionalização científica. “O internacionalismo tornou-se a característica dos tempos modernos”, afirmava Pedro José da Cunha em 1915,
“[…] contrapondo um contacto íntimo e permanente dos povos à reserva suspeitosa que dantes os conservava sistematicamente afastados. […] Todos os sucessivos progressos que a humanidade vai conquistando representam outros tantos golpes de ariete dados nas barreiras que dividem as nações. E não são apenas progressos materiais os que promovem esta grande obra de confraternização, são também, e talvez em primeiro plano, os de ordem moral, cabendo à difusão das ciências e das letras uma influência considerável nesta aproximação dos membros da grande família humana.”335
A aparente normalidade da conjuntura científica nacional permitiu ainda que, em 1915, se concretizasse uma aspiração antiga, pela autonomização da Escola de
333 JORGE, Ricardo. s.d.: 32-52.
334 “À margem de uma revista alemã”. JORGE, Ricardo. s.d.: 8.
335 CUNHA, Pedro José da. 1915, “A solidariedade scientífica no espaço e no tempo exemplificada na
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Engenharia anexa à Faculdade de Ciências do Porto336. A nova instituição tomou o nome de Faculdade Técnica e a sua instalação foi autorizada pela lei orçamental do Ministério da Instrução Pública337. Regulamentada por decreto de 25 de Novembro338 e entregue à direcção do professor Vitorino Teixeira Laranjeira339, a Faculdade asseguraria os cursos de Engenharia Civil, Engenharia de Minas, Engenharia Mecânica, Engenharia Electrotécnica e Engenharia Químico-industrial, tendo como estabelecimentos anexos um Laboratório de Ensaios de Materiais de Construção, um Laboratório de Química Industrial, um Laboratório de Docimasia e Metalurgia, um Laboratório de Máquinas, um Laboratório de Electrotecnia, um Laboratório de Construções, um Laboratório de Minas e um Laboratório de Cinemática e Topografia, dotados com verbas entre os 180$00 e os 500$00340.
Contudo, no ano seguinte o contexto nacional alterou-se significativamente, pela entrada de Portugal na guerra ao lado do bloco Aliado. Em Fevereiro, na sequência da publicação da “Lei das Subsistências”, que autorizava a requisição dos meios de transporte estrangeiros, o governo decretou o apresamento de todos os navios alemães e austríacos surtos nos portos metropolitanos e coloniais341, o que precipitou a declaração de guerra da Alemanha a Portugal em 6 de Março de 1916.
Assim, o período balizado entre os anos de 1916 e de 1918 caracterizou-se pela intensificação da instabilidade governativa, marcada por golpes políticos – a revolta de
336 ADUP SEN, Livro de Actas das sessões do Senado da Universidade do Porto I, 1911-1929, “Sessão
do senado de 5 de Agosto de 1915” (http://hdl.handle.net/10405/32980, consultado em 5 de Março de 2011).
337 Lei n.º 410, de 31 de Agosto (D.G., I Série, n.º 181, 09-09-1915).
338 Decreto n.º 2103, de 25 de Novembro (D.G., I Série, n.º 244, 27-11-1915).
339 FEUP Arquivo, Faculdade Técnica da Universidade do Porto, Actas das reuniões do Conselho
Escolar, 1915-1922, “Sessão do conselho de 2 de Dezembro de 1915” (http://digitool.fe.up.pt/R/BLLS597DK1G4VULV8IXEQXT78RRASE1EIJCY5R4JUKBB4K41AJ- 00074?func=results-jump-full&set_entry=000010&set_number=000063&base=GEN01-EDG01, consultado em 23 de Dezembro de 2013).
340 Em 1918, por decreto de 29 de Maio, foram reforçadas, excepcionalmente, as dotações destinadas aos
laboratórios e museus da Faculdade Técnica do Porto, na sequência do envio a Lisboa de uma delegação de professores da Faculdade: Laboratório de Cinemática e Topografia recebeu 3.000$00; Laboratório de Máquinas, 8.000$00; Laboratório de Construções, 6.000$00; Laboratório de Minas, 3.000$00; Laboratório de Docimasia, 2.000$00; Laboratório de Electrotecnia, 12.000$00; Laboratório de Ensaios de Materiais de Construção, 5.000$00; Laboratório de Química Industrial, 6.000$00. Estas verbas permitiram a modernização do material laboratorial, durante o ano de 1919. Decreto n.º 4384, de 29 de Maio (D.G., I Série, n.º 127, 11-06-1918) e FEUP Arquivo, Faculdade Técnica da Universidade do Porto,
Actas das reuniões do Conselho Escolar, 1915-1922, “Sessões do conselho escolar de 10 de Junho e de
23 de Outubro de 1919”.
341 Decreto n.º 2236, de 24 de Fevereiro (D.G., I Série, n.º 35, 24-02-1916); Decreto n.º 2240, de 25 de
Fevereiro (D.G., I Série, n.º 36, 25-02-1916); Decreto n.º 2243, de 1 de Março (D.G., I Série, n.º 39, 01- 03-1916); Decreto n.º 2251, de 3 de Março (D.G., I Série, n.º 41, 03-03-1916); Decretos n.ºs 2257, 2259, 2259 e 2260, de 6 de Março (D.G., I Série, n.º 43, 06-03-1916); Decreto n.º 2332, de 14 de Abril (D.G., I Série, n.º 73, 14-04-1916); Decreto n.º 2358, de 29 de Abril (D.G., I Série, n.º 82, 29-04-1916).
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Tomar, protagonizada por Machado Santos, em Dezembro de 1916, e o golpe de Sidónio Pais, em Dezembro de 1917 –, pelo agravamento da conjuntura socioeconómica, marcada pela escassez de bens de consumo e matérias-primas, particularmente de combustíveis, pela intensificação das tensões sociais e pelo aumento crescente da inflação342. Todos estes factores influenciaram, em maior ou menor medida, o funcionamento dos estabelecimentos científicos universitários portugueses.
A beligerância portuguesa implicou um desvio dos recursos nacionais para as necessidades bélicas, subordinando os interesses gerais do País às orientações do Ministério da Guerra. Assim, os laboratórios e institutos científicos em construção viram as suas verbas limitadas, o que prejudicou o seu desenvolvimento e a manutenção de uma actividade regular343. Simultaneamente, as dotações obtidas através das propinas de inscrição e de frequência começaram também a diminuir, em virtude da mobilização dos estudantes universitários e do desvio dos alunos liceais para as escolas militares:
“Sobreveio a guerra europeia e, contemporaneamente, uma grande diminuição nas receitas da Faculdade. […] a esta diminuição da receita veio juntar-se um aumento de despesa resultante da carestia progressiva e enorme do material. […] / O facto dos laboratórios se encontrarem ainda no período primeiro da sua vida, isto é, na fase de completarem instalações ou de fazer de novo as instalações que nos seus seis anos de existência eles não tinham podido montar torna ainda mais necessárias verbas importantes. Essas verbas, aparentemente consagradas à manutenção dos serviços, são na realidade, também verbas de instalação. Acresce ainda a circunstância de ser necessário constantemente renovar o material, […] O próximo ano económico aparece-nos assim espantosamente difícil […] Em resumo: a paralisação total ou quase total, forçando-nos a encerrar as nossas portas aos estudantes e aos investigadores, esterilizando os nossos esforços de professores, desprestigiando Faculdade e Universidade, desmoralizando os alunos, eis a séria perspectiva que nos ameaça. Nestas circunstâncias e não tendo nós nenhuma esperança em auxílio vindo do Estado, que actualmente consagra os seus recursos a fins muito diversos, resta-nos
342 PIRES, Ana Paula. 2009a, Portugal e a I Guerra Mundial. A República e a economia de guerra,
Caleidoscópio; PIRES, Ana Paula. 2009b, “A economia de guerra: a frente interna”. ROSAS, Fernando; ROLLO, Maria Fernanda (coord.), História da Primeira República Portuguesa, Tinta-da-China, Lisboa: 319-347.
343 Sobre os laboratórios do IST, João Camoesas testemunhou: “[…] quando rebentou o conflito europeu,
esses laboratórios e oficinas estavam em via de instalação. As condições derivadas da guerra paralisaram o desenvolvimento dessas instalações.”, Diário da Câmara dos Deputados, n.º 73, 12-06-1922, p. 16.
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recorrer à Universidade que supomos estar em condições de nos auxiliar […]”344.
A redução das dotações privativas dos estabelecimentos científicos, associada à ruptura diplomática entre Portugal e os Impérios Centrais, dificultou bastante a obtenção de equipamento, instrumental científico e matérias-primas básicas, como reagentes para os laboratórios. Os institutos universitários viram-se, assim, impossibilitados de aceder aos principais mercados fornecedores e tiveram grandes dificuldades em encontrar mercados alternativos, em virtude da inflação crescente que tornava proibitiva a aquisição deste tipo de materiais. Face a estas dificuldades foi necessário improvisar soluções. Assim, apostou-se na organização de oficinas para reparação do instrumental de trabalho, de que foram bem ilustrativas as oficinas de instrumentos de precisão instaladas junto dos Laboratórios de Física345. Apostou-se ainda na troca de combustíveis caros e raros, como o gás, por outros mais económicos, nomeadamente por lenha ou ar carburado com gasolina346.
A guerra perturbou também a mobilidade de professores e investigadores, impossibilitando-os de efectuar missões científicas e viagens de estudo às potências da Europa central. Transtornou, ainda, as redes internacionais de permuta de bibliografia e de publicações científicas e afectou a organização de grandes eventos, nomeadamente de conferências e exposições347.
Não obstante, uma das novidades trazidas pela conjuntura bélica e que influenciou, decisivamente, a actividade científica, relacionou-se com a problemática da mobilização da academia. De facto, o deflagrar da Grande Guerra exigiu o envio regular de corpos militares para África e, posteriormente, a organização de um grande corpo militar para a frente europeia, o Corpo Expedicionário Português. As características específicas deste conflito e a sua elevada dimensão tecnológica e científica fizeram incidir a atenção das autoridades militares na figura dos especialistas, nomeadamente
344 AH/MUHNAC-UL, fundo Escola Politécnica, secção Junta Administrativa, subsecção Orçamento e
Contabilidade, “Exposição assinada por Marck Athias, Henrique de Vilhena, Sílvio Rebelo e Celestino da Costa em 11-06-1917, transcrita na circular enviada pelo reitor da UL ao director da FC-UL”, 15-06- 1917, pp. 3-5 (cota 1694).
345Vd. “Congregação de 2 de Agosto de 1915”, RODRIGUES, Manuel Augusto. 1992a: 88.
346 AH/MUHNAC-UL, fundo Faculdade de Ciências, série Correspondência recebida e expedida, registo
de Correspondência 1917-1918, “Ofício do director da FC-UL para o Ministro da Guerra”, 21-11-1917, p. 1 (livro 689).
347 Crawford relacionou esta quebra na organização de grandes eventos internacionais com o incremento
do nacionalismo e a mobilização da academia, quer de forma directa – cientistas como combatentes –, quer indirecta – através da propaganda, CRAWFORD, Elisabeth. 1988: 164.
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dos médicos, veterinários e engenheiros, muitos dos quais se encontravam ligados ao mundo académico, quer como docentes, investigadores e técnicos, quer como estudantes.
Internacionalmente, os matizes da mobilização académica variaram bastante, sobretudo com o crescente reconhecimento do papel do cientista e do investigador, potenciado pela própria guerra348 e com o incremento da intervenção estatal nesse sector:
“Most notably, they [scientists] were to play a significant part in the development of chemical warfare, radio, medicine, cryptology, scientific intelligence and anti-aircraft gunnery, in aeronautical research, in the investigation of anti-submarine techniques, and in the application of meteorology and geology to strategic planning.”349
No início da guerra, a opção mais comum consistiu na mobilização geral, integrando professores, investigadores e alunos nos vários corpos militares, sem ter em consideração as suas especificidades ou competências particulares. No entanto, rapidamente se percebeu que esta não era uma via eficaz, em virtude da elevada mortalidade na frente, que colocava em causa do futuro científico das nações, e pela crescente complexificação tecnocientífica do conflito, que exigia uma actividade científica de grande fôlego, impossível se os especialistas se encontrassem em combate. Poucos meses depois do início da Grande Guerra, uma das publicações de maior impacto no Reino Unido, a revista Nature, publicava um artigo onde defendia a importância de uma mobilização científica dos investigadores350. No ano seguinte, o norte-americano George Ellery Hale manifestava-se publicamente no mesmo sentido:
“Es más fácil organizar a los mejores cerebros del país que formar enormes ejércitos, y la efectividad de nuestra fuerza de lucha puede ser multiplicada mucho mediante el trabajo de hombres que físicamente pueden no ser adecuados para las trincheras.”351
Esta discussão teve um grande impacto internacional, sobretudo a partir do momento em que começaram a cair em combate alguns cientistas eminentes, como o físico
348 TURNER, Frank M. 1980: 607. 349 PATTISON, Michael. 1983: 522.
350 1914, “Science and the State”. Nature, Vol. 94, No. 2348: 221-222.
351 Carta de George Ellery Hale a William Welch (1915), transcrita em SÁNCHEZ RON, José Manuel.
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britânico Henry Moseley352. Optou-se então pela mobilização científica da academia, colocando os estabelecimentos de ensino e investigação ao serviço do estado e das exigências da conjuntura de guerra. Os investigadores passaram a trabalhar em questões consideradas prioritárias, quer de âmbito militar, quer civil353:
“Most of the staff and equipment involved in the teaching of scientific subjects were redeployed to essential military and industrial projects. The process of transmitting scientific knowledge and skills in the schools and universities came almost to a standstill.”354
Na Alemanha, esta componente de mobilização científica da academia e dos homens de ciência esteve presente desde muito cedo, quer na organização de poderosos institutos independentes, particularmente expressivos no domínio na Química, quer nas manifestações de âmbito cultural e intelectual355, através da propaganda, de que foi bastante expressivo o controverso Manifesto dos 93. Outros países, como a França, optaram por uma mobilização parcial dos professores, por forma a salvaguardar o futuro intelectual e científico do país. Sobre esta problemática Roy Macleod concluiu:
“Equally, whether in uniform or laboratory coat, few civilian scientists were