les cellules épithéliales coliques
2. Mécanismes d’adaptation mitochondriale au H2 S
O que permanece essencial em termos sociológicos é o reconhecimento de que todos os universos simbólicos e todas as legitimações são produtos humanos, cuja existência tem a base na vida de indivíduos concretos e não possui qualquer estatuto empírico separado dessas vidas. (BERGER & LUCKMANN, 2004).
Na história do pensamento ocidental, diversas são as áreas do conhecimento que já discorreram sobre o domínio das emoções – ou suas nomeações afins, como os afetos, as paixões, os sentimentos, o patêmico41: por exemplo a Filosofia, a Psicologia, a Antropologia, as Ciências Sociais e, mais recentemente, a própria Linguística. É basal relembrar, entretanto, que a abordagem das emoções enfrenta, desde a tradição clássica – para considerável parte de seus expoentes –, certo olhar marginalizado, o que acabou por contribuir com o descrédito do olhar científico sobre elas e, consequentemente, sobre sua relação com o feminino, a partir do momento em que o sujeito mulher é associado ao campo do dito “emotivo” e distanciado de uma suposta “razão”, que seria seu oposto. A partir dessas vozes de autoridade do saber ocidental, o olhar sobremaneira negativo a respeito das emoções – e das mulheres, vistas regularmente como seres “emotivos” – acabou por se popularizar, alcançando os domínios do senso comum e, consequentemente, reforçando o discurso científico.
Ainda hoje, mesmo que em menor grau, as emoções continuam sendo tratadas como manifestações, de certa forma, opostas àquelas concernentes à razão. Essa dicotomia que insiste em demarcar um suposto limite entre a racionalidade e a passionalidade, tanto no senso comum quanto em certa parte da comunidade científica, fez com que as paixões passassem a
41 Tendo em vista as restrições de extensão deste trabalho e as variadas abordagens teóricas que procuram
estabelecer distinções entre esses termos designativos de emoção, optamos por não nos ater a essa questão, apesar de atestarmos sua riqueza. Neste momento, é interessante, situando-os em nosso lugar de fala de analistas do discurso, embasarmo-nos na justificativa oferecida por Plantin (apud LIMA, 2006, p. 128), quando este considera a imprecisão linguística que carregam esses termos: “[...] il est difficile de se tenir à un seul de ces termes, puisque tous n’ont pas les mêmes capacités dérivationnelles et que les termes derivés peuvent ne pas exister ou n’avoir pas le même sens - en particulier, les verbes -, ce qui êntraine um brouillage permanent de l’écriture théorique.” (Tradução de LIMA: “[...] é difícil tomar apenas um dos termos porque eles não têm as mesmas capacidades derivacionais e os termos derivados podem não existir ou não ter o mesmo sentido - em particular, os verbos -, o que acarretaria uma confusão permanente na escrita teórica.”). Por fim, cabe-nos mencionar que os termos emoção, paixão, afeto, sentimento, dentre outros, serão tomados, neste capítulo, como sinônimos, exceto naquelas situações em que os próprios teóricos contemplados os diferenciarem nitidamente.
ser vistas, nesses casos, como um componente negativo, que atrapalha as relações entre os indivíduos e destes consigo mesmos; elas seriam a marca patente do “descontrole” sobre si, seriam aquilo que “irrompe” de forma abrupta, sem que fosse possível se raciocinar ou medir suas consequências. Dessa forma, na grande maioria das situações sociais, tolo seria aquele que não conseguisse controlar suas emoções, “domesticá-las” sob o jugo da racionalidade e, ainda, o ser emotivo passaria a distanciar-se do exercício do intelecto, da própria inteligência.
Sobretudo nas últimas décadas, com vários estudos das ciências humanas – como os das Ciências Sociais, da Psicologia e da Análise do Discurso, associada ao resgate da Retórica –, as emoções são efetivamente pinçadas dessa posição marginal em que se encontravam nas abordagens científicas e passam a ser vistas, pouco a pouco, sob novos prismas que objetivam afastá-las desse olhar simplista. Ainda que esses estudos tentem reverter o “ranço” que marca o julgamento sobre as emoções, os discursos que circulam em nossa sociedade, frutos de imaginários sociodiscursivos construídos durante muitos anos, parecem insistir em confirmar esse olhar negativo por vezes. Muitos dos produtos midiáticos, como o nosso próprio corpus, confirmam essa constatação.
Como a proposta desta pesquisa é, de forma geral, proceder à análise de duas obras de autoajuda destinadas ao público feminino – Por que os homens se casam com as mulheres poderosas? e Comporte-se como uma dama, pense como um homem – que o associam, com certo descrédito, ao campo das paixões, é notória a necessidade de investigarmos, ainda que de forma lacunar, quais seriam algumas das vozes históricas, sociais e culturais reverberadas por tais livros ao efetuarem essa associação pejorativa das emoções ao feminino e vice-versa.
Para tal, neste capítulo, procederemos, inicialmente, à apresentação de um percurso do entendimento das emoções no decorrer da história do pensamento ocidental, priorizando a abordagem secular das paixões frente a seu (suposto) oposto: o campo da razão, da racionalidade. Partindo do pensamento grego e passando à contemporaneidade – mas não menos cientes da complexidade que está contida nesse enorme intervalo –, tentaremos contemplar variados flashes que abordam esse jogo entre as emoções e as razões, distanciando-as, ou, mais recentemente, esforçando-se para aproximá-las, em algumas áreas do conhecimento. Em um segundo momento, efetuaremos mais uma vez um resgate histórico, desta vez especificamente no que concerne à ligação histórica entre o feminino e os afetos. Tentaremos mostrar, em linhas gerais, por que, a partir dessa trajetória sociológica de
dicotomização entre razão e emoção (e, consequentemente, da desvalorização desta última), o feminino acabou por se situar em uma posição subalterna nas esferas de poder ao ser associado às paixões – e, como veremos a seguir, a seus correlatos simbólicos, como a fraqueza, o descontrole, a irracionalidade, a incapacidade intectual, os impulsos biológicos. Por fim, voltaremos rapidamente a nosso corpus, pretendendo mostrar como as obras de autoajuda sob análise sinalizam nossas considerações até aqui.
É importante lembrar – conforme já sinalizamos nas primeiras páginas de nosso trabalho – que esses extensos percursos históricos a serem feitos aqui, apesar de razoavelmente exaustivos, serão fundamentais para o entendimento do lento e inegável processo de consolidação de tais mentalidades binarizantes em nossa cultura ocidental. Além disso, ambos os resgates serão também bastante úteis às categorias a serem traçadas em nossa análise posterior, no capítulo terceiro.
2.2 Das emoções como pulsões físicas a serem controladas às emoções como ação