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Mécanique de la reprogrammation

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CHAPITRE 2 : CELLULES SOUCHES ET REPROGRAMMATION

B. Mécanique de la reprogrammation

Encontramos na versão de Lolita de 1962 certa tendência ao julgamento que classifica o que é normativo e adequado, e o que não se encaixa nesses padrões. Como já mencionamos no capítulo 6 desta dissertação, no passado o cinema demarcava com nitidez o bem e o mal, o que era moral e imoral. Sem dúvida em 1962 temos essa distinção no enredo da história, nos personagens de Humbert, Lolita, Charlotte e Quilty, cada um com seu dilema. Ainda que claramente o filme também possa ser admirado pela visão crítica da sociedade, da educação e das teorias psicológicas, existe uma forte tendência a julgamentos binários: certo e errado, culpado ou inocente, perversão ou doença, vítima e abusador, depravação ou inocência, loucura e sanidade, vício e autocontrole. Outro aspecto que propicia esse olhar discriminatório reside no fato de desconhecermos a história do passado de Humbert, só sabemos que ele é separado, o que para a época já era algo fora dos padrões.

Vale a pena lembrar da contribuição do Construcionismo Social para esta dissertação (capítulo 4) ao alertar para o risco de exclusão e reducionismo ao olharmos para as questões que envolvem a sexualidade com lentes binárias. Assim como as contribuições do pensamento sistêmico novo-paradigmático que compreendem como uma construção intersubjetiva as dinâmicas relacionais que envolvem nossa sexualidade. Ambas as teorias incluem a importância do contexto, da história vivida e do tempo, portanto, coerentes com a postura pós-moderna que nos colocou Grandesso (2000).

Em 1962 vivíamos o início de um descontentamento social no mundo: nos preparávamos para a revolução sexual dos anos 1970, ainda que os padrões de certo e errado não deixassem dúvidas de nossa moral, a voz dos excluídos clamava para ser ouvida nas lutas por igualdade dos direitos civis, nos questionamentos sociais e políticos, na evolução científica, no advento da pílula anticoncepcional, entre outros. Como coloca Souza (2008) até meados da década de 1960 os papéis de complementariedade na relação entre marido e esposa se baseava entre

“provedor-cuidadora” (2008, p. 54), assim como a preservação da família era algo a ser defendido.

A desigualdade de gênero (MACEDO, 2002/2005) é representada, incialmente, na maneira como Humbert se relaciona com Charlotte. Destaca-se a diferença intelectual e cultural entre os personagens (o homem e a mulher mais velha) colocando o homem como superior a mulher. Posteriormente essa diferença é invertida quando ele além de provedor se torna pai de Lolita, cuida da casa, pinta as unhas dos pés dela, é submisso ao desejos dela, etc.

O personagem Humbert nesta versão desempenha o seu papel masculino (com a esposa) coerente para aquela época: não ajudava nas tarefas domésticas e cumpria com sua obrigação conjugal; ainda que para manter relações sexuais com ela buscasse inspiração na foto de Lolita e nos goles de uma bebida. Quando no filme Humbert numa discussão com a esposa, diz ser um bom marido e cumprir com sua “obrigação conjugal” nos faz refletir sobre os deveres no leito nupcial, como colocamos no capítulo 2, desde o século XVIII a Igreja pregava um discurso sobre o ato sexual e a consumação do casamento, sendo o sexo parte da “dívida no casamento” (MUCHEMBLED, 2007; STEARNS, 2010), e era dever da mulher casada servir sexualmente o marido, sem necessariamente almejar sua própria satisfação. Neste momento, Humbert parece inverter essa ordem ao tomar para si a obrigação de fazer sexo com Charlotte.

O Humbert de 1997 foge dessa “dívida conjugal” , ele fica até tarde lavando a louça do jantar para que o efeito do remédio de Charlotte faça efeito e ela já esteja dormindo quando ele chegar ao quarto do casal, remédio este que ele pessoalmente adquire com um médico para dopá-la.

A maneira como a maternidade é abordada também se destaca; no filme de 1962 temos uma mãe mais próxima da filha, de meia idade que nega a beleza e a juventude da filha ao classificá-la como feia; para Charlotte a filha é implicante por ela ser uma mãe jovem e bonita, insinuando que a filha teria ciúmes dela como mulher. Já a versão de 1997 temos uma mãe distante da filha, elas raramente aparecem juntas e quando estão a cena representa uma briga entre as duas. Logo

no início do filme Charlotte deixa claro que sua realização pessoal não é a maternidade e sim o seu jardim.

Novamente temos uma quebra no padrão do papel social para as necessidades da mulher, que deveria realizar-se no matrimônio e na maternidade (MUCHEMBLED, 2007; MACEDO 2002/2005); quando em 1962 ela desempenha o papel de mãe a sua maneira, é representada quase como alguém insano pelas distorções que faz entre ela e a filha, quando tenta afastar a filha do convívio do casal, justifica a atitude por pensar num bom colégio interno, ou seja demonstra preocupação com a educação de Lolita. Já a mãe de 1997 vê a filha como uma rival que deve ser afastada e enviada para uma escola com “muita disciplina e moral”, nos fazendo lembrar das dificuldades de relacionamento das duas e do quanto delega a responsabilidade da educação da filha para especialistas em bons valores morais.

A atriz que interpreta a personagem Lolita em 1962 tem a aparência bem mais velha do que a atriz de 1997, isso ilustra os dados levantados na pesquisa de Abdo (2004) sobre a precoce estimulação e iniciação sexual dos nossos jovens.

Percebemos como o corpo da mulher jovem foi evidenciado nas duas versões de maneiras distintas: em 1962 talvez por vivermos sob o Código de Produção (KEESEY & DUNCAN, 2005) no cinema, temos Lolita vestida com um discreto biquíni e vestidos bem comportados; já em 1997 o corpo da jovem é mais despido e explorado em cada cena, nos lembrando que a nudez feminina vem sendo destacada a anos como forma de poder (DEL PRIORE, 2011).

Uma maneira como a censura foi representada na versão de 1962 foram as imagens da tela negra que induziam a imaginação do expectador a continuar o ato sugerido dos personagens (LOURO, 2010), assim como nas mensagens de duplo sentido. O recurso de dar sequência à imaginação também foi utilizado na versão de 1997 não pela proibição da censura, mas por estimular a fantasia, um poderoso recurso para carregar a cena de erotismo.

A censura também foi responsável por produzir filmes que falavam sobre sexo, no entanto sem sexo (KEESEY & DUNCAN, 2005), isto pode ser observado nas duas versões de Lolita. Ainda que o cinema de 1997 não enfrentasse a censura

do passado, as cenas eróticas foram mais exploradas e Humbert foi demonstrado como um personagem pós-moderno: sem tantas certezas, frágil, desesperado, com uma história de perda pela morte de sua primeira amada Annabel, mas principalmente alguém que nos inspira compaixão. Como apresentado no capítulo 6 o cinema mais recente apresenta personagens que lutam com seus próprios valores e medos, tem o peso de sua consciência e toda a fragilidade do ser humano.

O poder do cinema é representado pelos sonhos de Lolita de atuar num filme, numa peça de teatro, por seu interesse nas revistas sobre os artistas de cinema.

A influência do amor romântico se faz presente nos filmes de várias maneiras: quando Lolita da versão de 1962 se despede de Humbert pedindo para que ele não a esqueça, o hábito de Humbert escrever um diário em que revela seus sentimentos, em 1997 no cenário do quarto de Lolita nas fotos da parede, nas cartas de amor que Charlotte declara seu amor a Humbert, entre outras.

Concordamos com o pensamento de Louro (2000) que compreende a sexualidade a partir da complexidade envolvida ao incluirmos o âmbito pessoal, social e político, portanto, não caberia aqui julgamentos simplistas que incluem atos e desconsideram responsabilidades e contextos. A evidência de um crime que tira a vida de alguém é incontestável, mas o envolvimento dos personagens na trama do enredo também.

As cenas com maior erotismo em ambas as versões em nosso olhar são as que evidenciam a transgressão e o proibido e faziam do expectador um voyer, ou mesmo, as que de certa maneira traziam a presença física ou sugeriam um terceiro personagem.

Ouso imaginar como seria uma Lolita de nossos tempos: talvez ela esteja passeando entre nós disfarçada com o uniforme do colégio, mas com certeza distraindo-se com seu celular, ligada nas mensagens do facebook. Nossa Lolita já deve ter feito plástica e para confirmar sua beleza, imagino que tenha postado nas redes sociais fotos nua, mostrando seu corpo e explorando seus genitais, quem sabe?

Não sei como um pintor se sente ao pintar um quadro, mas caminhar por esse processo de construção deste trabalho me trouxe a sensação de vislumbrar como seria dar algumas pinceladas, ora com a fluidez do traço outras com a insegurança do vazio da inspiração.

Meus aprendizados são inumeráveis tanto pelos estudos, pesquisas, diálogos, reflexões internas, quanto pelas dificuldades apresentadas ao longo do processo de construção dessa dissertação. Tenho que lembrar que como psicóloga clínica muitas vezes me pego com o vício da profissão e “ousar” explorar minha possibilidade como pesquisadora sem dúvida foi um marco no meu desenvolvimento profissional e pessoal.

Foi muito importante a descoberta do filme como um recurso possível para uma pesquisa, diante da possibilidade de fazer entrevistas, senti certa dificuldade nas pessoas ao falarem sobre sua intimidade sexual.

Espero que este trabalho traga contribuições relevantes a você leitor, tanto quanto trouxe para mim. Minha consciência me informa que ele não está concluído, na medida em que acredito que uma conversação nunca se esgota. Este é meu objetivo futuro: continuar dialogando sobre as questões que envolvem o erotismo e a sexualidade.

Compreendi ao longo desse processo que a definição de erotismo não pode ser dada isoladamente dos contextos e das comunidades linguísticas que estabelecem o significado desse diálogo, que no meu entender, como construção social está inserida numa determinada época e cultura, e que ao longo do tempo isso também se modifica.

O erotismo se mostrou estar atrelado à transgressão com toda a responsabilidade que as nossas escolhas nos remetem na busca do prazer. Talvez esteja aí nossa maior dificuldade, pois no mundo líquido que Bauman (2004/2011a/2011b) nos coloca o discernimento é algo a ser conquistado em meio a tantas possibilidades e informações.

Aprendi que as fantasias são muito importantes para alimentar o erotismo, tanto quanto criar com seu parceiro isso que nomeei de intimidade erótica, certos

segredos, um jeito de se fazer especial e olhar para ele como alguém diferenciado, que se destaca no meio da multidão. Os artigos nos sex shops podem ajudar, mas não garantem o envolvimento erótico, é necessário conhecer o próprio corpo e desejar descobrir o corpo do outro, é necessário seduzir tanto quanto se deixar ser seduzido, como numa dança onde um movimento dá continuidade a outro.

Exercitei a atitude do “não-julgar” , tentei substituir o verbo ser por “estar”, busquei o contexto do que lia e ouvia, me deparei com minhas próprias incoerências e com um vocabulário que muitas vezes não se encaixava na minha prática e nem no que acredito, mas que insistiam em me deixar perceber sua presença, posso dizer que estou “me trabalhando” nisso.

Busco por coerência teórica no dia a dia da minha prática como psicóloga de casal, família e do indivíduo; e ao me exercitar nos caminhos dessa pesquisa percebi o compromisso e a responsabilidade em ampliar o olhar que separa o clínico do pesquisador, para uma postura mais inclusiva que permita um diálogo entre eles. Assim como, o comprometimento de dialogar e refletir sobre isso com meus pares.

Por fim deixo registrada a minha gratidão a todos que direta e indiretamente me fizeram viver essa rica experiência.

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