CHAPITRE 2 : CELLULES SOUCHES ET REPROGRAMMATION
D. Applications des hESC
Apesar das histórias retratarem a mesma época e serem baseadas no mesmo livro de Nabokov, elas são apresentadas de maneiras bem distintas, nem tanto pela diferença do roteiro, mas no processo como os discursos e as práticas são articulados.
O filme Lolita na versão de 1962 é em preto e branco e na de 1997 colorida. Vale lembrar de que um filme em preto e branco não possui tantos recursos visuais como um colorido. Na versão mais recente percebemos contraste de luz e sombra, dos diferentes tons de iluminação, etc. A paisagem externa também é mais explorada.
Em 1962, na abertura inicial do filme com os créditos do elenco, vemos a mão de um homem cuidadosamente pintando as unhas dos pés de uma mulher, ele separa os dedos com um pedaço de algodão quase como um ritual. O que nos sugere um homem aos pés de uma mulher, cuidando de sua beleza.
Em 1997 a abertura do filme aparece um campo coberto de névoa, ao longe avistamos um carro numa estrada. Humbert com o rosto ensanguentado surge dirigindo seu carro, em zigue-zague, de um lado para o outro por uma estrada no campo. Ele parece dirigir sem se importar com a própria vida e nem com sua segurança, pois, ao encontrar com um carro e com um caminhão não faz nenhum esforço para evitar a batida, os outros veículos desviam dele. Seu olhar é vago, perdido, segura nas mãos um grampo de cabelo. No banco do carro ao seu lado um revolver sujo de sangue balança de um lado para o outro indicando que algo grave aconteceu. Uma música suave contribui para o clima obscuro da cena. Ele pensa “em voz alta” como se estivesse conversando com o expectador ao falar de seus sentimentos:
Ela era Lo, simplesmente Lo, de manhã. Media um 1,50m. sem sapatos.
Ela era Lola vestida de jeans. Era Dolly na escola.
Era Dolores na linha de pontos.
Em meus braços ela era sempre... Lolita. Luz da minha vida. Fogo da minha virilidade. Meu pecado. Minha alma.
Lolita.
Nos leva a pensar sobre algo nebuloso, confuso que coloca o expectador num clima apreensivo: algo grave aconteceu e isso pode estar relacionado com uma paixão por uma mulher chamada Lolita.
Na versão de 1962 não existe uma contextualização sobre a vida de Humbert antes de conhecer Lolita. Não sabemos nada sobre ele, a não ser que é divorciado e apaixonado pela menina. Sem essa parte da história, parece ficar mais evidenciado o aspecto comprometido de Humbert, objetivamente falando teríamos maior tendência a rotulá-lo com diagnósticos, julgamento, etc. Podemos fazer uma aproximação com as escolhas das epistemologias desse trabalho que privilegiam a importância do contexto e do significado na maneira como enxergamos o mundo; nossa experiência com este trabalho parece confirmar na prática esses princípios. Na versão de 1997, Humbert volta no tempo a 4 anos atrás e relata ao expectador como chegou aos Estados Unidos.
A versão de 1997 nos apresenta esse contexto da história de Humbert e isso contribui para percebermos como ele era quando adolescente, apaixonado que descobre o sexo com o amor de sua vida, mas por uma fatalidade é impedido de vivê-lo e seguiu procurando nas outras mulheres um pouco de Annabel, o convite é olharmos para ele mais como uma pessoa que sofre com o luto do que para alguém com desvio de personalidade.
A dor do luto é presente nas duas versões: em 1962 as cinzas do marido (morto a 7 anos) são colocadas num altar de orações junto a imagens de Santos no quarto de Charlotte, em 1997 na dificuldade de Humbert lidar com a dor da perda de Annabel.
Quando Humbert vê Lolita pela primeira vez, em 1962 ela está vestida com um discreto biquíni, talvez para época bem moderno, sentada de lado com as pernas discretamente cruzadas, na grama no quintal, usa chapéu e óculos escuros, está lendo um livro e ouvindo música. Em 1997 ela aparece deitada de bruços, no quintal, tem trancinhas no cabelo, usa aparelho nos dentes, veste um vestido molhado pela água da torneira que molha a grama do jardim, folheia uma revista de artistas do cinema, ao vê-lo sorri para Humbert. Esta é uma cena carregada de erotismo e sensualidade, ao mesmo tempo em que traz a ingenuidade da menina de tranças e aparelho nos dentes.
A cena seguinte na versão de 1997 mostra Lolita estendendo roupas no varal, novamente a silhueta dela é marcada pela sombra que seu corpo faz atrás dos brancos lençóis estendidos, Humbert disfarçadamente a observa de longe fingindo ler um jornal; ela por sua vez ao passar por ele esbarra propositadamente em sua perna, outra cena com muita sensualidade.
A atriz que protagoniza Lolita na versão de 1962 parece bem mais velha que a de 1997, o que nos faz lembrar do quanto a sexualidade vem sendo estimulada cada vez mais cedo em nossa sociedade.
Outra cena que retrata a sensualidade e o erotismo pode ser considerada a cena de despedida de Lolita quando ela vai para o acampamento de férias.
Na versão de 1962 Lolita está no carro da mãe e ao perceber Humbert observando-a da janela de seu quarto, ela sai correndo ao encontro dele e lhe dá um abraço e um beijo no rosto pedindo para que ele não a esqueça.
A despedida dos personagens em 1997 é descrita desta maneira: ela sai correndo ao encontro dele, salta e se joga com os braços e as pernas abertas envolvendo o corpo todo dele num grande abraço, beija-lhe a boca e depois desce escorregando seu corpo no dele e sai correndo e antes de desaparecer vira-se de volta para ele e sorri.
Da versão desta cena em 1962 para a de 1997 evidencia-se a liberdade com que o toque no corpo foi sendo explorado no cinema; se em 1962 o beijo no rosto e um discreto abraço entre Humbert e Lolita eram cenas audaciosas para a época, em
1997 para representar o desejo e a sensualidade foram precisos incluir o encontro e o roçar dos corpos, o beijo na boca e um shorts curto substituindo um comportado vestido godê. Para esta nova fase do cinema os corpos lentamente puderam se despir e ficar em evidência, ou seja, para explorar a sensualidade e o erotismo o recurso estava em mostrar o corpo.
Uma outra cena na cadeira de balanço também evidencia o erotismo na relação entre Lolita e Humbert: eles estão num quarto de hotel, a luz do dia invade o ambiente e ilumina a face dos dois, Humbert está sentado numa cadeira de balanço, Lolita está em seu colo de costas para ele. Ela lê atentamente as histórias em quadrinhos do jornal, veste apenas a camisa do pijama e usa aparelho nos dentes, seu cabelo despenteado está molhado, as unhas do pé estão pintadas de vermelho e num movimento natural ela balança lentamente seu corpo para frente e para trás. Um sorriso maroto nos deixa em dúvida se é para o que lê ou o que percebe que vai acontecendo no roçar dos corpos no contato dos genitais; a respiração dos dois fica ofegante e a música suave ao fundo compõe uma das mais belas cenas de sensualidade, a câmera desvia dos corpos e focaliza no ventilador empoeirado no teto do quarto. O desvio da câmera nos induz a imaginar a continuidade da cena o que colabora ainda mais para aumentar a nossa fantasia.
Essa sensualidade e erotismo vão sendo construídos também por meio da intimidade que os personagens vão criando ao longo do desenrolar da história.
O erótico na versão de 1962 também está representado nas mensagens de duplo sentido.
A cena mostra Humbert fechando o contrato de aluguel com Charlotte e ela curiosamente pergunta sobre o motivo que o fez ficar com o quarto:
Charlotte: Qual foi o fator decisivo, o jardim?
Humbert: Acho que foram as tortas de cereja. E sorri.
Na verdade ele se decidiu a ficar depois que viu Lolita de biquini deitada na grama tomando sol.
Num jogo de xadrez Charlotte pergunta para Humbert: “Você vai pegar a
minha rainha?”
Ele responde: “Era a minha intenção”. Olha para Lolita de baixo para cima, assim que ela se aproxima dele.
Charlotte pede que ela vá para a cama. Lolita se aproxima da mãe e dá um beijo de boa noite nela. Se aproxima de Humbert e faz o mesmo: um beijo no seu rosto, sorri para ele e sai. Ele a segue com os olhos, virando sua cabeça ao voltar arruma sua gravata e volta a jogar. O erótico e a sensualidade ficam por conta das trocas de olhares entre Humbert e Lolita, pelo beijo de boa noite mais demorado que ela dá no rosto dele, no olhar dele que acompanha a saída de Lolita.
Em 1962, no jardim, Humbert finge ler um livro enquanto observa Lolita brincando de bambolê, o olhar dele está fixo nos movimentos do quadril dela, e ela sabe que ele a está observando.
Humbert e Charlotte estão deitados na cama - a cena sugere intimidade sexual entre eles -, ele a beija no pescoço, mas olha para a foto de Lolita no criado mudo.
No acampamento para garotas todas são jovens e lindas estão de shorts e maiô, o espectador é convidado a passear entre ninfas, jovens e lindas. Curioso é o nome do acampamento na versão de 1962: Climax.
Na cena do primeiro hotel, onde eles dormem no mesmo quarto ela cochicha no ouvido dele dizendo o que fez com Charlie no acampamento, a cena seguinte é uma tela escura.
A tela preta é uma intervenção da censura e também um recurso poderoso para levar o espectador a imaginar a sequência do ato, sugere algo proibido. Na versão de 1962, o único momento em que Lolita senta no colo de Humbert é quando fica sabendo da morte da mãe e pede a ele para que não a abandone num reformatório, ou seja, naquele momento ela está no papel de filha e ele de um bom pai.
Na versão de 1997 parece que Lolita e Humbert vão criando gradativamente uma intimidade erótica, algo que fica só entre os dois, uma cumplicidade carregada de erotismo, escondem seus segredos e seus corpos se tocam suavemente. Esta intimidade erótica está presente em várias cenas e fica mais evidente na presença de terceiros ou com a possibilidade da chegada de alguém, como:
Na cena do varal em que Lolita está estendendo roupas e Humbert finge ler o seu jornal no quintal, mas seus olhos acompanham cada movimento dela, a luz do sol ilumina e demarca o corpo dela atrás da roupa branca pendurada. Ela sabe que está sendo observada por ele, ao terminar sua tarefa, passa por ele e encosta propositalmente seu pé na perna dele.
Ainda na cena do chiclete: Lolita entra no quarto de Humbert mascando chiclete, senta-se diante dele com as pernas abertas, tira o chiclete da boca e gruda em sua perna. Pega o chiclete de volta e coloca na boca, aproxima-se dele que a observa sentado no outro lado da mesa onde escreve. Lolita finge prestar atenção em algo que está sobre a mesa, distraidamente senta no colo de Humbert, tira seu chiclete da boca e gruda-o nos papéis dele que estão em cima da mesa. Em seu colo é provocante e meiga ao mesmo tempo. Pergunta se ele quer vê-la mexendo o queixo, ele responde que sim, ela demonstra e ambos se olham sorrindo. A mãe chega em casa, chama por ela que sai correndo do quarto de Humbert para o seu. Charlotte vai até o quarto de Humbert e pergunta se Lolita o está distraindo, ele rapidamente põe o chiclete esquecido em sua boca e diz que não.
E também na cena do bacon: educadamente Lolita vai até o quarto de Humbert toca um sino e anuncia: “seu café da manhã professor Humbert”. Ao abaixar-se encosta seus pés no dele e se afasta. Se aproxima bem de perto e tenta uma aliança: “não diga para minha mãe, mas comi seu bacon”. Humbert sorri.
Na cena do balanço: nesta cena Humbert, Lolita e Charlotte estão sentados juntos num balanço. Ao se balançarem as pernas de Lolita tocam e roçam a perna de Humbert, apesar de estarem ao lado da mãe e ser este um ato ousado, a menina segura nos braços uma boneca que também toca no corpo de Humbert.
Na cena de Lolita no carro trocando de roupa: Humbert e Lolita estão no carro, ela vira de costas e troca de roupa, ele que está dirigindo e observa-a pelo retrovisor.
Na cena de Lolita beijando Humbert no carro: Lolita fala para ele: “Mas
tudo bem, você não se importa comigo”. Ele pergunta: “Por que você diz isso?”. Ela
responde: “Você não me beijou ainda, vai me beijar?” Ele para o carro fora da estrada e ela pula no seu colo, abraça-o e o beija na boca de olhos fechados. Um carro de polícia se aproxima e ela se afasta rapidamente, disfarçando com brincadeiras.
Na versão de 1962 essa intimidade aparece na cena do café da manhã em que ela o manda abrir a boca e comer o ovo frito na mão dela, ele reluta e quando obedece, segura fortemente o braço dela, e ainda na cena no beijo de despedida de Lolita em Humbert antes de ir para o acampamento.
Em 1997 esse contato físico entre eles é bastante explorado e curiosamente a iniciativa na maioria das vezes é dela. O que contribui mais ainda para não condenarmos Humbert a categoria de pedófilo, que de um ponto mais objetivista simplificaria muito o conflito.
Nas duas versões podemos articular reflexões sobre a crítica social que os filmes retratam: na educação das escolas americanas, com as teorias e diagnósticos da psicanálise, a sociedade americana e ao preconceito racial. Essa crítica é protagonizada pelo personagem Quilty, na versão de 1962 ela é mais acentuada.
Humbert é representado em 1962 como um homem aparentemente mais reservado na expressão de seus sentimentos, no relacionamento com Charlotte evidencia-se a diferença intelectual entre eles, por diversas vezes ela é tida como “burra” e ele culturalmente superior.
Temos sorte aqui em West Ramsdale. Culturalmente, somos avançados... com muito gado anglo-holandês e anglo-escocês bom. E somos bem modernos intelectualmente. – Diz Charlotte para
Humbert ao mostrar-lhe o quarto que pretende alugar.
Percebe-se de imediato. – Responde Humbert com um sorriso irônico.
Num jogo de xadrez, depois que Charlotte faz a sua jogada, Humbert comenta:
Isso não foi muito inteligente... Ia acabar acontecendo.
Em seu diário ele escreve sobre Charlotte:
A sra. Haze é uma burra... detestável.
Quando Charlotte descobre o seu diário e o confronta ele nega respondendo: É muito fácil explicar (o diário): Você tem alucinações, é louca.
Ele é retratado como um intelectual e não se submete a realizar as tarefas domésticas, cumprir com a obrigação conjugal, precisar de bebida e da foto de Lolita na cabeceira da cama para manter relações sexuais com Charlotte e até permitir uma perda de ereção; andar ao lado da esposa, se fazer de um homem romântico; já são concessões.
Na versão de 1997 vemos um homem que divide as tarefas diárias, num certo sentido mais que a própria esposa, mas evita ter sexo com ela.
A maneira como Humbert é retratado em 1962 nos remete as questões de gênero que submetiam a mulher, principalmente a mais velha a uma posição de inferioridade em relação ao homem.
A questão da maternidade é abordada de maneira bem diferente numa versão e outra: na de 1962 Charlotte é uma mãe afetiva com a filha, podemos ver cenas de manifestação carinhosa entre elas como: beijo no rosto, ela na cozinha preparando algo para comerem, ainda que se apresente uma mulher emocionalmente instável e com a imagem distorcida sobre si mesma e sobre a beleza da filha: ainda assim, uma mãe mais próxima. Na versão de 1997 nem tanto: elas raramente estão juntas a não ser quando brigam, outro aspecto interessante é
que a realização pessoal da personagem Charlotte não vem da maternidade, ou seja, bem diferente do papel social que era incutido na mulher.
Já o Humbert de 1997 parece mais conectado com seus sentimentos, com suas fragilidades, e se apresenta mais vulnerável, também uma representação do papel social do homem diferente para a época.
Ainda que o enredo do filme necessariamente implique numa triangulação entre Lolita, Humbert e Charlotte a presença física deles juntos é mais explorada na versão de 1997, na outra se apresenta um pouco menos e ela é na maioria das vezes sugerida. Nas duas versões a triangulação Humbert, Lolita e Quilty é explorada.
O roteiro de 1962 coloca o expectador distante da história, assistimos do lado de fora, já em 1997 existe um convite para estar na trama, muitas vezes na pele de um homem que sofre por um amor interrompido, na paixão com que o erotismo invade nossa intimidade, nas contradições que nossa humanidade nos coloca. Nos sentimos como Lolita, nos identificamos com a solidão e carência de Charlotte, ou seja, temos a sensação de que fazemos parte desse cenário.
Neste sentido, podemos pensar que uma das metáforas que a versão de 1997 utiliza é a da “porta entreaberta”. Somos convidados a experimentar o nosso lado voyer. Outro recurso que chama a atenção do expectador é a história ser narrada como um diário na primeira pessoa. O que nos faz lembrar do Mundo Líquido que Bauman (2011a) nos apresenta, onde a intimidade é compartilhada.
O personagem Quilty é retratado de maneira diferente: na versão de 1962 ele brinca com os sentimentos de Humbert sendo irônico e tenta enganá-lo até quando este vai matá-lo, antes de morrer se dirige a ele como “iguais”:
Vamos jogar como dois senadores romanos civilizados. Você não sabe perder capitão?
Por que não para de brincar com a vida e com a morte? Sou um dramaturgo, sei tudo sobre a tragédia, drama, comédia. Escrevi 52 roteiros e meu pai é um policial.
A lua estava triste. Assim como você e eu hoje. Ela é minha... sua. Ela é sua hoje. E a lua... – letra da música que
Quilty canta ao tocar piano antes de ser morto por Humbert, também retrata um padrão discursivo do filme: duplas mensagens, pois deixa dúvida se está se referindo a lua ou a Lolita. Quilty morre atrás de um imenso quadro de mulher perfurado pelas balas de revolver, o último tiro acerta o rosto da pintura da mulher.
O Quilty da versão de 1997 é descrito como um homem que gosta de “filmar meninas pequenas” em sua mansão, gosta de ver “duas garotas com dois garotos” . Quando Humbert vai matar Quilty no acerto de contas, na versão de 1962 em nossa maneira de ver, ele o faz para salvar a sua honra de “macho ferido” comportamento próprio do que anos atrás se esperaria de um homem, na versão de 1997 ele o mata por tudo que fez para sua amada Lolita.
Outro aspecto bastante interessante é como são representadas o poder da ordem e da moral: na versão de 1962 o primeiro hotel em que Humbert e Lolita ficam, está havendo uma grande convenção da polícia estadual. Na versão de 1997 Humbert está passando por uma ala de um hotel onde na parede um enorme quadro retrata a figura de lindas mulheres nuas como num paraíso e o som é de uma voz masculina (sugere a voz de um homem velho) dizendo: “O Senhor tudo
sabe, o Senhor tudo vê, o Senhor tudo perdoa”, ou seja, uma convenção de padres,
temos nas duas versões a representação da moralidade: a Igreja e a justiça.
Para justificar o mesmo quarto para Lolita e Humbert, ele argumenta na versão de 1962:
Lolita se debruça na cama e chega perto de Humbert, ela diz a ele:
Você é louco, quando minha mãe souber que ficamos sozinhos no mesmo quarto, ela vai se divorciar de você e me matar.
Ele responde: Nós não somos ricos e teremos que conviver de maneira muito próxima e eu sinto uma ternura por você...
Ela pede para que ele vá buscar outra cama e fica com a cama de casal. Na versão de 1997, essa justificativa passa a ser:
Lo querida... para os propósitos práticos, eu sou seu pai e sou responsável pelo seu bem estar. Mesmo porque não somos ricos, então, quando viajamos nos certificamos... Quero dizer, estaremos juntos, às vezes, quando duas pessoas compartilham o mesmo quarto de hotel, chegam a ... entram no... Como eu posso dizer?