• Aucun résultat trouvé

Esta vida é mesmo assim Vou passar o carnaval soltando bomba em Berlim (Música carnavalesca, Zé Poeta, Diário, 1943)

No período da II Guerra em Natal, são inúmeros os fatos pitorescos envolvendo brasileiros e americanos, alguns deles sem confi rmação. » Em decorrência da expansão nazista na primeira fase da II Guer-

ra, com número elevado de baixas nos países aliados, foi discuti- da, na capital federal, a possibilidade de cancelar o carnaval no Brasil, em 1942. O Rio de Janeiro chegou a fi car sem carnaval. Essa possibilidade não teve o menor eco em Natal, pois foi recha- çada pela imprensa local e pelos foliões potiguares. A se considerar também o fato do então prefeito Gentil Ferreira ser também pre- sidente da Federação Carnavalesca de Natal.

» Numa visita que fez ao Hospital Juvino Barreto (atual HUOL) para confortar alguns feridos de guerra, a atriz Merle Oberon perguntou a soldados da Força Aliada:

– Você matou algum nazista? O soldado americano disse que tinha morto um.

– Com qual das mãos? Insistiu a atriz. E diante da resposta do soldado, ela premiou-lhe a mão direita com um beijo.

Passando para o soldado brasileiro, ela repetiu a pergunta: – E você, matou algum nazista?

– Matei sim e foi à dentada, disse o soldado pulando da cama. » José Antonio Areia Filho – o Zé Areia – era boêmio, humorista nato

e não tinha trabalho fi xo. Embora fosse barbeiro e vivesse de vendas avulsas de produtos, tudo que conseguia vender era imediatamente gasto com bebidas. No carnaval virava Rei Momo, era uma fi gura

extremamente conhecida e popular na cidade. O aspecto marcante nele era a grande criatividade para sátiras e repentes. Infalivelmente alvejava oralmente quem pretendesse humilhá-lo.

118

Zé Areia com soldados americanos

Certa vez, Zé Areia vendeu um papagaio completamente cego a um americano. No dia seguinte, foi procurado pelo cônsul ameri- cano, juntamente com um soldado, a vítima. O cônsul declarou que o papagaio que ele vendera era cego! Um absurdo. Não prestava. Zé areia teve essa saída:

– Espere: o senhor quer o papagaio pra falar ou pra levar pro cinema?...

» Zé Areia não conseguia vender um de seus saguis, que tinha feridas na cabeça pelada. Daí teve um uma idéia para dar saída à mercado- ria. Arranjou um punhado de selos velhos e pregou-os na cabeça do bicho, fazendo uma espécie de capacete. Um americano, que resolveu comprá-lo, perguntou o que signifi cava aquilo na cabeça do animal, ao que Zé Areia esclareceu: – Sabe alfândega? Muita fi scalização!...

» Terminada a II Guerra, o potiguar Café Filho assumiu a presidên- cia da República com o suicídio de Vargas. Zé Areia aproveitou e conseguiu ir ao Rio de Janeiro onde pediu emprego ao velho amigo das Rocas. Café deu-lhe um cartão e o encaminhou para se engajar

Resposta do funcionário, um tanto maliciosa:

– Você vai tirar leite de pau (queria dizer que ele trabalharia no seringal, na extração da borracha).

Irritado, Zé Areia exclamou:

– Não quero mais o emprego, não! Quem tira leite de pau é... E foi embora.

» Subitamente, foi divulgada na Base Aérea de Natal a seguinte ordem: Todos os Ofi ciais do Esquadrão, instrutores e alunos deveriam en- trar em forma imediatamente para a chegada de uma autoridade. Quando todos, apressadamente, chegaram ao local, já se encontrava a Banda de Música com todo o seu efetivo. Esse detalhe despertou a atenção dos Ofi ciais. Por que a Banda? Alguém muito importante deveria estar sendo aguardado. Em seguida, veio o esclarecimento: Em instantes um avião C-47 pousaria em Natal para abastecimen- to. Vinha a bordo uma extensa comitiva e um General Americano. O C-47 entrou no tráfego, apresentando-se para o pouso. Fez um circuito completo como se estivesse colaborando em proporcionar mais tempo ao apronto da Guarda de Honra. Eufórico, o mestre da Banda ergue os braços e dá início ao “Deus Salve a América”, certamente a melhor homenagem musical que se poderia prestar ao General Americano. Cortados os motores, abriu-se a porta e os Ofi ciais começaram a descer... todos brasileiros e... surpresos com a homenagem. O Comandante da Base não conseguia esconder sua afl ição. A Banda depois de executar três vezes “Deus Salve a Améri- ca”, mudou para o hino do “US Army” e nada do General Americano. Somente depois surgiu a explicação: O único General que desem- barcara chamava-se Americano Brasiliano Freire e na ocasião em que o telegrafi sta transmitiu a mensagem, fi zera apenas menção de que “o General Americano e sua comitiva chegarão a Natal”. » Um caso pitoresco aconteceu já em 1950, quando por sugestão do

Tenente Aviador Rivaldo Gusmão de Oliveira Lima e com autoriza- ção superior, foi liberada a pintura de desenhos artísticos no nariz do avião. A partir daí, começaram a surgir fi guras de mulheres

no lado esquerdo da fuselagem, próximo ao número de matrícula. Os B-25 de Natal passaram então a exibir suas “tatuagens” como a “Nega Maluca”, o “Amigo da Onça” e tantos mais. Na cidade existia a famosa boate de Maria Boa e um grupo de tenentes resolveu então homenageá-la. Somente quem não acreditou no fato foi a proprietária da boite. Os tenentes foram até a cidade, colocaram-na no carro e rumaram para o estacionamento dos B-25. A visitante, visivelmente emocionada, chegou às lágrimas quando, à sua frente, pintada ao lado da matrícula 5079, refl etia sob o clarão do hangar, a inscrição “Maria Boa”...

(Dois últimos tópicos extraídos do livro “História da Base Aérea de Natal”, de Fernando Hypólito da Costa).