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Longueur de cohérence transversale

Os dois maiores adversários e maiores líderes populares do estado, ambos de origem udenista (Aluízio Alves e Dinarte Mariz), apoiaram o movimento: o então governador Aluízio Alves (já no PSD), elaborou nota à população na madrugada do dia 1 de abril no jornal “Tribuna do Norte” onde informou que estava “acompanhando os acontecimen- tos que se desenrolavam no sul do país a partir da crise... que atingiu a disciplina da Marinha e guarnição do exército em Minas Gerais [...] Todo estado está em ordem [...] a tranquilidade deve pairar acima das paixões das pessoas e dos grupos... Tudo fazer para solução dos problemas..., pela unidade e respeito às forças armadas”.

A escritora Mailde Pinto Galvão destaca que “o fi nal do texto do governador era o indicativo, Aluízio Alves assumiu com os militares o poder da ditadura no Estado e, usando o Ato Institucional com leis de exceção, atribui-se o direito de, paralelamente aos militares, proceder à investigação e prisões políticas. Contratou dois policiais especializados a quem atribuiu poderes absolutos e excepcionais, com toda mordomia oferecida aos hóspedes ofi ciais”.

O livro de Mailde destaca ainda que “os policiais Carlos Moura de Morais Veras, com treinamento no FBI, EUA e José Domingos da Silva, experientes e efi cientes usaram métodos semelhantes aos praticados pelos nazistas na II Guerra Mundial”.

O centro da “subversão” era a prefeitura de Natal, outros pontos de ação especial eram as Faculdades e o Correio. Posteriormente, a preocupação militar incluiu os estudantes secundaristas. A quantidade de prisões foi grande e o coronel Esteves Caldas chegou a requisitar

Grupo Ação Popular e o pastor José Fernandes Machado. O prefeito Djalma Maranhão, então com 50 anos de idade, e grande parte dos seus auxiliares diretos também foram presos.

Havia em Natal a Comissão Geral de Investigações instalada pelos militares, duas outras ditas “de alto nível” criadas pelo governador e ainda outras implantadas em cada repartição pública estadual, muni- cipal e federal.

Ocorriam muitas denúncias pessoais e inúmeras pessoas foram submetidas a inquéritos, nosso vizinho advogado Walter Nunes foi uma dessas vítimas a partir de sinalização feita por outro morador próximo que não gostava dele.

No dia 21 de julho de 1964, foi encerrada no estado do Rio Grande do Norte a campanha do “Ouro para o Bem do Brasil”, iniciativa da cúpula militar, que se constituiu da contribuição de um dia de ven- cimento por parte de militares e funcionários civis. O objetivo era auxiliar o pagamento da dívida externa do País. Somente a Base Aérea de Natal contribuiu com o total de Cr$ 3.745.890,00.

Entre 1968 e 1974, era muito comum em Natal os desfi les infantis “homenagearem” as forças armadas. Os quartéis organizavam “Colônias

de Férias” e procuravam cativar a população a partir das crianças.

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Desfile do Jardim de Infância Modelo com faixa saudando as Forças Armadas, Praça Pedro Velho, 6 de setembro de 1970. À direita, de gravata, J. Sizenando aguarda a passagem do filho Newton

Meu pai não perdia uma Parada de 7 de Setembro, admirava os militares e não reclamava quando os políticos eram cassados, insistia em alertar para não nos envolvermos em reuniões e conversas políti- cas. Em 1967, com 15 anos de idade, já tinha perto de 1,80m de altura, o rosto cheio de espinhas, era atleta da seleção infantil do Colégio 7 de Setembro e voltava de um treino noturno. Ao passar pela Rua Seridó ao lado do Atheneu me assustei com a explosão de uma bomba dentro do colégio e apressei o passo na direção de casa. Imediatamente tive a lembrança das recomendações do meu pai, apressei mais ainda o passo, e não olhava para trás com medo. De repente, escutei pisadas de muita gente atrás de mim, levei uma rasteira e caí de queixo no chão. Ainda caído, virei o rosto assustado e visualizei chocado cerca de 10 pessoas. Um deles, o meu agressor, foi o único que gravei o rosto. O sangue no queixo sujou minha camisa, fui arrastado até o colégio por policiais que eram acompanhados de alguns alunos noturnos do Atheneu, todos bem mais velhos que eu. Lá fi quei trancado numa sala

e fui submetido a um interrogatório intenso. Um cara insistia que eu era do PCBR e me fazia perguntas que eu não conseguia entender o sentido. Fui liberado provavelmente graças à intervenção do dire- tor Marcondes Mundim Guimarães. Ainda hoje guardo a imagem do meu agressor, que não era militar e sim estudante “direitista” do Atheneu noturno.

Seis anos depois, quando era aluno de engenharia na UFRN e me articulava para ser candidato a vice-presidente do Grêmio Estudantil, fui discretamente alertado por um funcionário de que não poderia participar da chapa.

Já nos anos 1970, Eduardo Alexandre Garcia (Dunga), então repórter do Diário de Natal, dirigia seu fusca pela Praia dos Artistas

No dia seguinte, Dunga foi pautado para ouvir o Secretário de Segurança, enquanto o repórter Jânio Vidal ouviria o Comandante da Polícia. Ambos entrevistados afi rmaram que “era tudo mentira do jornal, aquilo não aconteceu”. O coronel entrevistado por Dunga foi ao Diário e falou com o diretor Luiz Maria Alves. Dunga procurou Aléxis e disse-lhe que se a segunda matéria não fosse publicada, ele

sairia do jornal. A matéria não foi publicada e ele foi demitido. Revoltado com a censura nos jornais, Dunga pensou “se não posso dizer nos jornais, vou dizer no muro”. E assim, no dia 1º de outubro de 1977 fez a primeira exposição na Galeria do Povo, no muro de uma casa, no contorno da Ladeira do Sol. Com todo movimento da Praia dos Artistas, a repercussão foi imediata. Poemas e quadros de Luiz Carlos de Freitas Júnior, Novenil, Carlos Gurgel, do próprio Eduardo Alexandre e de Dulce, a fi lha do dono da casa cujo muro era usado

para as exposições. Algum tempo depois, o pai de Dulce chegou de Macau, onde trabalhava, para passar as férias natalinas e não permitiu mais o uso do muro. Um novo muro foi ocupado na Praia dos Artistas e o movimento da Galeria do Povo continuou por mais nove anos.