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Exemple : taux de production pour des neutrons ultra-froids

Ninguém falava de infl ação, só de carestia. Sempre que o homem sair com os amigos e voltar tarde da noite espere-o linda, cheirosa e dócil. (Jornal das Moças, 1958)

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958 foi o ano que comecei a folhear e tentar ler “O Cruzeiro” e “Manchete”, foi o ano que o Brasil ganhou a primeira copa do mundo de futebol. Precocemente, acompanhei a Copa em algumas transmissões pelo rádio e nas reportagens das revistas, vibrei junto com os adultos. Naquele ano colecionei o álbum de fi gurinhas “20.000 Léguas Submarinas” do fi lme baseado na obra de Julio Verne. Aprendi quem eram JK, Éder Jofre, Maysa, Falcão Negro, Zé Trindade, Carlos Lacerda, Maria Ester Bueno, Jorginho, Cocó, Marta Rocha, Adalgisa Colombo, Garrincha, Pelé, Aída Curi, Stanislaw Ponte Preta, Amigo da Onça, Yuri Gagary, Dinarte Mariz, Aluízio Alves e Cacareco (rinoceronte do Zoo de SP “eleito” com 100 mil votos de protesto para vereador).

As mulheres cariocas estavam liberadas para pesar mais de 60 quilos, pois só assim seriam escolhidas para o grupo das certinhas do Lalau, o Stanislaw Ponte Preta, personagem criado pelo jornalista Sérgio Porto.

Ao mesmo tempo que o baru- lhento DKW-Vemag aparecia nas Ruas de Natal, juntamente com o Simca Chambord e o Dauphine da Willys. A nota de Cr$ 1,00, de cor azulada, surgia com a estampa do Marquês de Tamandaré, na frente, e a Escola Naval do Rio de Janeiro, no verso.

A Avenida Rio Branco tinha trânsito nos dois sentidos e lá circu- lavam as lotações da linha Rocas-Quintas. Já na Rua João Pessoa, em frente ao Caldo de Cana de seu Pedro Costa, tinha a parada dos ônibus “Circular”. Esses ônibus tinham dois trajetos inversos: iniciando via

Praça Pedro Velho ou via Rua Maxaranguape.

Os jornais davam notícias sobre “curras” que agitaram a província. Baracho era o bandido mais conhecido e temido na cidade. Pecado era o apelido do líder estudantil bagunceiro que surgia no Atheneu, nessa época ainda sem conotação política, que só viria a ocorrer após a Revolução de 1964.

Havia uma excessiva pronúncia dos erres pelos cantores e locu- tores. Na Rádio Poti tinha locutor anunciado como “RRui RRicardo”. Esse hábito era tão característico quanto as músicas da “Era do Rádio” e os programas de auditório comandados por Genar Wanderley, Glorinha Oliveira e Agnaldo Rayol. Só viria a cair em desuso nos

no auditório do Cinema São Pedro, à tarde o quente era “Vesperal de Atrações” com Fonseca Júnior e Alnice Marques no Cinema Poti. Os primeiros moderninhos, chamados de playboys, circulavam em lambretas, com óculos escuros (mesmo à noite), camisa “Volta ao Mundo”, blusão de couro por cima e botas que substituíam os sapa- tos “Vulcabrás”. Com o cigarro na boca (Continental, Minister ou Hollywood) tentavam aparentar rebeldia e independência. Roberto Lira, Luzenildo Porpino, Marcílio Carrilho, Amador Lamas, Buriti e o fotógrafo Rodrigues comandavam os primeiros passos da “Juventude Transviada” em Natal com pegas na Pista da Hermes da Fonseca. Roberto descia a ladeira do sol em alta velocidade com sua lambreta turbinada, chegava a fi car em pé na mesma. Capotamentos ocorreram diversas vezes e a Polícia chegou a prender Roberto para desespero de sua mãe dona Lourdinha.

122 Avenida Rio Branco em 1958, foto Jaeci Galvão

Os jovens começavam a mudar a forma de cortar o cabelo, Os primeiros topetes (nós chamávamos de “trunfas”) apareciam sob infl u- ência de James Dean e Marlon Brando. As cabeleiras eram penteadas com o pente fl amengo (famoso por ser feito de material inquebrável).

Antes disso, os meninos ainda tinham os cabelos cortados “à zero” na base da máquina do barbeiro seu Miguel da Rua Ulisses Caldas. Só sobrava um pouquinho de cabelo na frente. Sapatos novos ou recém- engraxados eram visados para “selo”, que consistia em pisá-los.

Após a copa do mundo, meu interesse pelo futebol surgiu de forma natural: acompanhei as narrações de Aluísio Menezes (pela Rádio Nordeste) dos campeonatos potiguares de 1959 e 1960. Comecei tam- bém a ouvir resenhas esportivas, aprendi os nomes dos jogadores. E passei a ser torcedor alvinegro (ABC, Botafogo e Centro Náutico Potengi).

O menino Etelvino Menezes Caldas, meu vizinho e morador da Rua Felipe Camarão, acompanhava o tio Aluísio nas transmissões de futebol do Juvenal Lamartine.

Henrique Eduardo Alves morava com os pais no Rio de Janeiro, mas vinha passar férias na casa do Sr. Militão Chaves, grande amigo da família.

As interrupções de energia elétrica eram frequentes e prolongadas na cidade. Muita gente fi cava sentada nas cadeiras ao longo das calça- das conversando e contemplando o céu estrelado.

As novidades para a criançada eram as estampas com fi gurinhas Eucalol, o chocolate “torrão” e o refrigerante “Crush”. O Trio Nagô era o sucesso com “Cabecinha no Ombro” (“encosta tua cabecinha no meu ombro e chora...”), meu pai preferia a Orquestra de Mitch Miller com “A Marcha do Rio Kwai”.

A leitura preferida das adolescentes era a “Revista do Rádio”, enquanto os rapazes disputavam a “Revista do Esporte” e a “Gazeta Esportiva”.

Gemada em pó da Kibon era a novidade na nossa casa e conheci o primeiro LP de 12 polegadas na casa da minha prima Julieta.

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Aderbal Bezerra em ação no Ginásio Sílvio Pedroza, foto do acervo de Aderleth Bezerra de Araújo

José Vasconcelos era o novo humorista que se destacava no cenário radiofônico. Foi dele a frase “Varig é a abreviatura de Vários Amigos Reunidos Iludindo Gaúchos”. Ele tentou montar uma “Vasconcelândia” (versão brasileira Disneylândia) em São Paulo, mas fracassou.

Telê Santana era o “fi o da esperança” ponta direita do Fluminense; Jorginho o craque do ABC e do RN, mas o Trio Irakitan é que era o maior orgulho dos potiguares. Um dos seus componentes, João Costa Neto (Edinho), era papa-jerimum.

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Recorte de jornal sobre o Trio Irakitan. (Acervo de Luiz Gonzaga Cortez)

Já no início dos anos 1960, aos domingos logo cedinho o programa preferido do meu pai era nos levar, de lotação ou a pé, até a Ribeira. No estuário do Rio Potengi acompanhávamos as regatas e torcíamos pelo Centro Náutico em sua batalha semanal contra Sport e Riachuelo. Imagens marcantes, beleza plástica inesquecível. Meu pai fazia questão de chegar bem cedo, de visitar antes o Cais do Porto, de ver os navios recém-chegados, de nos explicar as bandeiras e respectivas nacionali- dades. Ele acompanhava atentamente os preparativos que antecediam a competição e nos explicava o signifi cado de tudo. Sempre aprovei- tava para relembrar sua época de remador, explicava que o esporte náutico envolvia mais diretamente a classe média nos anos 1930 e 1940, que o público feminino acompanhava as competições de perto. Numa das vezes que estávamos visitando o Centro Náutico, acom- panhei a conversa dele com um senhor grisalho baixinho, sorridente, com a pele muito queimada pelo sol. Era Ricardo da Cruz, um dos heróis do famoso Raid Natal-Rio. Fiquei curiosíssimo com a históriad

e já quando nos deslocávamos para casa fi z muitas perguntas para o meu pai, “como é que eles comiam? Só comiam peixe? Como é que eles preparavam o peixe? Como é que faziam cocô?”, meu pai fi cou meio enrolado pra explicar tudo...

Um ponto certo de parada era o stúdio do fotógrafo João Alves de Melo, na Rua Dr. Barata, enquanto papai conversava, eu olhava as fotografi as cuidadosamente fi xadas em quadros nas paredes internas do ambiente. Melo era amigo de infância de papai, companheiro dos tempos áureos do remo e durante muitos anos o fotógrafo mais procu- rado da cidade. As belas imagens captadas pela sensibilidade artística e pela técnica apurada de João Alves sintetizavam a história de Natal na primeira metade do século XX.

conhecidíssima na cidade, exagerava nas estórias que contava, era uma pessoa dócil, mas de vez em quando se metia em brigas.

Certa ocasião Tavares resolveu aceitar o convite de Raul Capitão para explorar uma mina no município de Lajes onde estavam desco- brindo sheelita e outros minérios. Conseguiu dinheiro emprestado com Firmino Moura, montou uma pequena equipe de ajudantes para o trabalho braçal de escavações e partiu para a região central.

Dois meses depois Firmino encontra Tavares na Ribeira e pergunta: “E aí conseguiu pegar muita sheelita?”

Tavares com seu exagero característico respondeu:

“Todo mundo perto de mim enchia caminhões de sheelita, mas eu cavei tanto que já tava alcançando o Japão e não achei p... nenhuma”. Papai dizia que Tavares era péssimo datilógrafo: devido à largura e tamanho do dedo, cada toque dele acionava simultaneamente duas teclas. Imagine ele hoje usando um telefone celular 3G...!

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Casal Aluísio Lamartine, Benedito Amaro, Gulnar Paiva, Militão Chaves, Milza Chaves, Cecília Lira, Olga Lamartine, Henrique Alves e Hiperides Chaves, 1959 Foto do acervo de Olga Lamartine