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Diffraction par un réseau

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izem que “quem não conheceu Natal na época de Djalma Maranhão, não conheceu Natal”. Exageros à parte, tantas foram as realizações telúricas da administração DM que a cidade se transformou numa festa permanente. Esses eventos eram bem mais simples e mais baratos do que os shows atuais de fi m de ano organizados pela prefeitura e absurdamente realizados no gramado do Machadão. Mas eram muito mais autênticos.

Djalma Maranhão foi esportista, professor de educação física do Colégio Atheneu, praticou boxe, futebol e basquete, gostava de papear no Grande Ponto e na Ribeira. Também participava de serestas junto com violeiros da cidade.

Djalma foi prefeito de Natal duas vezes. Restaurou todos os autos populares, numa autêntica revalidação do folclore natalense. Promoveu vários congressos brasileiros de folclore, praças de cultura, feiras de livros, edifi cou a Galeria de Arte e bibliotecas públicas.

No início dos anos 1960, o RN dividia-se entre as lideranças rivais do senador Dinarte Mariz e do governador Aluízio Alves. O partido comunista encontrava-se na ilegalidade e sobrevivia no estado pela liderança de Luis Maranhão Filho e Vulpiano Cavalcanti.

Como terceira força, surgia o prefeito Djalma Maranhão, político da esquerda nacionalista.

Aluízio e Djalma foram eleitos governador e prefeito (Djalma pela segunda vez) no ano de 1960, em aliança política, apoiados pela coligação Cruzada da Esperança. Em poucos meses de admi- nistração, governador e prefeito começaram a divergir. Aluízio Alves tinha prestígio e força popular e administrava com recursos adicio- nais do programa americano para América Latina “Aliança para o Progresso”. Nesse período foi construído pelo governo estadual o Instituto Kennedy e a Praça Kennedy, com a presença do senador Robert Kennedy em Natal. Tempos de Guerra Fria e o governo ame- ricano enviava grande quantidade de alimentos, principalmente leite em pó, que eram distribuídos com a população, nem sempre a mais humilde, da cidade.

O Nordeste era um potencial barril de pólvora com as ligas cam- ponesas se organizando com Francisco Julião, que apoiara a eleição do governador Cid Sampaio em Pernambuco. Aluízio Alves era um líder popular brasileiro confi ável para os americanos.

O prefeito, com difi culdades econômicas, realizava sua admi- nistração priorizando os programas de alfabetização popular e democratização da cultura. Boa parte dos seus auxiliares eram jovens estudantes universitários idealistas, uma parcela deles de tendência socialista/comunista.

Em todos os períodos de Natal, Ano Novo, Reis e São João toda minha família ia assistir as exibições folclóricas no palanque normal- mente armado na esquina da Ulisses Caldas com a Rio Branco. O “Boi

a população crescera multiplicada por quatro e estava desenhado um quadro de colapso da escola pública sem condições para suportar a demanda existente. A campanha eleitoral de 1960 havia ocorrido em um clima de mudança e pela primeira vez Natal havia escolhido seu prefeito pelo voto direto.

Djalma Maranhão, descendente de Jerônimo de Albuquerque Maranhão, fundador da cidade, defendeu a democratização da edu- cação com o acesso do povo às fontes do saber. Implantou o primeiro telefone público da cidade, criou a campanha pioneira “De Pé no Chão Também se Aprende a Ler”. Esse processo de alfabetização foi popularizado em barracos montados para servirem de salas de aula e foram alfabetizadas vinte e cinco mil crianças.

Interessante saber que esse processo foi alavancado no início de 1961 a partir de uma reunião do Comitê Nacionalista das Rocas, presi- dido pelo então presbítero e funcionário dos Correios José Fernandes Machado, meu ex-professor de português do Colégio 7 de Setembro. A referida reunião visava discutir a erradicação do analfabetismo nas Rocas e foi realizada na Igreja Presbiteriana do bairro. O secretário municipal de educação Moacyr de Góes estava documentado com estatísticas do crescimento das escolinhas e, a certa altura, admitiu a má notícia de que a prefeitura não teria recursos para fazer a sonhada rede de escolas municipais. Longa foi a discussão e pesada a cobrança dos compromissos assumidos na campanha de Djalma Maranhão. Lá pras tantas, no meio daqueles quarenta homens e mulheres, alguém disse: Se não tem dinheiro pra fazer uma escola de alvenaria, faça uma escola de palha, mas faça a Escola!

A discussão pegou fogo. No fi nal submetida a votos a escola de palha foi aprovada pelo Comitê. A proposta foi rapidamente apro- vada pelo prefeito que pessoalmente acompanhou os trabalhos de montagem da primeira escola nesses moldes, dirigido pelo próprio marceneiro da prefeitura. Cada unidade de palha era denominada

Acampamento Escolar e se constituía num pavilhão de 30 metros por 8 metros divididos em 4 classes separadas por quadros negros e quadros murais, sem paredes laterais para evitar distorção acústica e permitir ventilação adequada.

Foi editado um livro para o Programa “De Pé no Chão Também se Aprende a Ler” inspirado na experiência cubana de erradicação do analfabetismo. O boletim da revista UNICEF 27/62 elogia a cam- panha como solução realizável no combate ao analfabetismo no Terceiro Mundo.

A alfabetização de adultos foi aprimorada em 1962, quando o educador Paulo Freire veio a Natal e preparou uma equipe específi ca para educação de adultos, adotando um método revolucionário para alfabetização em menor tempo. O governador Aluízio Alves havia feito experiência pioneira, com Paulo Freire, em Angicos, cidade onde nasceu.

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João Goulart e Djalma Maranhão, 1963

Mas Djalma também foi responsável por algumas obras polêmicas como o Palácio dos Esportes que restringiu a área aberta da Praça Pedro Velho. A construção da Rodoviária “Presidente Kennedy” (com a destruição de parte da praça original) é questionada por alguns como o início do declínio da Ribeira.

Maranhão era fi el ao presidente João Goulart e foi deposto pela Revolução de 1964. Já ex-prefeito, alegou, em um texto escrito ainda no exílio em Montevidéu, que foi traído pelo Comandante da Guarnição de Natal, coronel Mendonça Lima, o qual havia assegurado lealdade ao ex-prefeito. Djalma foi preso com sentinela de fuzil embalado à vista. Foi transferido seguidamente para estabelecimentos militares em Natal, Fernando de Noronha e Recife. Foi libertado por decisão do Supremo Tribunal Federal.

Anos mais tarde demonstrou grande mágoa por ter sido demitido do cargo de Diretor do Departamento de Documentação e Cultura, por ato do governador Aluízio Alves.

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O garoto André Barros Lopes em frente ao primeiro telefone público de Natal Foto do acervo de André Barros