• Aucun résultat trouvé

Analyse de l'existant

2.3 Localisation en ligne

O período de treze anos da 1ª República foi, segundo Jorge do Ó, o momento da emergência da Psicologia Experimental. A ciência da educação tende a ser definida como uma psicologia aplicada (pedagogia “psi” 96),para a qual contribuíram os textos e experiências educacionais, quer dos americanos Hall e Dewey, quer dos europeus Montessori, Decroly, Binet, Kerchensteiner, Claparéde, Ferriére – e também dos portugueses Faria de Vasconcelos, Adolfo Lima, Alves dos Santos e Viana de Lemos, entre outros97.

96

Jorge do Ó chama de “pedagogia psi” a uma forma de pedagogia baseada na psicologia, sendo esta considerada, em finais do séc. XIX, uma ciência não exata que trata a moral e o comportamento humanos.

97

Formados em Genebra, no Instituto Jean-Jacques Rousseau, e próximos de pedagogos eminentes como Claparéde ou Adolphe Férriére, surgiram entre nós alguns eminentes praticantes e difusores de novos ideais pedagógicos, dos quais destacamos: António Sena Faria de Vasconcelos (1880-1939), que foi, com António Sérgio, o principal autor da Reforma de João Camoesas, apresentada ao Parlamento em 1923, tendo lecionado, na Escola Normal da Faculdade de Letras de Lisboa, a cadeira de Psicologia Geral; Álvaro

54

O grande pressuposto científico de finais do século XIX, segundo o qual a diversidade entre os espíritos seria inata-congenital e já não, como antes se admitira, fruto da educação externa, baseou-se em inúmeras investigações experimentais:

A enorme mole de artigos científicos e outros trabalhos académicos iria documentar as diferenças individuais numa imensidão de registos: da fadiga às associações e à duração dos actos psíquicos, da imaginação à memória e desta à atenção, à percepção e aos esquemas visuais, da inteligência, ao trabalho e à habilidade, etc. Só esse labor sistemático permitiria acabar de vez com a nefasta influência da escola tradicional que não distinguia ninguém na sua visão unidimensional e massificadora da criança (...)98. A actividade mental não podia mais ser percebida como uma estrutura composta de faculdades autónomas e isoladas. A memória, a imaginação, a inteligência, a vontade, a razão, a linguagem, passaram a ser analisadas pela geração experimentalista como instrumentos de acção.99

A partir dos resultados das pesquisas e observações de médicos, psicólogos e pedagogos, constatou-se a necessidade de uma escola nova onde os métodos e as técnicas educativas se veriam adaptados à realidade particular de cada criança e às suas caraterísticas inatas. Neste sentido, reconhece-se pela primeira vez a necessidade de planear o processo de ensino-aprendizagem para uma “educação funcional” (Claparéde) de acordo com as necessidades intelectuais e aptidões especiais das crianças, o que não acontecia anteriormente, quando esse processo partia de circunstâncias criadas artificialmente. A psicologia infantil começou por validar o princípio de que a estrutura moral e intelectual das crianças e jovens diferia, segundo as várias etapas-estádios do seu crescimento, dando origem a uma “escola por medida” (Claparéde), ou seja, adaptada à idade, ao sexo e à mentalidade de cada um dos seus alunos, numa abordagem tanto quanto possível individualizada.

A necessidade de rentabilizar os recursos humanos atendendo às caraterísticas e qualidades individuais (a memória, a atenção, a motricidade e a inteligência (…) probidade, o ardor ao trabalho, a lealdade, a obediência, a modéstia, etc.)100, dará azo a uma nova preocupação pela orientação profissional do aluno, tornando-se argumento para a reorganização dos planos de estudos, quer no ensino liceal, quer no ensino técnico.

Os modelos educacionais e os ideários pedagógicos que viriam a ser associados ao movimento apelidado de “Escola Nova” desenvolvem-se a partir de finais do século XIX, a par da “psicologia”, uma nova ciência em emergência nos meios académicos dos

Viana de Lemos (1881-1972), docente na Escola Normal de Coimbra e da Escola Normal de Lisboa, de cujas obras escritas destacamos Trabalho manual na escola, publicado em 1919; Adolfo Lima, defensor da escola única, que realizou experiências pedagógicas segundo o ideário da Escola Nova, na Escola Oficina nº 1 de Lisboa, criada em 1905, e na Escola Normal Primária de Lisboa, onde foi professor de Metodologia; e Joaquim Augusto Alves dos Santos (1866-1924), que funda em 1913, na Universidade de Coimbra, o primeiro laboratório de Psicologia e Pedagogia Experimental, de cujas obras destacamos Educação Nova: as bases, Lisboa, 1919.

98

Candeias, 1995 :13, citada por Jorge do Ó, 2003: 128.

99

Do Ó (2003): p. 128. 100 Idem, pág. 133.

55

países do centro e norte da Europa, particularmente, Suíça, França, Bélgica e Alemanha. Em 1913, foi apresentada uma proposta de Lei para a criação de escolas novas portuguesas, tendo sido rejeitada pelo Parlamento101.

Em 1921, o Congresso da Liga Internacional para uma Educação Nova (Ligue Internationale pour une éducation nouvelle), realizado em Calais, adota os sete princípios da “Educação Nova”.102

Estes exprimem principalmente duas grandes tendências:

- A descoberta das caraterísticas psicológicas da criança e, em consequência, a mudança da atitude educacional ;

- A preocupação por uma formação global do indivíduo conciliando o interesse coletivo (educação cívica) e as motivações individuais.

Numa clara reação contra o modelo da escola tradicional, propõe-se em alternativa, uma escola aberta, descentralizada e crítica da sociedade. Nela são valorizadas as interações com o meio social e as vivências dos alunos, incorporando no curriculum a cultura circundante. Dá-se uma particular importância à participação, autogestão e sentido de responsabilidade. O aluno torna-se o principal protagonista do processo de ensino / aprendizagem desenvolvendo-se em torno dele, os programas curriculares e a atividade profissional do docente.

Os princípios que regem as relações sociais na escola passariam a ser: atividade, vitalidade, liberdade, individualidade e coletividade, estreitamente relacionados entre si. Neste sentido, o currículo deveria ser diversificado, contemplando todos os aspetos da formação integral do indivíduo: a "vida física", a " vida intelectual", a "organização e procedimento de estudo", a "educação artística e moral" e a "educação social".

O professor conduziria o processo de aprendizagem partindo da experiência do aluno, da observação, da manipulação e de atividades sobre realidades concretas como forma de se atingir, através do método indutivo, a abstração. Dentro deste entendimento, defende- se a relação entre a teoria e a prática, o que levará à valorização dos trabalhos manuais. Os materiais didáticos continuam a incluir livros didáticos, associados de um conjunto de recursos de diversa natureza que o aluno utilizaria nas suas experiências e atividades. A avaliação seria preferencialmente de natureza qualitativa103.