Na questão 08, propõe-se aos informantes a manifestar uma valorização pessoal entre duas línguas, a inglesa e a espanhola. Os resultados são apresentados, no gráfico 4:
Gráfico 4: Crenças sobre o prestígio/desprestígio da língua espanhola perante a língua inglesa
Fonte: o autor
Note-se que a metade dos informantes manifestou que a língua espanhola não é percebida por eles como menos importante que a língua inglesa. Três dos informantes pertencem ao quarto ano (E, G e H) e um pertence ao primeiro ano (A), sendo suas respostas apresentadas conforme os dados (17), (18), (19) e (20):
(17) Importante não, porém – o inglês – é uma língua mais valorizada socialmente, o que é uma pena, visto que toda cultura é válida e importante. (18) Não.
(19) Não, apenas mais difundida. (20) Não.
Pelas argumentações dos informantes E e H, é possível observar que, apesar deles não considerarem o inglês mais importante do que o espanhol, têm a crença de que a importância do inglês radica no prestígio que ela possui na sociedade, um fato que para o informante E resulta ser negativo porque na visão dele, pode levar a desvalorizar outras culturas, e com elas, outras línguas. Em contrapartida, os informantes D e F afirmaram que o inglês é sim importante, mas não necessariamente mais do que o espanhol. A continuação apresenta-se as razões deles, conforme os dados (21) e (22):
4
2 2
Não Sim Ambas são importantes
No D E INFO R M ANTE S
(21) Comercialmente, mas não tanto.
(22) Acredito que o inglês é sim uma língua importante mas isso mas isso se deve por questões políticas e sociais (Espanhol )
Observa-se pelas respostas dadas pelos informantes que não afirmaram que o inglês seja mais importante do que o espanhol, até porque é evidente a atitude positiva do informante F no depoimento ao desenhar um coração, mas ambos reconhecem a importância que o inglês possui em comparação ao espanhol, e que por essa razão eles acreditam que a origem dessa importância deve-se estritamente a questões econômicas, políticas e sociais. Por outro lado, os informantes B e C foram os únicos informantes que concordaram em não atribuir importância a uma língua em detrimento da outra, conforme os dados (23) e (24):
(23) Ambas tem sua importância.
(24) O inglês é sim mais utilizado, porém os dois atribuem igual importância.
Pelas respostas dadas acima, percebe-se que estes informantes mantiveram uma posição mais neutral, porque eles acreditam que ambas línguas são importantes, porém, possuem uma atitude positiva perante as mesmas.
Ao analisar as respostas de modo geral, de um lado observa-se opiniões que se encontram relacionadas com aspectos sobre o prestígio das línguas, explicitadas no referencial teórico pelo Alvar (1990) e Moreno Fernández (2008), o qual é manifestada através da atribuição de valor sobre determinada língua ou modalidade linguística pelos sujeitos.
Se tratando da língua inglesa, segundo Rajagopalan (2008), pode-se afirmar que ela ainda é vista no mundo como ―representante de um poder hegemônico associado a uma única superpotência‖ (RAJAGOPALAN, 2008, p. 19), e que neste sentido, seja ainda uma verdade o fato que a língua inglesa possua um prestígio de caráter global. Hoje em dia, resulta fácil conhecer, através dos informes sobre a influência das línguas estrangeiras no mundo, que o inglês é a língua mais prestigiada no mundo por ter-se tornado muito importante para as relações internacionais entre países, em todos seus âmbitos, sendo este um fato que muitas vezes tem distraído e adiado discussões sobre o fenômeno do imperialismo linguístico e a intromissão de valores culturais associados à língua inglesa, que podem gerar um impacto negativo sobre a vida dos cidadãos, ao não respeitar a identidade linguística e cultural de muitos povos.
Outro aspecto que chama a atenção nas respostas dos informantes é que, apesar do reconhecimento do prestígio do inglês, essa situação não leva aos informantes a enxergar a língua espanhola como desprestigiada, mas reconhecem que pode correr risco de ser menos valorizada cultural e socialmente em comparação ao inglês, fato que poderia acarretar em uma possível e continua invisibilidade, uma preocupação que pode se justificável nas palavras de Rajagopalan (2008), porque segundo este autor, ―a língua inglesa ainda é vista em muitos países como uma ameaça às línguas locais e regionais‖ (RAJAGOPALAN, 2008, p. 18). Deste modo, pelas respostas dos informantes, confirma-se a existência de alguma preocupação sobre os riscos desse prestígio e sobre as possíveis consequências.
Se tratando das políticas linguísticas, certo é que no caso do Brasil, a valorização do inglês, tanto a nível governamental como no sistema educacional, fundamenta-se pela vigente e atual influência das políticas linguísticas globais, que orientam as políticas linguísticas brasileiras em manter posicionada essa língua estrangeira como prestigiada e ligada a interesses político-sociais e econômicos- globais; sendo este um fato real que dialoga com algumas respostas dos informantes. Justamente o papel das disciplinas dos cursos de Letras, e do curso em si, tem por objetivo reflexionar, questionar e discutir as razões e consequências dessas políticas linguísticas com os docentes em formação, para buscar soluções plasmadas em normas educacionais e na prática docente, que procurem evitar a aparição de conflitos de índole linguístico e social. Pode-se afirmar que o curso de Letras da universidade, vem dando conta dessa reflexão crítica necessária, neste aspecto.
Nos resultados da questão, pode-se observar também que não houve informantes que mostraram alguma atitude negativa para com a língua espanhola que guardem alguma relação com o prestígio do inglês; muito pelo contrário, é evidente a consciência linguística dos informantes, ao identificar que existem fatores alheios a questões linguísticas, que incidem na valorização da língua inglesa, e a maturidade sociolinguística, sendo que eles não atribuem uma manifesta importância (ou prestígio) a uma língua em detrimento de outra. Porém, torna-se evidente que o trabalho acadêmico no curso de Letras foi satisfatório, mesmo que as respostas da maioria dos informantes são decorrentes de uma reflexão crítica sobre
aspectos linguísticos e de políticas linguísticas, conhecimentos que hoje em dia são necessários até por causa da conjuntura.
Certamente, uma das maiores insatisfações que vivem atualmente os docentes de LEMs (tanto para docentes de espanhol ou inglês), é observar que as políticas linguísticas não focam como resolver as preocupações centrais do ensino de LEMs no Brasil, que estão vinculadas ao fracasso do ensino dessas línguas nas escolas públicas, isto porque são situações que as autoridades de educação, simplesmente, não as consideram por considera-las irrelevantes. Assim, as políticas linguísticas hoje em dia, segundo Braga e Couto (2018), não tratam de como reverter esses fracassos, porque unicamente ―se faz uma política linguística baseada de acordo com as vantagens políticas e econômicas que o país terá com esta ou aquela aliança para inserir ou excluir uma língua estrangeira dos currículos educacionais brasileiros‖ (BRAGA; COUTO, 2018, p. 141). Neste sentido, muitas destas premissas questionáveis sobre políticas linguísticas, não passam de ser tratadas como anacronismos pelas autoridades de ensino, porque segundo Rajagopalan (2008), ainda existe uma tendência de continuar ―escondendo premissas que dizem respeito à identidade da língua, do sujeito falante, da cultura, etc.; as quais são exploradas conforme as conveniências do momento‖ (RAJAGOPALAN, 2008, p. 112).
Apesar das atuais circunstâncias difíceis sobre políticas linguísticas no Brasil, os informantes em geral evidenciaram que possuem a preparação devida e suficientes argumentos para se posicionar criticamente frente a situações de caráter linguístico e político, o que é satisfatório e demonstra o esforço do corpo docente em discutir estes aspectos. Sem dúvida alguma, consideramos que deve-se continuar com as discussões no curso e na universidade, sobre o cenário problemático atual em referência às políticas linguísticas brasileiras, com a finalidade de criar consciência e fomentar o olhar crítico da situação atual das LEMs com os novos licenciados, nos primeiros anos do curso.