A agência tradicional pesquisada está instalada em um único edifício de seis andares. No 6º e último andar ficam o presidente e os sócios-VPs de planejamento, de atendimento e de produção. Os demais sócios-VPs ficam nos andares correspondentes, assim divididos: 5º andar - criação (e VP de criação), programadores, social media e planejamento; 4º andar - produção gráfica e de RTV (inclusive ilhas de edição de vídeo), art buyer, revisor e relações públicas; 3º andar - atendimento e mídia (e VP de mídia); 2º andar - áreas administrativa e de RH, sala de ginástica e de massagem (que a agência oferece gratuitamente para todos, com agendamento de horário); 1º andar - átrio espaçoso com troféus e sofás cercado por cinco salas de reunião e a sala técnica; térreo - recepção, expedição e saída para uma lanchonete em um jardim interno.
A criação ocupa quase que um andar inteiro, com grandes janelas e persianas brancas. O pé-direito alto é devido ao mezanino, ligado aos andares por uma escada caracol, também branca. Isso porque os andares ímpares são os únicos que têm acesso ao elevador, portanto, o acesso aos andares pares se dá por essa escada. Desse modo, o 6º andar (onde ficam o presidente e sócios-VPs de planejamento, atendimento e produção) tem vista para o 5º, o 4º
andar tem vista para o 3º e o 2º andar para o 1º. O espaço dos departamentos nos pareceu bastante similar, não há distinções entre a criação e os demais, a não ser aqueles relativos à administração do negócio e à automação que ficam em salas fechadas.
Toda a empresa tem estruturas de madeira que delineiam os espaços, grandes salas centrais cercadas por pilares, também de madeira, que fazem a separação dos ambientes menores. Os pilares são aproveitados como estantes para os livros de arte, anuários nacionais e internacionais, entre outros. Livros que não vimos ser consultados por nenhum profissional e que servem de suportes para os laptops dos redatores, lógica que parece ser recorrente nos processos de midiatização.
Apesar de os andares serem bem iluminados, com grandes janelas e persianas brancas, além das paredes brancas entremeadas por armários, o ambiente não é claro devido ao excesso de estruturas de madeira que, segundo a responsável pela comunicação da empresa, já fazia parte do edifício quando a agência foi instalada, uma vez que este foi projetado para abrigar outra empresa de publicidade.
No andar da criação há sete ambientes, dois para as equipes de criação, outro para
social media, gerente de projetos e dois programadores, um para a equipe de planejamento,
outro que é a sala do sócio e VP de criação; a área das secretárias/assistentes de criação e de planejamento, mais o tráfego; outro espaço com mesa, cadeiras e um pequeno sofá para reuniões rápidas, denominadas kickoff. Ladeando a parede, desde a entrada do andar, há armários de ferro (comuns em academia e colégios) grafitados, onde os profissionais guardam os seus pertences.
São dois os ambientes de criação, um maior, central, composto por duas ilhas grandes com cinco pessoas de cada lado: quatro diretores de criação, um deles também head of art e, em frente, a pessoa responsável por UX designer (designer de experiência de usuário) e mais quatro diretores: de produção, de RTV, de tecnologia, além do head of social. Atrás dos diretores de criação, acompanhando a janela, há um longo sofá em que atendimento, planejamento e outros profissionais conversam com os diretores de criação sobre trabalhos e processos (esse sofá é parte da estrutura de madeira). Na outra ilha ficam dez criativos seniores, sendo apenas uma mulher, diretora de arte, que ingressou na agência há anos, como assistente. Não tivemos acesso à informação da faixa etária dos criativos seniores localizados nessa sala, mas devem ter entre 30 e 50 anos (dois diretores de criação têm entre 40 e 50 anos, os outros dois entre 30 e 35 anos).
No ambiente externo há outra ilha de criação com cinco pessoas de cada lado, assistentes e profissionais juniores, e apenas duas mulheres (uma designer e outra estagiária
de direção de arte – brincam que a sua contratação se deveu ao fato da ausência de mulheres na criação). Um dos diretores de arte, que também é designer, faz dupla com um redator da ilha principal de criação, a dos seniores. Ou seja, mesmo com essa divisão, há trabalhos que “misturam” os criativos de ambos os ambientes. A faixa etária dessa ilha varia entre 23 e 35 anos, apenas o head of design é um pouco mais velho, por volta dos 45 anos. Ao redor dos computadores há pequenos objetos, toys e, na divisão da ilha, ficam pacotes de balas/doces, compartilhados.
Todos os diretores de arte usam computadores Mac, alguns têm mesas digitais, e os redatores usam Mac ou ainda Macbooks apoiados sobre livros (livros que não são mais consultados, como escrevemos). Em outra sala externa em forma de L, estão quatro profissionais: dois programadores (um deles arquiteto da informação), uma pessoa de social
media e um gerente de projetos para as ações de tecnologia. Acima de algumas mesas há uma
pequena estande em que ficam caixas de jogos de RPG (foi possível observar uma conversa dos criativos júniores sobre games e jogos de RPG).
Entre essa sala e a ilha de criação há uma mesa de pebolim em que os profissionais disputam partidas rápidas depois do almoço e no fim do expediente. Há também uma impressora, utilizada para jobs e textos, uma pequena geladeira vermelha, “só para cervejas”, que é carregada às sextas-feiras, quando os criativos fazem uma “caixinha” para o happy
hour, que tem início por volta das seis da tarde.
No outro ambiente externo, no lado oposto do andar, logo na entrada, está a ilha ocupada pela equipe de planejamento (dois diretores, um gerente, um supervisor, um assistente e estagiários), bem ao lado do ambiente para reuniões rápidas. Desse modo, criação e planejamento, tecnologia e social media ficam bem próximos, apesar de percebermos que há certa “distinção” dos criativos em relação aos demais, talvez decorrente do fato de o presidente da empresa ser um criativo. Observamos que os profissionais transitam bem entre os departamentos, mas não se misturam, efetivamente, ficando bem demarcadas as posições hierárquicas, ainda que haja, segundo relatos, predisposição da empresa em integrar todos os profissionais.
A sala do sócio e VP de criação fica na lateral do andar. É toda de vidro, o que permite visualizar a maioria dos profissionais de criação, contudo não percebemos qualquer aspecto de vigilância. A posição da sala, como a que está localizada no andar do atendimento e mídia (cuja diagramação do espaço é similar), estava predeterminada pelo projeto anterior do edifício e refere-se mais a uma posição estratégica de poder.
sócios e VPs de criação e de planejamento (apesar da mesa do VP de planejamento não ser nesse andar), a mesa do tráfego e, ao lado, uma grande impressora em que vez ou outra diretores de arte imprimem layouts, procedimento que só vimos ocorrer nessa agência.
Dividem o terceiro andar os departamentos de atendimento e mídia, que têm composição similar ao da criação: um grande ambiente central com duas ilhas em que ficam os diretores de atendimento e de mídia, além de profissionais seniores, e ilhas externas onde ficam os demais profissionais de cada um dos departamentos. A sala do VP de mídia e do diretor geral fica na lateral, à frente das secretárias/assistentes de atendimento e de mídia (a sala do VP de atendimento fica no 6º andar). Os andares mezaninos têm composição diversa, em decorrência do design do espaço. Com exceção da mesa de pebolim, também comum em outras agências43 e da geladeira para a cerveja, há pouca distinção entre o andar da
criação/planejamento e o do atendimento/mídia. Como nos referimos, só há três mulheres na criação, ao contrário dos demais departamentos nos quais há certo equilíbrio entre os gêneros ou até preponderância de mulheres, esse é um fato a ser investigado, mas que não nos aprofundamos aqui por desviar do objetivo da nossa pesquisa.44
Ao considerarmos a hierarquia imposta pelo espaço (dispositivo, segundo Foucault), verificamos que no lugar mais alto ficam os dirigentes e, apenas um andar abaixo, a criação, seguida da produção, atendimento e mídia, ficando os andares baixos para a parte administrativa/operacional. Mesmo que a integração seja uma vontade manifestada pelos profissionais, a disposição do espaço reforça a posição hierárquica dos departamentos. A valorização da criação na maioria das agências de formato tradicional nos parece uma constante, mas observamos que há um movimento de descentralização de poderes fruto da ascensão de outros profissionais.
O ambiente externo da agência, um jardim de inverno com mesas e bancos sob árvores, ao lado de uma lanchonete, permite que os profissionais de todos os departamentos se integrem em momentos de descontração, seja no almoço ou num lanche da tarde. Ou mesmo nas pausas entre os trabalhos. Uma grande mesa com café da manhã fica à disposição de
43 “A agência de publicidade BorghiErh/Lowe aderiu ao conceito que busca trazer mais bem estar ao
funcionário, que acaba passando mais tempo dentro do escritório do que na própria casa. Nos dois andares que ocupa em um edifício no bairro da Vila Olímpia, além das bolas de futebol, há "containers" onde duplas ou equipes se reúnem para discutir projetos e elaborar soluções. O uso de espaços amplos, com todas as salas de vidro, inclusive as de diretores, também foi uma maneira de aproximar a equipe e manter o ambiente mais agradável. Para completar, o espaço de convivência conta com mesa de sinuca, pebolim, uma pick-up de som profissional.” Disponível em: < http://goo.gl/EbSEHx>. Acesso out. 2015.
44 Sobre a ausência de mulheres na criação ver: Elas não querem criar? Apontamentos sobre a institucionalização
do trabalho de criação publicitária no mercado de Porto Alegre. (HANSEN, WEIZENMANN, 2015). Disponível em: < http://goo.gl/kfSjop > . Acesso out. 2015.
todos, diária e gratuitamente, e todas as tardes há distribuição de frutas (cada dia um tipo) em todos os andares. As demais refeições e lanches são cobrados, já que os serviços da lanchonete são terceirizados.