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Houve certa dificuldade em conseguir o organograma da agência pesquisada, que foi enviado pelo RP (relações públicas), profissional que intercedeu de maneira significativa nos departamentos e nos auxiliou bastante na aproximação para as entrevistas. A solicitação dos organogramas havia sido feita para o RH (recursos humanos), que justificou não ter o documento atualizado devido às alterações recentes ocorridas nos departamentos, de modo que precisariam ser revistos pelos responsáveis de cada área para a compilação dos dados para o documento geral. Foram enviados os organogramas dos departamentos de atendimento, mídia e diretoria e, então, unimos as informações em um único documento (figura 29), com menos detalhes, devido ao sigilo.

Figura 29: Organograma agência tradicional pesquisada (apêndice 1).

De acordo com os organogramas citados por Lupetti (2006), há uma hibridação entre os modelos funcional e divisional, uma vez que os departamentos de atendimento e mídia têm

grupos de conta, o que não ocorre com o departamento de criação e de planejamento. Por outro lado, não existe o departamento de pesquisa, já o de planejamento foi incorporado e ocupa posição hierárquica similar aos demais. Isso reforça a percepção de que o planejamento está em fase de consolidação, como citado no segundo capítulo.

Notamos também que há um diretor de tecnologia e inovação (head of social) que se reporta a dois diretores de criação: um é o head of art, formado em publicidade, com vinte anos de experiência em direção de arte, o outro é programador, tem formação em administração (e mestrado em multimídia), cujo trabalho anterior era somente a programação. Esse profissional foi promovido a diretor de criação recentemente, o que, acreditamos, seja consequência dos prêmios que as ações e peças (com o uso de tecnologia) conquistaram em festivais internacionais, como relata o profissional de RP da agência, que fez referência a uma área nova na qual a agência tem investido a partir da promoção desse profissional: “[...] ele cria um monte de aplicativos, tem uma cabeça incrível [...] metade dos Cannes é dele” (RELAÇÕES PÚBLICAS, agência tradicional).

Esse nos parece um fato novo nos organogramas das agências tradicionais, aproximar profissionais de tecnologia da área de criação, num elo entre processos criativos mais tradicionais (TV, cinema, rádio, revistas) e a possibilidade de ações para a rede on-line. Outra característica no organograma é a presença dos produtores executivos de criação, que se reportam ao VP de criação e ocupam o mesmo espaço físico em que estão os diretores de criação, junto às duplas seniores, centralizando as funções de RTV, produção gráfica e àquelas relativas à produção de ações off-line e para as mídias digitais. Ou seja, a aproximação dos demais departamentos da criação ocorre em diversas instâncias, da elaboração das ideias à produção. Um desses produtores executivos é considerado um “descobridor de novidades” em suportes que possibilitam materializar as ideias dos criativos: “ele vai várias vezes para a China, achar coisas, caçar coisas diferentes [...] e toda logística para trazer [...]” (RELAÇÕES PÚBLICAS, agência tradicional).

Apesar de haver tráfego na agência, esse cargo foi remodelado alguns dias antes da nossa chegada. Outra pessoa passou a trabalhar na área e ainda estava aprendendo, por isso, não forneceu nenhuma informação. A função do tráfego é burocrática, de controlar prazos, como escrevemos, uma vez que os jobs são distribuídos pelos diretores de criação que decidem qual dupla ou trinca irá realizar o trabalho, discutido pessoalmente assim que o job “sobe” via e-mail.

Nessa agência, são os quatro diretores de criação que distribuem o trabalho de acordo com a necessidade e a característica de cada dupla – dois deles são diretores de arte, um é

redator e outro programador – cargo criado em 2014, parte do movimento de mudança da agência para oferecer novos serviços, como escrevemos. Não há duplas fixas, por grupo de conta, só que alguns acabam fazendo mais jobs de alguns clientes. Vez ou outra um profissional trabalha mais com uma conta do que com outra, devido ao tipo de solicitação e ao momento:

Pergunta: Eu queria perguntar, como é o processo da distribuição de trabalho? Se vocês têm um sistema?

Resposta: Então, a gente em teoria, como grupos, como diretores de criação, somos em quatro, a gente não tem divisão por contas. Não sei dizer se na prática a gente não tem e na teoria a gente tem ou se é vice versa porque assim, acaba cada um.... Pergunta: Organicamente?

Resposta: Cada um fazendo [...] a gente troca, transita um pouco por todos os clientes, mas cada um, especificamente, lida mais com um ou outro cliente. Daí a gente tenta, na medida do possível também, variar entre as pessoas, pra ter olhares diferentes e não ter um desgaste [...] mas também na teoria, porque na prática muitas duplas acabam fazendo mais uma ou outra coisa. Mas isso é uma coisa que muda tá, é uma coisa que... não é só pra inglês ver que não temos divisão, não temos mesmo, mas acontece de ter uma aptidão, uma prática maior [...] (HEAD OF ART/ DIRETOR DE CRIAÇÃO, agência tradicional).

Isso nos faz perceber que, mesmo não tendo grupos de conta na criação, existe certa divisão por clientes. Há um sistema de trabalho implantado recentemente por um dos diretores de criação (diretor de arte com larga experiência em trabalhos para a mídia on-line e em agências digitais fora do país), mas com pouca aderência por parte dos demais, acostumados ao envio dos jobs por e-mail. Desse modo, o sistema de intranet é mais utilizado para monitorar o fluxo e não para enviar e controlar trabalhos. Não foi permitido observar esse sistema, mas verificamos que há um ambiente de rede em que todos os trabalhos, campanhas ou peças podem ser alocados, por pasta, o que nem sempre ocorre, já que a maioria é enviada via e-mail para o atendimento e só os mais “pesados” são salvos num ambiente de rede na pasta dos clientes.

Pergunta: Vocês têm um sistema de trabalho [...] estão há um ano com o sistema... Resposta: Não, a gente está tentando a parte do fluxo, que esteja organizada [...] não quer dizer uma coisa truncada e esquemática tá? [...] Uma organização que é própria [...] é um jeito que a gente acredite que tem fluidez. Tá? [...]

Pergunta: Daí você aprova e [...] tem um lugar no sistema em que ele salva ou vai pro servidor.

Resposta: Tem, existe um sistema [...] de gerenciamento, mas só para o fluxo de trabalho. Na verdade a gente não está usando isso pra enviar arquivo [...] Manda por e-mail [...] Ou o atendimento sobe, vê, conversa, discute ou imprime antes. Imprime-se muito menos hoje em dia, muito menos [...] (HEAD OF ART/DIRETOR DE CRIAÇÃO, agência tradicional).

A agência está em fase de transição, aproximando os profissionais de tecnologia dos processos criativos, fato bem aceito por alguns profissionais mais do que outros. Também na mídia observamos o exercício de eliminar as barreiras entre a mídia on-line e off-line, para

que não haja distinção, movimento que faz as resistências aparecerem, principalmente por parte dos profissionais mais antigos da casa. Alguns relatos informais referem-se à maneira de trabalhar dos mais “velhos”, ainda apegados à hierarquia e a processos antigos, nos quais as ideias ficavam circunscritas àqueles que as criaram. A geração mais nova “se diz” não tanto apegada às ideias, preferindo compartilhar a criação do trabalho, como descrevemos adiante.

A tentativa de atualizar os processos de trabalho e, dessa maneira, transformar a agência em um modelo híbrido, sem a separação off e on-line é visível, ainda que alguns procedimentos sejam mantidos. Quem abre os jobs é o atendimento, como escrevemos, que os envia por via e-mail e ainda imprime cada um deles para levar ao diretor de criação e fazer uma breve apresentação do briefing. O job impresso também é levado às reuniões, em que, vez ou outra os profissionais rabiscam informações, rascunham ideias. As campanhas ou jobs mais importantes passam pelo planejamento que, em entrevista, relatou a inconsistência de muitos briefings ao ser encaminhados para a criação.

Normalmente faço assim, processo normal aqui é [...] muitas vezes o atendimento escreve o briefing e manda pro planejamento e a gente às vezes fala: - Ó faltou isso, faltou isso e faltou isso ou se a gente fala... calma. Como o briefing é muito, demanda uma coisa muito estratégica, deixa que eu escrevo. A gente escreve as caixinhas do briefing e volta pro atendimento, que ele tem que colocar num sistema uma coisa assim. Então fica com o atendimento fazer essa parte do físico. Eu, normalmente, gosto de levar impresso, meio como um guia de conversa, então eu vou falando em conversa e eu dou uma cópia, uma pra eles e outra pra mim, que eles gostam de anotar, circular uma coisa, coloquei isso aqui, isso aqui (GERENTE DE PLANEJAMENTO, agência tradicional).

Observamos em uma das reuniões kickoff um embate entre planejamento e atendimento e não com os criativos, que nos pareceu ter certo “respeito” por parte de ambos os departamentos. A discussão acalorada sobre o caminho a ser seguido na apresentação da campanha foi amenizada pelo diretor de criação que buscou conciliar os dois pontos de vista, solicitando à dupla de criativos que contemplasse ambas as solicitações.

A presença de profissionais do atendimento e do planejamento na criação nos pareceu bem aceita. Quanto se trata de trabalhos em andamento, o atendimento costuma conversar com as duplas ou o diretor de criação sobre alterações e sinalizar as solicitações e impressões do cliente, antes mesmo de enviar o pedido do trabalho. Essa presença é constante e observamos várias conversas, nas quais o atendimento relata comentários de reuniões que considera importantes para os processos criativos. Não foi percebida qualquer resistência a esse procedimento. Mesmo quando o job é enviado para o diretor de criação, há uma conversa entre ele e o atendimento sobre o trabalho específico e quais as expectativas do cliente. Outras vezes ocorrem as kickoff, pequenas reuniões entre atendimento, planejamento e mídia para

esmiuçar o job, momento no qual todos emitem opiniões sobre os possíveis caminhos, para evitar dúvidas quanto à solicitação feita pelo cliente e à viabilidade da campanha.

Não nos foi apresentado nenhum documento com o fluxo de trabalho interno, percebemos, porém, que é bastante semelhante ao modelo especificado por Lupetti (2006), com algumas alterações em relação ao encaminhamento no caso das mídias digitais, que envolvem outros profissionais. Por meio da nossa observação e das situações relatadas, montamos dois modelos de trabalho, o fluxo 1 (figura 30), com a participação inicial de todos os departamentos, e o fluxo 2 (figura 31), a partir dos insights iniciais da criação.

Figura 31 - Fluxo de trabalho agência tradicional pesquisada - 2 (apêndice 3).