Começando pelo conceito de “superveniência”, esse envolve uma relação entre dois níveis de análises – usualmente, referidos como micro e macro – na qual se dois eventos são idênticos em seu nível mais baixo (micro) então necessariamente eles serão idênticos em seu nível mais alto (macro) (SAWYER, 2005, p. 66). Posto de outra forma, se dois fenômenos apresentam uma micro- configuração idêntica, então necessariamente eles apresentarão uma macroestrutura idêntica. Essa relação entre os dois níveis de análise, entretanto, é assimétrica, ou seja, dois eventos idênticos em seu nível mais alto (macro) poderiam ser diferentes em seu nível mais baixo (micro). Explicando esse conceito de forma bem didática, Kim escreve:
It is convenient to think of supervenience as a relation between two families, or sets, of properties, supervenient family A and the base (or subvenient) family B. A could be a set of psychological properties and B a set of biological-physical properties; or A could be a set of moral properties and B a set of naturalistic, or non-moral, properties. The basic idea of supervenience can be explained in two ways: (i) things cannot differ in respect of A-properties (supervenient properties) unless they differ in respect of some B-properties (the base properties) – that is, indiscernibility in respect of B-properties entails indiscernibility in respect of A-properties. […] (ii) A second way of explaining the core idea of supervenience is in terms of ‘determination’: if A-properties supervene on B-properties, any object’s B- properties will determine all of its A-properties. […] ‘Dependence’ is a near enough converse of ‘determination’: thus, instead of saying that the biological-physical nature of a creature determines its mentality, we may say that its mentality ‘depends’ on its physical-biological nature. (KIM, 2003, p. 559)
Exemplificando esse conceito no caso da economia, Brian Epstein (2014) coloca:
[...] macroeconomic properties globally supervene on microeconomic properties just in case if two worlds w1 and w2 are microeconomically
indiscernible, then they are macroeconomically indiscernible. To test for supervenience, we must set up two worlds or circumstances that have the same microeconomic properties and show that nonetheless they may have different macroeconomic properties. (EPSTEIN, 2014, p. 5)
Assim, o aspecto central do conceito de superveniência é a existência de uma correlação entre o macro e o micro, no sentido de que duas configurações micro
indistinguíveis ‘geram’ duas configurações macro indistinguíveis. O termo ‘geram’, entretanto, levanta alguns problemas. Kim, embora na citação acima utilize os termos ‘dependência’ e ‘determinação’ – para representar esse termo “gerar” apontado aqui –, defende que o conceito de superveniência não impõe esses tipos de relação entre dois grupos de propriedades. Para ele, esse conceito é mais ‘fraco’ que isso, e impõe apenas uma covariância entre tais grupos de propriedades. É importante frisar esse ponto aqui, pois, como mencionado no capítulo 1, autores como Hoover defendem a utilização desse conceito para caracterizar a relação entre microeconomia e macroeconomia. Sobre esse aspecto da superveniência de representar apenas uma relação de covariância, Kim escreve:
Supervenience is usually though to include the idea of dependence or determination, and this had been my assumption. However, the foregoing definitions of the three supervenience relations make no reference to such metaphysical relations as determination or dependence. Rather, they only specify how two families of properties covary with each other – that is, how the distribution of one family of properties over the individuals of a world constrains, and is constrained by, the distribution of another family of properties. […] As far as formal analysis is concerned, therefore, supervenience comes down strictly to relations of property covariance (Kim 1990).(KIM, 2003, p. 563)
This means that if you want to include a determination-dependence claim as part of a supervenience thesis, that claim must be explained and justified independently of the required pattern of property covariance. How such justification might proceed will of course depend on the specific supervenience claims at issue. (KIM, 2003, p. 564)
Assim sendo, o conceito de superveniência nada informa sobre os mecanismos causais ou a relações de dependência existentes entre dois níveis de análise, apenas indicando uma correlação entre esses níveis. Para explicar tais mecanismos e relações, seria necessário recorrer ao conceito de emergência:
[...] supervenience is acceptable as a consistency conditions on the attribution of concepts, in that if A supervenes upon B, you cannot attribute B to an individual and withhold A from it. […] But supervenience does not provide any understanding of ontological relationships holding between levels. For that emergence is required. (HUMPHREYS, 1997, p.341)
Apesar desse conceito não impor nenhum tipo especifico de determinação ou dependência, porém, quando se discute superveniência em ciências sociais, em geral, e em economia, em específico, surge a questão sobre se existira até mesmo uma relação apenas de covariância entre o nível social e o individual, ou entre a
macroeconomia e a microeconomia. Brian Epstein argumenta contra a existência de superveniência para os dois casos (ver Epstein (2009) para o caso das ciências sociais, em geral; e Epstein (2014) para o caso da economia). Para ele, tal relação de covariância não existira entre o nível social e o nível individual, e entre a macroeconomia e a microeconomia, pois haveria aspectos fora do domínio individual que afetariam o nível social, e aspectos fora do domínio da microeconomia que afetariam a macroeconomia. Portanto, não existiria uma relação de covariância exata entre esses níveis. Essa discussão, porém, toca em uma questão sobre a própria demarcação dos domínios social e individual, e macroeconômico e microeconômico. A depender de tais demarcações, poderia ser possível estabelecer uma relação de covariância entre esses domínios (do social com o individual, e do macroeconômico com o microeconômico). De toda forma, além de não informar relações de dependência e determinação entre dois níveis, o conceito de superveniência ainda exige uma demarcação exata dos domínios desses níveis, questão essa que, tanto em ciências sociais quanto em economia, não possui consenso no debate.
Para o caso da economia, uma vez que a relação de superveniência se dá entre conjunto de propriedades, a discussão sobre a possibilidade de a macroeconomia e a microeconomia apresentarem tal relação fica atrelada a o que se define como os conjuntos de propriedades dessas duas áreas de pesquisa. Porém, uma definição única desses conjuntos se mostra complicada, dada a variedade tanto de teorias quanto de visões de mundo a respeito desses domínios.
Com relação à macroeconomia, o debate maior se dá em torno da sua existência real, externa aos indivíduos, possuindo, portanto, propriedades únicas e diferentes com relação à microeconomia. Assim, a própria questão do domínio da macroeconomia se funde ao debate sobre sua redução na microeconomia. Mäki (2008, p. 335), introduzindo a questão,pergunta, retoricamente, “are there macroeconomic aggregates in addition to individuals and their attributes?”. Hoover (1995) oferece uma resposta:
[...] macroeconomic aggregates exist. More precisely, and again using Mäki’s terminology, I will argue that macroeconomic aggregates exist
externally (i.e., independently of any individual human mind) and objectively
(i.e., unconstituted by the representations of macroeconomic theory). (HOOVER, 1995, p. 226)
E complementa, apontando um ponto central de divergência no debate:
It is important to understand that there are some senses in which neither the methodological nor the ontological individualist denies the existences of aggregates, collectives, or wholes. No one denies that GDP calculations can be made and reported, or even that GDP may have some locally stable relationship to unemployment or average interest rates or some other aggregate. Similarly, no one denies the existence of social organizations such as governments or firms (in the sense that talk of governments and firms convey meaning). What is typically denied is that such aggregates or organizations are among the fundamental units from which economic reality is constructed. (HOOVER, 1995, p. 228)
Assim, a discussão sobre o conjunto de propriedades da macroeconomia se centra na questão sobre a existência de propriedades irredutíveis às propriedades microeconômicas. Tal discussão, por sua vez, se relaciona diretamente com um primeiro problema existente na discussão sobre o domínio da microeconomia: havendo propriedades macroeconômicas irredutíveis às microeconômicas, essas afetam a microeconomia e, portanto, devem ser incluídas no conjunto de propriedades microeconômicas? Para Hoover, tal questão impossibilita uma distinção clara entre esses dois conjuntos de propriedades:
Since people cannot theorize about certain sorts of phenomena without appealing to macroeconomic categories – that are not themselves reducible to microeconomic categories – the Cournot problem introduces analytical constraints, not only in practice, but in principle as well. The distinctiveness of the properties at the microeconomic and macroeconomic levels is breached, undermining Kim’s analysis, because complete characterization of the microeconomic must include characterizations of the macroeconomic on the part of individual agents. (HOOVER, 1995, p. 239)
Adicionalmente, sobre o domínio microeconômico, autores como Hartley (2002) e Vercelli (2016), como mencionado no capítulo 1, apontam para a existência de uma variedade de teorias microeconômicas, que englobam diferentes conjuntos de propriedades. Assim, uma delimitação exata do conjunto de propriedades que configura a microeconomia talvez não seja nem possível. Shubik (1970), em um artigo sobre o que seria, e para que serviria, a microeconomia, já apontava:
Microeconomics is many things to many people. Perhaps one of the reasons why many perceive it to be in an unsatisfactory state is that many of these people with utterly different views and goals think that there should be on microeconomics for all. (SHUBIK, 1970, p. 405)
There is no neat taxonomy as to what falls into the domain of microeconomics and what falls elsewhere. The problems of dynamics and aggregation often blur distinction. At what level does a microeconomic model become a macroeconomic model, or vice versa? (SHUBIK, 1970, p. 408)
Sem haver uma definição exata do domínio da microeconomia, se torna impossível determinar se a sua relação com a macroeconomia pode ser caracterizada como uma de superveniência.