Amantes eternos (Jim Jarmusch, 2013) conta a história do casal de
vampiros, Adam (Tom Hiddleston) e Eve (Tilda Swinton). Em nenhum momento no decorrer do filme a palavra vampiro é mencionada, estabelecendo com os espectadores uma relação de conhecimento prévio sobre o tema. Sabe-se que se trata de um vampiro por meio de códigos pré-estabelecidos tanto na literatura quanto no cinema, a exemplo da aversão ao sol, da dieta baseada em sangue, dos atributos extra mundanos (como a agilidade fora do comum), entre outras características que fazem o público perceber quase de imediato que aqueles dois personagens retratados na tela são vampiros.
O deslocamento físico em Amantes eternos é abordado por meio de viagens intercaladas entre o Novo e o Velho Mundo. Eve é uma vampira pálida, loira, leitora ávida dos mais diversos gêneros literários (Figura 2) e moradora da cidade de Tânger, no Marrocos. Seu companheiro de séculos é Adam um vampiro de cabelos negros, músico e nostálgico, que vive na cidade de Detroit, nos Estados Unidos.
Se em Entrevista com o vampiro o trânsito entre Novo e Velho continente se dá por meio de navio, em Amantes eternos os vampiros incorporam um meio de transporte mais veloz e atual: o avião. O casal não se priva de aproveitar as facilidades que o mundo moderno oferece quanto à locomoção. A bagagem carregada pela vampira também muda em relação aos seus antepassados. Enquanto Conde Drácula transportava dentro do navio Demeter caixas de madeira abastecidas com terra da Transilvânia para Londres, Eve forra suas malas com livros e nada mais. Apesar da mudança nos pertences e no modo como o deslocamento ocorre, o período noturno ainda é o escolhido para a viagem. A noite, enquanto código que constitui o imaginário do vampiro, permanece sendo o momento adequado para esses seres se movimentarem de um lugar ao outro sem correrem maiores riscos.
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O vampiro viajante
Figura 2 — Eve (Tilda Swinton).
As cidades de Tânger e Detroit são também representações das personalidades de Eve e Adam, respectivamente. Nesse sentido, Eve se revela uma vampira em harmonia com a própria imortalidade e com o fato de ter testemunhado grandes acontecimentos históricos como guerras e inquisições. Ela lida com a passagem do tempo de uma forma muito pragmática. Já Adam se assemelha ao personagem Louis, em Entrevista com o vampiro, pois possui um lado mais questionador quanto à própria existência e isso o faz se sentir enfastiado. Se Detroit passa por uma crise econômica, Adam por sua vez nutre uma crise existencial. Ele romantiza o passado e parece não assimilar bem os grandes entraves da humanidade. Diferentemente de Louis, Adam aceita o fato de ser vampiro, mas não se conforma com as atitudes dos “zumbis” — termo que usa para se referir aos humanos — perante o mundo. A natureza nostálgica de Adam o faz preencher a saudade dos velhos tempos colecionando instrumentos musicais de épocas passadas. Colecionar, de certa forma, pode ser entendido como uma viagem através dos tempos. O ato de colecionar peças antigas, torna o passado tangível, sugerindo assim o tom nostálgico da personalidade de Adam e a persistência de residir em um espaço-tempo já extinto. A grande questão para Adam é lidar com a própria existência dentro do entre-lugar passado e presente.
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Maria Carolina P. Müller
Um tema central que a viagem temporal traz para a narrativa de Amantes
eternos é a percepção do vampiro defronte ao tema da questão climática. O filme
comunica, por meio de Adam, tanto a angústia sobre o futuro do planeta, quanto a preocupação com uma provável extinção dos vampiros. Durante um passeio noturno por Detroit, Eve menciona que quando as cidades do sul começarem a queimar, Detroit irá renascer pois, ali, ainda há água. O fato de serem um casal de vampiros viajantes faz com que essas percepções ambientais despontem por intermédio desses deslocamentos, afinal eles presenciaram o antes, presenciam o hoje e presenciarão o depois.
Em Entrevista com o vampiro, Louis e Claudia viajam pela Europa durante anos em uma incessante busca para encontrar seus semelhantes. Perto de desistirem da procura, eles acabam por conhecer Armand e sua trupe na capital francesa. Essa dificuldade na localização de outros vampiros pode ser entendida como um prenúncio de uma iminente extinção. Além disso, no caso de Adam e Eve, a questão da extinção parece ter uma ligação direta com a contaminação do sangue — um dos vampiros do filme, Marlowe (John Hurt), morre justamente porque ingeriu sangue contaminado: “Foi alguma coisa ruim. Contaminada. Evitem o hospital daqui”5 (Amantes eternos, 01:41:36). A escassez de sangue
no filme faz paralelo direto com a possibilidade da escassez de água potável, item vital para os humanos, assim como o sangue para a sobrevivência dos vampiros.
A estadia de Eve em Detroit não dura muito tempo. Ian (Anton Yelchin), assistente de Adam, é morto por Ava (Mia Wasikowska), também vampira e irmã de Eve. Em um “impulso adolescente”, Ava “suga” Ian, fato que deixa Adam enfurecido, afinal o casal de vampiros possui, por assim dizer, uma ética ou “consciência alimentar”, onde a mordida é considerada não só um ato primitivo, mas também perigoso. Ava volta para Los Angeles — cidade chamada por Adam de “zombieland”, terra dos zumbis — e Adam e Eve retornam para Tânger. Essa viagem de retorno ao Velho Mundo pode ser entendida como um regresso às origens do mito, um exemplo do “processo de familiarização e de-familiarização”6
(Gelder, 1994, p. 86,) que acontece nas construções mais recentes das narrativas vampíricas. A viagem para o Novo Mundo (Detroit) estabelece simbolicamente a transgressão e emancipação do vampiro em relação aos seus antepassados literários ao mesmo tempo que o retorno ao Velho Mundo (no caso, Tânger) reafirma a gênesis do vampiro.
5 No original: “I got some bad stuff. Contaminated. Avoid the hospital here.” 6 No original: “process of familiarization and defamiliarization.”
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O vampiro viajante
Chegadas e partidas: o vampiro viajante incessante e imortal
Ver a vida através dos séculos faz do vampiro um agente transhistórico, um viajante imortal que se torna testemunha dos acontecimentos e fatos que presencia. O trânsito do vampiro parece inofensivo à primeira vista, mas torna-se um intenso lugar de conflitos políticos, sociais, históricos e até mesmo identitários. Nesse sentido, esse monstro que se alimenta de sangue — outrora temido e hoje cobiçado — detém um papel crucial na reconfiguração do modo de significação e pertencimento do vampiro através do tempo. A partir do romance de Anne Rice, o vampiro parece propor, por meio de um deslocamento entre limiares e fronteiras, uma viagem sobre si mesmo e o que o circunda.
Percebe-se nas viagens físicas dos filmes citados, o contraste em relação ao meio de transporte escolhido para a realização do deslocamento físico (navio em
Entrevista com o vampiro, e avião em Amantes eternos), porém em comparação, é
nítido o sentimento de deslocamento existencial presente em ambos, adquirindo com isso contornos mais humanizados em relação à figura do vampiro.
Independente da mídia que habita — literatura, cinema, games — o vampiro incorpora uma metáfora cultural que permite diferentes significações e que varia de acordo com o contexto histórico na qual ele/ela pertence. O ícone oriundo da Transilvânia se multiplicou. Conde Drácula não está mais sozinho, porém seus sucessores iniciaram o processo transgressor de des-eurocentrismo de um ser antes fronteiriço, agora globalizado. Esses nômades noturnos continuam e continuarão viajando através do tempo, do espaço e da nossa imaginação. Enquanto houver sangue para eles e água para nós.
Referências
Amantes eternos. Dir. Jim Jarmusch. Estador Unidos: Pandora Film, 2013. COR (123 min).
Arata, Stephen. The Occidental Tourist: Dracula and the anxiety of reverse colonization. Victorian Studies, v. 33, n. 4, p. 621-645, 1990.
Auerbach, Nina. Our Vampires, Ourselves. Chicago: The University of Chicago Press, 1995.
Bellei, Sérgio. Monstros, índios e canibais: ensaios de crítica literária. Florianópolis: Insular, 2000.
Entrevista com o vampiro. Dir. Neil Jordan. Roteiro Anne Rice. Estados Unidos: Geffen Pictures, 1994. COR (123 min).
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Foucault, Michel. Of Other Spaces: Utopias and Heterotopias. Architecture /
Mouvement/ Continuité, 1984. Translated from the French by Jay Miskowiec.
Disponível em: https://foucault.info/documents/heteroTopia/foucault. heteroTopia.en.html. Acesso em: 9 jun. 2019.
Moretti, Franco. The Dialectic of Fear. New Left Review, n. 136, p. 67-85, 1982. Punter, David; Byron, Glennis. The Gothic. Oxford: Blackwell, 2004.
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