Tendo como objetivo entender o porquê da ligação entre a Legião Urbana e seu público, para além das análises mercadológicas540, jornalísticas541 e estéticas542, os diálogos entre as músicas e os depoimentos orais permitiram uma via de interpretação acerca de como se deram os processos de interação do público com as canções do grupo de Brasília. A partir da mimese, recepção e apropriação, nota-se que público e banda podiam refletir sobre um dado assunto de formas diferentes, de acordo com o momento vivido, porém as temáticas questionadas pelo grupo são comuns aos jovens. Somado a isso, levou-se em consideração que a obra da Legião Urbana foi arquitetada para discutir a questão da juventude, tendo como base a experiência de Renato Russo e seu grupo.
Além de entender o porquê da ligação entre os jovens de Brasília e seus ouvintes, a pesquisa traz contribuições significativas ao incorporar variadas fontes: entrevistas de Renato Russo, músicas, capas, imagens, sonoridades e os depoimentos orais. O trabalho com tais fontes contou, claro, com o respaldo teórico necessário, o que permitiu vislumbrar as relações culturais que podem ser realizadas envolvendo os atos de consumo sobre aquilo que foi proposto pela Legião Urbana, para além das análises contestadas e também inseridas no diálogo presente nesta pesquisa.
As interpretações jornalísticas543 possuem sua importância informativa, mas contribuem pouco para o entendimento da dinâmica e das tensões que envolveram o mercado fonográfico, os grupos de rock e seu público. Para preencher essa lacuna, em geral, os autores enfatizaram o papel de produtores e gravadoras. Logo, endossaram as tendências do mercado e o trabalho dos agentes citados, deixando as bandas em total subordinação às pretensões daqueles. Seguindo-se essa interpretação, nota-se que também as análises estéticas pouco
540 DIAS, Marcia Tosta. Os donos da voz: indústria fonográfica brasileira e mundialização da cultura. São
Paulo: Boitempo, 2000. BRANDINI, Valéria. Cenários do Rock: mercado produção e tendências. São Paulo: Olho d´Água, 2004.
541 DAPIEVE, Arthur. Renato Russo: o trovador solitário. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000.
ALEXANDRE, Ricardo. Dias de luta: o rock e o Brasil dos anos 80. São Paulo: DBA Artes Gráficas, 2002.
542 AGUIAR, Joaquim Alves de. Música Popular e Indústria Cultural. Dissertação (Mestrado em Teoria
Literária), Instituto do Estudo de Linguagem da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP, Campinas - SP, 1989.
contribuem para a compreensão das manifestações culturais provenientes das bandas de rock durante os anos 80.544
Já que o projeto artístico da Legião Urbana foi voltado para a juventude, tornou-se inevitável discutir os desdobramentos do rock no universo desse grupo etário. Nesse sentido, foi possível visualizar como o estilo influenciou a trajetória de Renato Russo em Brasília, onde formalizou uma parcela de sua visão de mundo. O contato com a cultura punk permitiu ao letrista a inserção em círculos sociais, bem como a experiência em bandas de garagem, resultando no surgimento da Legião Urbana.
Debatendo com interpretações mercadológicas545, notou-se que o grupo não aceitou passivamente aquilo que foi imposto por produtores e gravadoras. Tal diálogo foi fundamental para a pesquisa, haja vista o que a banda foi obrigada a enfrentar para manter-se inserida nas pretensões da gravadora e mídia. Em meio a choques e conflitos no mercado fonográfico, como visto, a Legião consolidou sua carreira e obra (ver capítulo 1).
Ainda a dissertação deixa nítida a possibilidade de investigar as relações culturais que se desdobram a partir das ações do mercado fonográfico, sabendo-se que esse possui uma enorme capacidade de lançar bandas e estilos. No entanto, não se pode dizer que racionalizou ou previu todos os fenômenos culturais vistos na trajetória da Legião Urbana no período, cabendo, assim, a produtores e gravadoras algumas limitações, o que não é considerado nas análises que foram questionadas ao longo desta dissertação.
Com isso, abrem-se brechas e espaços para outras investigações envolvendo as bandas de rock nacional que surgiram durante os anos 80 e 90 e as tensões provenientes de suas inserções no mercado de bens culturais – tais como Titãs, Paralamas do Sucesso, Engenheiros do Havaí, Camisa de Vênus, Irã!, Barão Vermelho, entre várias outras citadas ao longo deste estudo.
Com relação à análise da obra da Legião Urbana (ver capítulo 2), cabe observar que a pesquisa dialogou mais com as imagens e as letras do que com as melodias. Diante de tal quadro, outras interpretações podem ser realizadas acerca da discografia do grupo. Ademais, embora tenha contemplado todos os trabalhos da banda gravados em estúdio, a pesquisa não conseguiu abordar as temáticas discutidas pela Legião Urbana na sua totalidade. Portanto,
544 AGUIAR, Joaquim Alves de. Música Popular e Indústria Cultural. Dissertação (Mestrado em Teoria
Literária), Instituto do Estudo de Linguagem da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP, Campinas - SP, 1989.
545 DIAS, Marcia Tosta. Os donos da voz: indústria fonográfica brasileira e mundialização da cultura. São
Paulo: Boitempo, 2000. BRANDINI, Valéria. Cenários do Rock: mercado produção e tendências. São Paulo: Olho d´Água, 2004.
também outras observações podem surgir a esse respeito, seja com base na interpretação empreendida neste estudo, seja explorando outros caminhos.
Todavia, foi possível constatar que a banda passou por transformações melódicas ao longo da carreira. A sonoridade punk dos jovens de Brasília foi se modificando gradativamente, ficando mais suave e branda. A diminuição da rispidez e velocidade caracteriza a trajetória do grupo. Tendo em vista as limitações da presente dissertação nesse quesito, outras pesquisas podem ser realizadas explorando tais mutações nas sonoridades, com enfoque na parte técnica do assunto.
O estudo ainda enfrentou o desafio de analisar toda a obra da Legião Urbana, centrando-se na ideia de que não é possível afirmar que sua discografia tenha perdido seus traços de jovialidade ao longo do tempo, mesmo com as transformações sonoras e temáticas verificadas. Ou seja, a opção por se partir da constatação de que o projeto artístico foi voltado para a juventude, em vez de cercear o objeto de estudo, permitiu que as análises em torno das músicas do grupo de Brasília ganhassem contornos mais amplos e consistentes.
Não ao acaso, vale destacar que outras apropriações vêm sendo realizadas pelas gerações posteriores à dos anos 80, no que se refere às composições da Legião Urbana. A pesquisa, no entanto, somente pontuou que aquelas vêm ocorrendo na atualidade. Assim, acredita-se que os processos de recepção que vêm sendo realizados pela juventude na contemporaneidade poderiam ensejar outros estudos sobre a banda. Afinal, a Legião Urbana ainda possui uma fatia de mercado e um público interessado em seu projeto artístico voltado para a juventude.
Com relação aos depoimentos orais, o estudo procurou identificar as formas de apropriação das canções da Legião Urbana (ver capítulo 3), a partir de temas comuns nos relatos dos entrevistados e nas composições da banda, como Amizade, Família, Namoro, Trabalho, Política, Lazer e Liberdade. Contudo, outros motes poderiam ser investigados, haja vista a diversidade temática presente não só na discografia do grupo, como também na trajetória de vida dos depoentes. Portanto, novas pesquisas envolvendo a história oral de forma mais sistemática poderiam também contribuir para a análise das diversas apropriações, conexões e afastamentos efetivados.
Além disso, cumpre observar que a pesquisa centralizou-se na figura de Renato Russo, pois foi quem criou a Legião Urbana, estabeleceu um projeto artístico voltado para a juventude, concedeu a maioria das entrevistas e apareceu constantemente na memória dos depoentes. Nesse sentido, a dissertação “limitou-se” à figura do letrista, mesmo sabendo que a Legião Urbana foi resultado do trabalho de todos os integrantes – Renato Rocha, Marcelo
Bonfá e Dado Villa-Lobos. Esses sujeitos históricos poderiam ser considerados de maneira específica em outras pesquisas.
Dessa forma, a dissertação não conseguiu dar maior visualidade aos sujeitos citados, porquanto trabalhar com o número de fontes proposto já se mostrava um desafio, não permitindo cogitar a incorporação de outras que possibilitassem novas análises, para além daquelas que estão presentes no texto. No entanto, a importância dos demais integrantes da Legião Urbana foi notória não só durante os anos 80 e 90, mas também se faz notar no presente, visto que são responsáveis por manter o nome do grupo em evidência no mercado de bens culturais na atualidade.
Por fim, a interpretação da obra da Legião Urbana, mesmo que limitada e parcial, assim como os questionamentos acerca das possíveis recepções e apropriações realizadas pelos depoentes, permitiu que se chegasse a alguns contornos interpretativos, de vários possíveis, no que diz respeito à ligação que existiu entre a Legião Urbana e seu público. Para tanto, foi necessária a incorporação e o cruzamento de uma diversidade de fontes, que ampliaram o diálogo sobre a Legião Urbana. O que foi deixado pelo grupo e aquilo que foi feito pelos jovens de Brasília, no entanto, está distante de possuir uma interpretação findada por esta dissertação.