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L’exposition permanente

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CAPÍTULO III – A COSMOLOGIA DO SERINGUEIRO

O terceiro capítulo nasce da necessidade sentida, ao longo da pesquisa, de explicar a cosmologia do seringueiro, presente em sua vida na floresta e na cidade de Rio Branco.

No decorrer da pesquisa, percebi a profunda integração dos seringueiros com a natureza, fruto da sua visão de mundo.

Para compreender a religiosidade do seringueiro, na floresta e seu imaginário popular guardado e ressignificado durante várias décadas, no trânsito entre o sertão nordestino e os seringais acreanos, a percepção de sua visão cosmológica é de fundamental importância. A religiosidade seringueira soube incorporar diversas expressões religiosas da região amazônica. Nesta religiosidade, tem-se a presença de homens e mulheres, animais, santos e almas.

3.1. O universo cosmológico dos seringueiros acreanos

Na literatura e em muitas partes do país “caboclo”, termo este que se refere aos índios ou seus descendentes, a região que compreende a bacia do Alto e Baixo Acre, é constatável a presença de humanos e animais, no mesmo universo cosmológico, pois os santos, as almas habitam o mesmo plano material que os seringueiros. Não se pode esquecer, da presença dos encantados, que são seres sobrenaturais ou materialização de animais que habitam as florestas, rios e igarapés. Diante desse aspecto, Raymundo Heraldo afirma que os encantados são seres que pertencem a um plano espiritual e habitam os rios, lagos e pântanos. E diz, ainda, que:

A crença nos encantados se refere a seres que são considerados, normalmente, invisíveis às pessoas comuns e que habitam “no fundo”, isto é, numa região abaixo da superfície terrestre, subterrânea ou subaquática, conhecida como o “encante”120.

120MAUÉS, Raymundo Heraldo. Pajelança e encantaria amazônica. In: Encantaria brasileira: o livro dos mestres, caboclos e encantados. Reginaldo Prandi. (Org).p.17.

101 Os encantados vivem em um plano diferente da vida humana, mas o mundo dos encantados é um plano que está próximo do mundo dos humanos, pois é perceptível que a interferência ocorre de várias maneiras, na vida humana e que em dados momentos, as interferências podem ser benéficas, como também podem ser maléficas para os humanos. Percebe-se que as interferências dos encantados ocorrem de diversas maneiras, nas florestas ou nos rios. Muitas delas podem até interferir na vida e no destino dos humanos. Raymundo Heraldo Maués diz:

Trata-se de seres perigosos, é fazê-los perder-se na mata. Isto acontece com os caçadores que cometem abusos, sobretudo os que têm o costume de caçar, persistentemente, um só tipo de caça. [...] Os encantados são considerados, normalmente, invisíveis aos olhos dos simples mortais. Entretanto, podem manifestar-se aos seres comuns de formas diversas. A partir dessas formas distintas de manifestação, eles são pensados em três contextos distintos, recebendo, por isso, denominações diferentes. São chamados de “bichos do fundo”, quando se manifestam nos rios e igarapés, sob a forma de cobras, peixes, botos e jacarés. Nesta condição eles são pensados como perigosos, pois podem provocar mau-olhado ou flechada de bicho nas pessoas comuns. Caso se manifestem, sob forma humana, nos manguezais ou nas praias, são chamados de “oiaras”; neste caso, frequentemente, aparecem como se fossem pessoas conhecidas, amigos ou parentes e desejam levar suas vítimas para o fundo. A terceira forma de manifestação é aquela em que eles permanecem invisíveis, incorporam-se nas pessoas, quer seja naquelas que têm o dom de nascença121.

Os encantados podem manifestar-se, sob diversas formas para os humanos e dependendo das circunstâncias podem, até, ganhar aspectos e formas humanas. As dimensões que os encantados, aos poucos, ganharam na vida humana, faz parte das vivências e das experiências de cada morador que habita ou habitou a região Amazônia. As várias formas como os encantados são sentidos, interferem na vida das pessoas de muitas maneiras, pois se manifestam para os habitantes de variadas formas e em alguns momentos chegam a protegê-los, porém em outros momentos podem ser considerados uma ameaça perigosa para suas vidas. A maneira como os amazonidas os percebem, depende da fé ou da devoção que cada habitante tem, suas presenças dependem, exclusivamente, dos aspectos religiosos populares de

121MAUÉS, Raymundo Heraldo. Pajelança e encantaria amazônica. In: Encantaria brasileira: o livro

102 cada localidade. Os habitantes da floresta, das beiradas dos rios e igarapés, que habitam no universo de encantaria, conseguem distinguir-se da presença humana, seja da terra ou das águas, sendo boa ou ruim, para suas vidas. Assim sedo, como poderíamos designar os encantados amazônicos? Reginaldo Prandi afirma que os encantados são pessoas que não morreram. “Os encantados são espíritos de pessoas que um dia viveram e que não morreram, mas se “encantaram”, passando a existir no mundo “invisível”, do qual retornam ao mundo dos homens, no corpo de seus iniciados, em transe ritual”122.

A forma como as pessoas interpretam os encantados varia muito de uma região para outra. Na Amazônia, os encantados são cultuados por ribeirinhos, pescadores e caçadores. Muitos habitantes temem a presença e o contato com os encantados, pois acreditam que ao terem algum tipo de contato com estes seres, tornam-se vulneráveis aos seus poderes. Mas existem aqueles que acreditam que a presença dos encantados é um sinal de proteção para suas vidas e é nos rios, lagos e igapós que se sentem protegidos e, ainda, acreditam que estando nos espaços aquáticos ou nas florestas, estão próximos dos seres encantados. Nesse sentido, para Francelino de Shapanan o que são os encantados?

São divindades que descem ao mundo dos vivos com o mesmo prestígio que os deuses africanos, tendo com estes grandes correlações, relações de respeito e culto quase que paralelos. Para o povo do tambor-de-mina, o encantado não é o espírito de um humano que morreu, que perdeu seu corpo físico, não sendo, por conseguinte um egum. Ele se transformou, tomou outra feição, nova maneira de ser. Encantou-se, tomou nova forma de vida, numa planta, num acidente físico-geográfico, num peixe, num animal, virou vento, fumaça. Está presente entre nós, mas não o vemos. Ele encantou-se e permaneceu com a mesma idade cronológica que tinha quando esse fato se deu123.

Percebe-se, que existem várias versões acerca do que vem a ser os encantados, dentro e fora da Amazônia. Na pesquisa, pude perceber que os encantados tem uma participação muito grande, na vidas das pessoas que habitam

122 PRANDI, Reginaldo. Encantaria de mina em São Paulo.In: Encantaria brasileira: o livro dos mestres, caboclos e encantados. Reginaldo Prandi. (Org).p.217 – 218.

123SHAPANAN, Francalino. Entre caboclos e encantados mudanças recentes em cultos de caboclo

na perspectiva de um chefe de terreiro. In: Encantaria brasileira: o livro dos mestres, caboclos e

103 a região amazônica. Como Didier de Laveleye definem “os encantados e outros invisíveis estão agrupados em linhas ou famílias fundadoras de cada prática religiosa, tal como antepassados míticos de cada etnia africana”124. É evidente a

variação acerca dos encantados dentro e fora da Amazônia. Vejo que a variação depende muito de cada da localidade e, também, das influências internas e externas que os habitantes sofreram com o passar dos anos.

Além dos encantes, existem, ainda, os animais com poderes sobrenaturais que podem proteger, devorar, enganar, hipnotizar ou realizar pactos com os seringueiros. Entre esses animais estão a jibóia, o “sapo campu”125, o veado e o jabuti. Esses são alguns seres com os quais os seringueiros convivem e se relacionam, cotidianamente. Nesse contexto, Antônio Souza de Aguiar nos relata, em seu depoimento, como os seringueiros acreanos realizam acordos com uma entidade da floresta, fato comum entre os seringueiros:

Quando seringueiro encontra um jabuti, com quatorze malhas, na estrada de seringa, ou mesmo quando está caçando em um dia bem cedo, quando ainda não tenha tomado café, estivando em jejum, se ele quiser pode fazer um pacto com bico. O seringueiro não pode levar o jabuti para casa, a mulher e nem os filhos podem saber da existência do bicho. O seringueiro coloca o jabuti na sacupema126 de uma árvore bem grossa e faz um chiqueiro para deixa ele ali e só o seringueiro alimenta ele todos os dias. Toda caça que o seringueiro mata, tira o miúdo (as vísceras) e o sangue e coloca para ele comer e se lambuzar no sangue. É a primeira coisa que o seringueiro faz quando mata um animal é tirar o sangue e o miúdo, para dar para o jabuti. Toda vez que o seringueiro vai caçar e rapidinho mata uma caça grande, é veado, porco até anta, mais tem que cumprir o trato com o bicho caso contrário, se ele for descoberto pela esposa ou o seringueiro deixar de colocar o sangue e o miúdo para o bicho, ao sair

124 LAVELEYE, Didier. Distribuição e heterogeneidade no complexo cultural da “pajelança”. In: Pajelanças e religiões africanas na Amazônia. Raymundo Heraldo Maués (org). p.117.

125 Segundo Luiz Carlos Gomes. História e mitos do Acre. “Especula-se, ainda, que o suor do Campu

pode ser útil, também, na cura de outras doenças. O sapo batizado pelos índios Katuquinas, da região do Juruá é usado há muito tempo por eles e por seringueiros, de uma forma mística. O animal é colocado vivo em uma fogueira para que, aquecido, possa-se extrair do anfíbio uma substância conhecida como leite do Campu.

Com isso, o leite são feitas defumações e injeções, geralmente, no braço, por meio de pequenas feridas feitas, oriundas de queimaduras. O leite, ainda, é colocado nos olhos, para combater mau olhado. Diz a sabedoria popular, que o leite de Campu, a princípio, deixa a pessoa fraca, mas depois dá energia e agilidade impressionantes”.cf.p.32.

126Segundo Luiz Carlos Gomes. História e mitos do Acre. “Sacupema é o mesmo que sapopema vem

104 para caçar não mata mais nada fica panema127 por vários dias, semanas e até meses sem matar nenhuma caça128.

Segundo o relato do seringueiro, essas entidades habitam ou se originam na floresta e guardam algumas características humanas e outras próprias de sua qualidade de encante, ou ser sobrenatural.

Nesse contexto, Luís Eduardo Luna129, em seu estudo, aborda “um universo

múltiplo e povoado por uma gama de seres inteligentes e espíritos, figuras percebidas não como algo totalmente diferente, mas como de alguma maneira, fluidamente ligadas ao mundo natural” 130.

Eles seriam “donos” de seres ou objetos do mundo natural e é possível estabelecer contato com eles, entre outras formas, por meio de plantas de poder.

Percebe-se, então, que a presença de tais entidades, na natureza, torna notável a relação ritualizada com a floresta, as águas e a caça. As atividades cotidianas, como entrar na mata, caçar, cortar seringa, pescar ou relacionar-se com rios, são permeadas por atitudes rituais. Assim sendo, é comum aos seringueiros, ao adentrar na floresta, fazer uma prece ou um pedido de licença para as entidades da floresta.

127Eduardo Galvão Santos e visagens “A panema ou panemice, uma forca mágica, não materializada, que à maneira do mana dos polinésios, é capaz de infectar criaturas humanas, animais ou objetos. Panema é, porém, um mana negativo. Não empresta força ou poder extraordinário; ao contrário, incapacita o objeto de sua ação. Não se trata, propriamente, de infelicidade ocasional, má sorte, azar, mas de uma incapacidade de ação, cujas causas podem ser reconhecidas, evitadas e para as quais existem processos apropriados. Não resulta de um acaso infeliz, mas da infração de determinados preceitos. Um caçador, ou pescador, cujo repetido insucesso não dá margens a atribuí-lo a causas consideradas naturais, isto é, à estação do ano, influência desse ou daquele fator explicável pelo conhecimento adequado do ambiente, acredita que ele próprio, ou um dos instrumentos de que se utiliza, a linha, o anzol, a carabina, estejam empanemados”. cf. p.81-82

128 Entrevista concedida por Antônio Souza de Aguiar , em Rio Branco-AC, no dia 15.01.2011.

129 Luis Eduardo Luna, é antropólogo e pesquisador, observou o uso e os rituais da ayahuasca, na Amazônia. É natural da Florência, concluiu seu doutorado em 1989, no Instituto de Religião Comparada na Universidade de Estocolmo, Atualmente, é professor de línguas na Escola Sueca de Economia e Administração. Luna é conhecido por sua pesquisa sobre o chá Ayahuasca. Sua pesquisa centrou-se no uso tradicional indígena e nas novas igrejas que usam a ayahuasca sincréticas. Tem vários artigos e livros publicados, dentre eles, considero importante para minha pesquisa a obra intitulada “O Uso Ritual da Ayahuasca”. Beatriz Caiuby Labate e Sandra Lucia Goulart de 2007.

105 O sagrado, neste sentido, se faz perceber em rituais cotidianos que marcam as relações entre seringueiros e o mundo imediato ao seu redor. Por exemplo, o caçador deve seguir alguns procedimentos ao caçar e ter um cuidado especial com o animal, já caçado, para continuar a ser um bom caçador, caso contrário, poderá ficar enrascado. Para os seringueiros, ficar enrascado é o mesmo que ficar panema. O autor Eduardo Galvão define a “panema como uma força negativa, que atrapalha a vida dos sujeitos que habitam a floresta Amazônica”131.

As causas da panema são, segundo Almeida:

O caçador pode ficar enrascado, porque levou os cachorros para caçar, na quinta-feira, dia que pertence ao caipora. Ou, então, o caçador fica enrascado quando os ossos ou o sangue do animal que ele trouxe da mata, entram em contato com substâncias como fezes, urina, ou sangue humano e, particularmente, se o animal for consumido por mulheres grávidas ou menstruadas132.

Observa-se, no trabalho de Almeida, que a interferência da panema na vida dos humanos, animais e objetos exerce determinados poderes que, até, podem infectá-los e incapacitá-los para exercer qualquer ação. Existem, na floresta, procedimentos, remédios, banhos, defumações para curar uma pessoa com panema.

131GALVÃO, Eduardo. Santos e Visagens: um estudo da vida religiosa de Itá, Baixo Amazonas. p. 58.

O antropólogo Eduardo Galvão é pioneiro nos estudos dos povos da Amazônia, pesquisou a diversidade religiosa do caboclo amazônico. Seus trabalhos são um marco e o numero dois: Vida

religiosa do caboclo da Amazônia, publicado em 1953 é um livro resultado de sua tese de doutorado,

Santos e visagens: um estudo da vida religiosa de Itá, publicado em 1955.

132ALMEIDA, Mauro William Barbosa de ; CARNEIRO DA CUNHA, M. M.; ELOY, Ludivine ;

Emperaire, Laure ; KATZ, E. ; Simoni, Jane ; Rizzi, R. ; SANTILLI, Juliana ; Van Velthen, L. . L' indication géographique, un instrument de pérennisation des produits localisés en Amazonie? Le cas de la farine de mnioc de Cruzeiro do Sul (Acre, Brésil). In: Localiser les produits : une voie durable au

service de la diversité naturelle et culturelle des Suds, 2009, Paris. Actes du Colloque Internationale "Localiser les Products" MAB-UNESCO, CIRAD,IRD,MNHN. Paris, 2009.

Mauro William Barbosa de Almeida é doutor em Antropologia Social pela Universidade de Cambridge (1993). Atualmente, é professor da Universidade Estadual de Campinas, Coordenador do Programa de Mestrado e Doutorado em Antropologia Social. É diretor do Centro de Estudos Rurais (CERES). Publicou 21 artigos em periódicos especializados (seis em revistas estrangeiras, entre as quais Current Anthropology, Ambio, Daedalus e Journal of Latin American Anthropology) coordena o projeto pesquisa "Populações Locais, Agrobiodiversidade e Conhecimentos Tradicionais na Amazônia Brasileira", em fase inicial. Coordena também projetos de pesquisa com participação de pesquisadores-seringueiros, no âmbito do Instituto da Biodiversidade da Universidade da Floresta (Acre).

106 Não se pode esquecer que estamos falando de uma população que depende da floresta para sobreviver, pois tem nela as fontes de sua alimentação. Para essas pessoas, cortar seringa, penetrar na floresta, caçar, pescar ou limpar um animal morto são atividades diárias. Ou seja, as recomendações e cuidados para com os encantes e para não ficar enrascado, ou enrascar alguém, devem ser observados e seguidos, cotidianamente. Assim, a partir destas observações, Eduardo Galvão constata que:

Aspectos do campo religioso permeiam o mundo real e são vivenciados e acionados em ações cotidianas. Há uma humanização da natureza, alguns seres da natureza são dotados de personalidade e preferências. Eles são capazes de se relacionar, realizar trocas e pactos. Os seres sobrenaturais, bem como os encantes, são, ao mesmo tempo, fonte de poder e de perigo para os seringueiros e caboclos133.

Ao aprofundar a pesquisa, pude constatar que a floresta é um local respeitado e temido. Tem-se com ela uma relação de dependência, que é indispensável manter equilibrada e o equilíbrio é assegurado a partir do respeito às regras, sem a menor possibilidade de transgredi-las. As características apontadas revelam uma profunda unidade entre a natureza e os seres humanos.

Atividades como a caça, a pesca e o uso do ambiente natural e de seus recursos estão envoltos por relações de poder. Daí, a importância de se obedecer às normas para preservar a harmonia das relações. Os seringueiros estabeleceram relações profundas com a natureza, integração que é vivida de maneira plena pelos indígenas, os donos da terra.

Um dos caminhos para essa integração com a natureza, foi o da assimilação, pelos seringueiros, de certos costumes indígenas, como de comer sem sal, as mulheres darem a luz no mato, entre outros.

As relações seringueiros e indígenas são múltiplas, com os índios “mansos”, integrados no mundo dos brancos, mais tranqüila. A relação com os “brabos”, não integrados é mais complicada. São temidos por seus feitiços e ataques às colocações de seringa. A fala de João Prudêncio da Costa, nos diz muito das relações do seringueiro com a natureza.

Quando eu morava na colocação de seringa, a mata era tudo pra mim. Era dela que tirava o meu sustento e o sustento da minha família. Quem mora

133GALVÃO, Eduardo. Panema. Uma crença do caboclo amazônico. In: Roberto da Matta. Ensaios de antropologia estrutural: o carnaval como um rito de passagem. p. 222.

107 na mata conhece todos os seus mistérios. A mata é muito bonita, mais viver nela, requer muito cuidado, porque existe quem protege a mata, os

animais e os pássaros. Se ficar muito atento, a gente conhece o período

das frutas, a época boa de caçar e esperar, de fazer o cacuri, fazer o roçado e cortar seringa. Tudo tem seu tempo no seringal. Sempre respeitei as entidades da mata. Nunca matei animais só por matar, nunca matei uma seringueira por perversidade. Quem pensar que viver na mata, é viver como sendo absoluto dono de tudo, está muito enganado, tem que saber viver e viver em harmonia.134

Analisando a fala do entrevistado, percebo o profundo respeito pela floresta e por quem zela por ela. O rico imaginário desses homens se constituiu por um processo dinâmico de hibridações, marcado pelo encontro do catolicismo popular com suas devoções junto a rica cosmologia dos habitantes da terra.

O culto aos santos está imerso nesse universo encantado, entrecortado por forças benéficas e maléficas. Culto que enriquece o forte universo religioso amazônico. Os santos populares acompanham a população, no seu dia a dia, são invocados para livrá-los de perigos e ciladas.

A forma local de reverenciar e cultuar os santos populares guarda semelhanças no modo de cultuá-los, em outras regiões brasileiras. No Acre, há atividades e festas, nas quais pessoas se reúnem para rezar terço; comemorações juninas com fogueiras, pratos típicos, festejos; e novenas ou novenários, destinados aos santos populares da floresta.

A presença da Igreja Católica, no Alto Acre, durante muitos anos, resumiu-se a algumas viagens anuais, feitas pelo padre, “desobrigas”135. Ocasiões em que os

134 Entrevista concedida por João Prudêncio da Costa, em Rio Branco-AC, no dia 12.01.2011.

135 Padre Paulino Baldassari, da Congregação Servos de Maria, incardinado na Diocese de Sena

Madureira-Acre chegou no Acre na década de 1960.

Escreveu um sugestivo livro, intitulado Medicina da floresta, fruto de suas andanças pelos seringais acreanos. Ele explica bem o que vem a ser a desobriga. “As desobrigas são o principal mecanismo de pregação e manutenção da fé dentro dos seringais e meio de levar os ensinamentos da Igreja Católica, para milhares de famílias que moram no interior dos seringais acreanos. O atendimento das famílias é feito a bordo de pequenas embarcações que percorrem os rios Acre, Purus, Iaco e Caeté. As distâncias eram imensas, o período poderia durar até seis meses, em alguns trechos o percurso era realizado a pé, a cavalo e de barco. As viagens eram e são realizadas uma

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