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2. Méthodologie de conception d’outil

2.1. Les modèles

A mordedura canina representa o tipo de lesão decorrente de punção mais frequente na prática clínica de pequenos animais. Neste caso, o objeto perfurante corresponde a um dente, mais propriamente o canino. As lesões por punção caracterizam-se por apresentar danos aparentes reduzidos. No entanto, as mordeduras podem originar esmagamento, rutura ou avulsão dos tecidos afetados, sendo o grau de lesão superior nos tecidos subjacentes, isto é, nas camadas tecidulares mais profundas, do que no próprio local de mordedura. Tal ocorre uma vez que a pele possui maior mobilidade a nível superficial e a pressão da mordedura é elevada (150 – 450 psi). É comum a ocorrência de múltiplas lesões. Os locais mais afetados são a região cervical, os membros, a cabeça, a região torácica, a região da articulação escapulo-umeral, o abdómen e a região perineal (Fowler & Williams, 1999; Fossum et al, 2013).

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Quando existe suspeita de mordedura, as regiões abrangidas deverão ser sempre submetidas a tricotomia para avaliação integral da extensão das lesões. As feridas resultantes de mordedura deverão ser sempre exploradas e desbridadas, o que poderá implicar a sedação do animal. Se as feridas não são exploradas, poderão surgir, num período de 24-48h, complicações associadas ao trauma do tecido profundo (Fowler & Williams, 1999; Fossum et al, 2013; Aldridge & O’Dwyer, 2013).

O sialocelo está descrito como sendo uma sequela passível de ocorrer em casos de mordedura da região cefálica (Bellenger & Simpson, 1992).

Nos confrontos que envolvam cães de grande porte e de pequeno porte, são aplicadas forças compressivas e de tensão (Aldridge & O’Dwyer, 2013). As lesões poderão ser graves o suficiente para afetar as cavidades corporais. As lesões torácicas poderão ser complicadas pela fratura de costelas e pneumotórax e associadas a laceração de tecidos, designadamente dos músculos oblíquos e intercostais. A nível abdominal poderão surgir sequelas como rutura da parede abdominal e perfuração das vísceras, nomeadamente intestino, bexiga, ureteres e rins. Na região cervical é frequente a perfuração das vias aéreas superiores, com subsequente produção de enfisema subcutâneo, que implica um procedimento cirúrgico imediato com o fim de reestabelecer a via aérea (Shahar et al, 1997; Fowler & Williams, 1999; Wuestenberg, 2012; Fossum et al, 2013; Aldridge & O’Dwyer, 2013; Ettinger et al, 2016).

O pneumotórax representa a acumulação de ar entre a pleura parietal e a pleura visceral. Pode classificar-se como sendo aberto – o ar entra no espaço pleural através de uma solução de continuidade, a ferida – ou fechado – o ar alcança o espaço pleural devido a lesão do mediastino. O pneumotórax de tensão refere-se à acumulação de ar via o efeito de válvula de uma só direção, permitindo a entrada mas não a saída do mesmo. A acumulação de ar (e da pressão) no espaço pleural condiciona a expansão pulmonar (ventilação) e dificulta o retorno venoso, resultando no comprometimento severo dos sistemas respiratório e cardiovascular (Beal, 2002; Ettinger et al, 2016).

O ‘flail chest’, fenómeno frequentemente observado no exame clínico de animais agredidos, representa, para além do penumotórax, uma condição que também poderá surgir nos casos de trauma torácico por mordedura. Este fenómeno pode ser descrito como o movimento paradoxal respiratório de um segmento torácico instável ou dever-se à fratura de duas ou mais costelas consecutivas, em dois locais (ventral e dorsal). O movimento paradoxal respiratório resulta na alteração das pressões intrapleurais. Após a inspiração, a pressão intrapleural decresce, permitindo, desta forma, a expansão dos pulmões e um movimento do tórax em direção ao exterior. Devido à sua instabilidade, o segmento torácico afetado não acompanhará a restante região torácica, aquando da inspiração, movendo-se de forma inversa. O reverso ocorre para a expiração (Beal, 2002; Wuestenberg, 2012; Ahn et al, 2016).

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A fratura de costelas é, também, relativamente comum após um trauma torácico decorrente de uma agressão entre cães. A parede torácica é relativamente resistente, pelo que será necessário que ocorra um trauma considerável para originar a fratura de costelas. Quando tal ocorre, o animal padece de dor intensa, que poderá cursar com perturbação da ventilação, e, caso as costelas fraturadas se deslocam internamente, tal poderá suceder em perfuração pulmonar (Beal, 2002; Ettinger et al, 2016).

Após trauma torácico, a combinação de uma ventilação desadequada, de lesões torácicas concorrentes, do aumento do espaço pleural, no caso de lesão pleural, e da dor associada poderá culminar em hipoxemia e hipoventilação (Beal, 2002).

A mortalidade associada a lesões por mordedura é inferior a 10% e ocorre, mais frequentemente, em lesões da região cervical e torácica, subsequente a infeção da área de lesão ou trauma concorrente, nomeadamente, rutura de estruturas vitais – artérias, veias e traqueia – e pneumotórax. (Fossum et al, 2013).

A ferida resultante da mordedura apresenta-se contaminada com a flora oral do animal agressor, bactérias, pelos e outros detritos provenientes da pele e meio ambiente. A desvitalização do tecido afetado, o espaço morto criado, o comprometimento do suprimento sanguíneo e a acumulação de seroma estabelecem, em conjunto, um ambiente ótimo, promotor da proliferação bacteriana, sinergístico para o crescimento bacteriano anaeróbico. Assim, a infeção pode surgir se houver um tratamento retardado da lesão. É comum isolar- se das áreas de lesão as seguintes bactérias aeróbicas: Pasteurella multocida, Staphylococcus spp., Enterococcus spp., Bacillus spp., e Escherichia coli. As bactérias anaeróbicas passíveis de se encontrar na lesão incluem: Clostridium spp. e Corynebacterium spp.. A infeção pode agravar-se após contaminação com Mycobacterium ou Sporothrix sp. As cefalosporinas e penicilinas estão contempladas como opção de antibioterapia, uma vez que possuem um grande espectro de ação e alcançam rapidamente o local de lesão após administração endovenosa. As fluoroquinolonas poderão considerar-se no caso de ser confirmada a presença de bactérias Gram negativas. Poderá administrar-se metronidazol no caso de suspeitar-se de uma infeção por agentes anaeróbicos (Fossum et al, 2013). O uso de antibióticos profiláticos como a ampicilina, amoxicilina, trimetropina, sulfametoxazol e gentamicina estão também descritos (Shamir et al, 2002).

Para além da contaminação da lesão com agentes bacterianos incorporados na saliva do animal agressor, é possível a ocorrência de transmissão, via mordedura, de microorganismos vários. Uma investigação que integra 269 cães de tipo fenotípico pit bull, recolhidos de locais onde são instigadas lutas caninas, conjetura a possibilidade de transmissão de micoplasmas hemotrópicos através das mordeduras infligidas (Cannon et al, 2016). Destacam-se ainda o vírus da raiva e os protozoários leishmânia e babésia. No que respeita ao vírus da raiva, a

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doença habitualmente tem origem na mordedura de um animal infetado contendo o vírus na sua saliva (Greene, 2012). Após a ocorrência da mordedura, o tratamento das lesões deverá ser agressivo. A lavagem imediata e completa da ferida de mordedura mostrou-se eficaz na redução da disseminação da infeção pelo vírus da raiva. O etanol (no mínimo a 43%) ou as soluções comerciais de povidona-iodada podem ser aplicadas topicamente no caso de feridas abertas. As áreas de mordedura também deverão ser irrigadas com elevadas quantidades de uma solução de clorexidina a 20% ou com um composto de amónio quaternário, sob pressão. A concentração ótima de cloreto de benzalcónio, um composto de amónio quaternário, mostrou ser de 1% a 4%. No entanto, a maioria dos desinfetantes hospitalares comerciais tem uma concentração de 0,13%. As feridas de punção profunda podem ser limpas efetivamente através de irrigação com recurso a uma seringa (Greene, 2012).

No que concerne à veiculação de protozoários, uma publicação recente retrata um caso de leishmaniose canina na Alemanha, país considerado não endémico para esta zoonose, corroborando a possibilidade de transmissão direta de Leishmania infantum, através da mordedura, num cenário de agressão direcionada a outros cães (Naucke et al, 2016). Um outro estudo, respeitante a lutas promovidas entre cães, especula a eventualidade da transmissão de Babesia gibsoni também através da mordedura (Yeagley et al, 2009).

Uma investigação respeitante ao encaminhamento de crianças para a consulta de emergência, constatou que, em casos de mordedura canina, as lesões faciais são mais comuns em crianças jovens (Horwitz and Mils, 2009). Um estudo efetuado nos Estados Unidos concluiu que a maioria das mordeduras infligidas em humanos ocorre em crianças, na região craniana, na região cervical ou na face. Nos adultos as lesões surgem predominantemente nas mãos (Guy et al, 2001 (c)), face, região cervical ou membros inferiores. As mordeduras imputadas por cães de porte superior comportam um risco elevado de lesão de estruturas vitais (Oehler et al, 2009). As lesões resultantes de mordedura podem contemplar uma associação de microorganismos aeróbios e anaeróbios (Pasteurella canis, Streptococcus spp, Staphylococcus spp, Fusobacterium spp, Bacteroides spp, and Capnocytophaga canimorsus). Infeções graves poderão ocorrer em 20% dos casos. As lesões ao nível das mãos apresentam um risco superior de desenvolver infeção, enquanto que a região do pescoço e cabeça possuem maior probabilidade de cursar com lesão grave em crianças, sendo a fratura craniana, hemorragia intracraniana, danos na região torácica e estruturas vasculares e nervosas da região cervical, condições que poderão cursar com mortalidade elevada (Oehler et al, 2009).

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