No Museu das Culturas Dom Bosco-MCDB (UCDB) e no Centro de Cultura Padre Rodolfo Lunkenbein-CCPRL as exposições demonstram a união circular das metades que compõem a aldeia Bororo, cuja paisagem em locais planos e com poucas construções que modifiquem ou impeçam a vista, o céu é uma abóbada, cujos extremos estão a nascente e ao poente, onde se encontram céu, terra e água.
A circularidade se completa pelas metades exógamas, que recebem o nome de Eceráe e Tugarége, e constam de quatro clãs, cada uma, e respectivos sub-clãs, tendo ao centro, um pátio de circulação coletiva. Sylvia Cayubi Novaes, assim explica:
A circularidade é algo extremamente presente no cotidiano da vida Bororo. É com um movimento circular do braço estendido que eles apontam para o céu, indicando, através da posição do sol, ou da estrela Vênus, a hora do dia a que querem se referir. A própria cartografia Bororo concebe o território desta sociedade tendo como limites vários acidentes geográficos que se dispõem de modo a formar um grande círculo.
[...] registrei em 1975, os pontos geográficos do território Bororo que são enumerados pelo cantador, que vai indicando com o braço estendido a sua localização, começando pelo Rio São Lourenço, indo gradativamente enumerando outros lugares conhecidos, até o ponto em que o sol nasce, continuando a enumerá-los até o local do sol poente, quando o cantador terá completado o círculo em volta de si mesmo, e terminado o canto.
Outras formas de expressão da circularidade, como bem aponta Viertler (1978:63), são as coreografias das danças funerárias, a roda da cerimônia do marido (buriti), a forma descrita pelos zunidores agitados no ar e as táticas de guerra, que envolvem círculos concêntricos em volta do inimigo. (NOVAES, S. C. 1983, p. 01).
Albisetti & Venturelli (1962, p.434-437), mostram que a aldeia Bororo tem forma circular com um diâmetro, quando completa, de 100 metros. Evidentemente este pode ser maior ou menor, segundo os imperativos de uma comunidade mais ou menos numerosa.
A cartografia das aldeias é a referência conceitual das exposições nos museus salesianos, no caso, na T.I Meruri, o Centro de Cultura Padre Rodolfo Lunkenbein - CCPRL, Sala de Expressão da Cultura Koge Ekureu; e, na exposição na cidade de Campo Grande - MS no Museu das Culturas Dom Bosco-MCDB (UCDB). Contudo ressalto que da aldeia tradicional ao conceito expositivo, deste último, foram
empreendidas experiências e exercícios estéticos que levaram a estilização da idéia inicial.
Na página seguinte (Figura 47) pode-se observar uma aldeia circular, cuja fotografia da coleção da pesquisadora Sylvia Caiuby Novaes, data de 1971.
Na sequência se observa uma maquete, que suponho, foi construída em uma das oficinas de educação patrimonial e museológica realizada no final dos anos de 1990, na Aldeia Central da T.I. Meruri, por ocasião de criação do Centro de Cultura Padre Rodolfo Lunkenbein – CCPRL e respectiva exposição elaborada pela comunidade Bororo, com os artefatos dispostos nas “casas clânicas”, construídas com esteiras trançadas, no piso e encostadas as paredes do entorno da Sala de Expressão da Cultura Koge Ekureu (Figura 48).
A exposição de etnologia Bororo, no Museu das culturas Dom Bosco-MCDB (UCDB), (Figura 49), foi objeto de profissionais de arquitetura, museologia e outros, portanto está apresentada em um croqui. As vitrines horizontais são circulares e subterrâneas, protegidas por vidro grosso. Nessas foram acomodados objetos de uso cotidiano (caça, pesca, coleta, preparo de alimentos e cuidados com o corpo).
A outra vitrine, também horizontal e subterrânea foi construída em linha reta, e “corta” o círculo em duas partes, como na aldeia: o semi-circulo norte, pertence às mulheres Eceráe e o semi-círculo sul, à metade das mulheres Tugarége. Portanto, a vitrine que separa as duas partes foi intitulada “caminho das almas” e recebeu objetos rituais, que fazem as interlocuções sócio-culturais e evolutiva da pessoa Bororo: o nascimento, os ritos de passagens, o funeral, o luto e o encaminhamento da alma ao seu destino.
As demais vitrines são verticais, construídas em vidro e compõem com transparência o arranjo estilizado dos 08 (oito) clãs, correlatos a organização social da aldeia Bororo. Nestas vitrines, foram acondicionados os objetos musealizados, tendo por categoria cada clã, com suas particularidades de gênero, idade e funções coletivas; além da primazia sobre a fauna e a flora do ambiente onde vivem os Bororo do Mato Grosso; com seu imaginário, simbologia e signos que retroalimentam a cultura Bororo, portanto os objetos (patrimônio cultural material) dotados de referências culturais imaterias deste povo.
Figura 47. Aldeia Bororo (Boé Ewa). Fotografia: Sylvia Caiuby Novaes, 1971. Disponível em http://pib.socioambiental.org/pt/povo/Bororo/243. Acesso em 08 out. 2013.
Figura 48. Exposição Bororo e Maquete. Centro de Cultura Padre Rodolfo Lunkenbein-CCPR. Aldeia
Central da T.I Meruri. MCDB (UCDB). Fotografia: Jocenaide M. R. Silva, nov. 2012
Figura 49. Exposição Bororo e Croqui. Museu das Culturas Dom Bosco - MCDB (UCDB).
Fotografia: Jocenaide M. R. Silva, mar. 2011.
A orientação tradicional da aldeia é norte-sul, determinada pelo eixo maior da casa dos homens (baíto ou bái mána gejéwu) ou seja, a choupana central. Na parte a
oeste dessa choupana central há uma larga e indispensável passagem: o caminho do zunidor ou caminho dos atores (aíje rea ou aróe e-réa) utilizado pelos homens em momentos solenes.
A construção começa, segundo a lenda, pelo Bái mána gejéwu ou
baìto, forma comum usada pelos Bororo para designar a casa dos homens, que determina o centro do círculo e que tem seu eixo maior na orientação Norte-Sul. Seu eixo menor, Leste-Oeste, divide a aldeia em duas metades exógamas: Eceráe e Tugarége, mas também divide na ordem contrária o seu interior: a metade dos homens Eceráe fica dentro da metade Tugarége e vice-versa.
Sobre a separação principal dos partidos, Eceráe - Tugarége, é que está assentada toda a ordem de igualdade e complementaridade dos
Bóe. Cada metade representa quatro clãs, e cada clã, por sua vez, três sub-clãs. (PORTOCARRERO, 2001, p.35)
Na Sala de Expressão da Cultura Koge Ekureu; Centro de Cultura Padre Rodolfo Lunkenbein – CCPRL, localizada na Aldeia Central da T.I. Meruri, município de Barra do Garças – MT, apresenta ao centro da sala expositiva, uma vitrine octogonal, construída em madeira, vidro e tendo ao centro um grosso tronco de árvore. Na vitrine estão preservados objetos repatriados da Itália. Sendo essa interpretada por Aramis Luis da Silva como uma associação ao baíto ou baimanagejeu (casa dos homens):
Para finalizar a composição da metáfora plástica instalada no conjunto arquitetônico, um mastro em madeira atravessa a vitrine ligando o chão ao teto da sala (e da casa dos homens imaginária). Seria por meio desse pilar, que tradicionalmente ficaria no centro das casas dos homens Bororo, que os aroe (espécie de almas antepassadas) desceriam ao mundo dos vivos. Neste pilar foram também afixados objetos rituais que expressam outro dualismo Bororo. Do lado leste da madeira, uma pana, instrumento de sopro e insígnia do herói mítico
Itubore, que rege o lado oriental. A oeste, um ika, outro instrumento músical associado ao herói bakororo. Encerrando a instalação museográfica, um esplendoroso pariko usado para simbolizar a beleza e a vitalidade de uma cultura viva afixado no topo desse tronco central, antes elo entre mundos. (SILVA, A. L. 2009, p.44-45)
No universo cultural Bororo, as referidas metades, Eceráe e Tugarége, que dão forma e sentido à cosmologia humana, são elementos tradicionais da memória coletiva. Bem como a casa dos homens (baíto ou bái mána gejéwu) que foi interpretada pelos salesianos como centro do poder religioso nativo. Esses também se referem ao desenho circular da aldeia e os padres Albisetti & Venturelli registram a explicação mitológica na Enciclopédia Bororo (1969, p. 04-05), conforme resumo a seguir:
Contam os antigos, que o pai de Meríri Póro flechou o espírito Jakómea Kujagureu, por ira contra os pescadores da aldeia, que debocharam de seu filho. Essa atitude provocou uma “grande inundação”, dividindo a aldeia em duas metades, Ecerae e Tugarege.
Naquele dia, quando o rio transbordou e inundou a aldeia Bororo, salvou-se somente Meríri Póro, no morro Toroári (conhecido nas imediações de Cuiabá, na atualidade, como Morro de Santo Antônio) de posse de um tição aceso (madeira em brasa). Com este tição Meríri Póro aqueceu as pedras e jogou-as na agua, fazendo com que essa evaporasse pelo calor dos seixos, retornando ao seu curso normal, e, permitindo a Meríri Póro, salvar-se, mas não ao seu povo.
Meríri Póro vagou sem rumo, até encontrar uma fêmea de Pobógo (veado) e com ela teve filhas, que eram animais, como a mãe; contudo, com partos sucessivos, foram surgindo seres mais humanos e belos, assim em breve a terra repovoou-se de muitos Bororo.
As primeiras grandes aldeias do passado foram Arua Bororo e Arigao Bororo. Ao desenvolver pesquisas baseadas no material mítico Bororo, Vietler ( 1976; 1987), informa que estes não permitem uma análise da fusão e coligação política de cada aldeia, mas contribui para os indícios da história do povo Bororo e da ocupação territorial, baseada na política tradicional. Bem como os mitos não permitem uma análise das aldeias de cada clã, mas permitem uma referência sobre as áreas de explorações exclusivas de cada clã.
As áreas de exploração de cada clã e de construção e re-construção de novas aldeias, na atualidade, seguem orientações tradicionais: as metades complementares do círculo estabelecem relações com o móri, ou seja, num sistema de retribuição, recompensa e pagamento que tratarei na parte III, da tese.
A escolha do terreno se pauta na proximidade com as já existentes, considerando os parentescos e a tendência em aproveitar os recursos das aldeias já abandonadas. O terreno escolhido deve ser suavemente inclinado na direção Oeste, onde deve também, circular um curso d’àgua. As aldeias são circulares, como “antes da inundação”, e continuam a circunscrever aproximadamente 100m de diâmetros, como observaram os salesianos no final do século XIX.
Todavia, em alguma medida o processo de construção das aldeias vem se modificando, devido às interferências características do capitalismo, do sedentarismo, das instituições sociais (escola, igreja) e outras variáveis que modificam o uso do tempo, os ofícios e modos de fazer, as formas de expressão, as celebrações, os lugares e edificações na aldeia.
Construir uma nova aldeia requer tempo e recursos adequados, numa tarefa coletiva. Portanto, exige mudanças na rotina escolar, de caça, pesca, plantação de roças e confecção dos artefatos rituais e artesanato. Requer também, veículos, equipamentos e maquinários para as tarefas mais pesadas das construções. Exige ainda ações políticas do Coordenador Técnico Local – CTL, antigo chefe de posto, para viabilizar o apoio da Fundação Nacional do Índio – FUNAI e outras instituições de apoio aos indígenas.
Para além do Coordenador Técnico Local – CTL, que é um cargo instituído pela FUNAI, sendo o representante eleito pelos indígenas, existem nas aldeias os Caciques, que são funções tradicionais e podem ser eleitos pelos moradores ou mesmo indicados pelos mais velhos. Nesse caso, quando indicados pelos mais velhos, os Caciques que denotam qualidades especiais podem se tornar Chefes da Cultura, devido ao conhecimento das tradições que buscam acumular.
Na atualidade os chefes são eleitos por tempos breves. Estas lideranças usam da tradição para se relacionarem com seus pares e de mecanismos aprendidos na relação com os não índios. Por exemplo, nos últimos tempos se intensificarem as negociações para receberem benesses, sendo as trocas realizadas com os missionários, com a Fundação Nacional do Índio-FUNAI, com autoridades políticas e com os compadres das cidades vizinhas e de outras localidades, como do estado do Rio de Janeiro e São Paulo, além de pessoas de outros países.