Hybrida@on des Ressources 1994
2.3.2. Les constats
Dos documentos levantados referentes ao plano de Batatuba, três estão sendo considerados para a sua análise: dois estudos e o plano final . Os demais materiais são levantamentos e rascunhos que têm como base aquela planta final e serão oportunamente apresentados. Todo o material foi obtido no Centro de Memória Jindrich Trachta em Batayporã.
Mesmo sem indicação de autoria77, local ou data, é possível identificar claramente a
filiação dos três desenhos principais aos planos anteriormente apresentados para uma cidade
76 A citada obra foi apresentada com o intuito de se obter um empréstimo junto às autoridades italianas.
77 A planta final contém uma assinatura à margem da folha, mas seu autor ainda não foi identificado. Cabe ressalvar
industrial ideal desenvolvidos pelo escritório central de arquitetos da Cia. Bata em Zlín. No caso de Batatuba, o modelo de Zlín certamente utilizado foi aquele, já apresentado, de Richard Podzemny, de 1937. Por associação, a provável sequência cronológica das três plantas de Batatuba citadas começaria no esboço que mais se assemelha ao projeto de Podzemny, e em cuja folha há um carimbo no idioma tcheco com campos não preenchidos78, seguida pelo segundo
esboço, de desenho mais arredondado e implantação vizinha do rio Cachoeira. Este último se direcionaria formalmente para a solução da planta final , desenhada a nanquim.
Figura 104 Richard Podzemny. Modelo de cidade industrial ideal , 9 . NOVAK.
Figura 105 Estudo para Batatuba, [s.d.]. Centro de Memória Jindrich Trachta.
78Carimbo do tipo usado em pranchas projetuais, com campos como Navrhoval Proposta , Kreslil Desenhada ,
Kontroloval Verificada , Schv|lil Aprovada , Kopiroval Copiada etc. Um carimbo muito semelhante aparece na reprodução de pranchas projetuais de habitações, produzidas em Zlín, no livro de Pavel Novak (1993: p.e. 36, 40, 43 etc.).
Figura 106 Estudo para Batatuba, [s.d.]. Centro de Memória Jindrich Trachta.
O conceito embutido no projeto da cidade ideal de Bata parece se concretizar em formas, tipologias e funções fundamentais, pré-definidas e intercambiáveis – edificações, usos, viário, que são esquematizados e reagrupados conforme a necessidade do local onde se implantará o núcleo industrial. Como as habitações de Zlín, dispostas like scattered Legos (como Legos
espalhados) (SHAW, 2007).
Esta estandardização é levada ao seu termo em Batatuba: uma comparação com o projeto de Podzemny e os dos núcleos de Partizanske (Batovany, Eslováquia) e Sezimovo Usti (Rep. Tcheca) leva a diversas correspondências. Esta consistência nas soluções ao longo dos projetos, como diria Maria Topolcanska (2005b), é tal, que, mesmo na falta de informações mais detalhadas, arriscamo-nos a identificar a função de alguns edifícios propostos em Batatuba, realizando uma análise comparativa entre a planta de Batatuba e as plantas daquelas cidades.
Figura 108 Plano de Batatuba a nanquim, 1948, adaptado com legendas a partir de plantas de cidade ideal em Novak (1993). Centro de Memória Jindrich Trachta/ Georgia Carolina C. Costa.
A organização urbana descreve-se basicamente por eixo central que se configura como um grande parque linear estruturador e ao longo do qual se dispõem os edifícios de caráter público/coletivo, como escolas, hotéis e internatos para moças e rapazes; de ambos os lados deste eixo e em posição diagonal a ele, formando a imagem aproximada de uma mariposa, partem malhas de ruas onde estão dispostos os setores privados/ domésticos de moradias com áreas para comércio local e para estacionamento de carros de moradores.
Na extremidade superior do eixo/ parque localiza-se o Hospital, e na outra, a Praça do Trabalho, na qual se situam um edifício de escritórios, o Centro Comunitário e a Loja de Departamentos – que não poderia faltar, dada a natureza do trabalho da Companhia. Desta rótula representada pela Praça do Trabalho, segue um conjunto de edifícios – Cinema, teatro, possivelmente Prefeitura, com estacionamentos, que se conecta a outro eixo, perpendicular ao Parque: o setor de edifícios industriais/ fabris. Este setor industrial tem um Instituto Social, um edifício administrativo, as fábricas e, dado interessante, um setor para artesãos , e se desenvolve paralelamente aos eixos de circulação extra-urbanos, locais de passagem das matérias-primas: a rodovia de um lado, e o ramal próprio de via férrea e o curso d |gua- o rio Cachoeira, aqui retificado – de outro.
Para uma autêntica f|brica entre jardins , como Tomas Bata preferira desde os anos 1920 (SLAPETA, 2009: 57), as massas vegetais não poderiam deixar de serem indicadas. O verde separa as habitações unifamiliares entre si, dispostas alternadamente em lotes de dimensões generosas; separa as zonas habitacionais das institucionais e estas da industrial. O parque, estruturador, completa o paisagismo – com um templo religioso em seu interior.
O complexo esportivo se divide entre as quadras recreativas, contíguas ao núcleo efetivamente construído, e a enorme Piscina - que mais aparenta um lago (única edificação legendada) - na cota mais alta do terreno, junto a algumas nascentes existentes no local. Para completar, uma horta experimental ao largo da composiç~o, para abastecer a cidade industrial.
Figuras 109, 110 Piscinas em Mohlin e em Zlin, [193-]. Arquivo D. L. Arambasic e NOVAK.
Ao contr|rio de afirmar que do plano de Batatuba enquanto cidade ideal foi executada apenas uma pequena parte, a rigor pode-se dizer que quase nada foi construído. As áreas em negrito do plano urbano e a visitas às edificações remanescentes permitem identificar o que foi efetivamente construído. É de se notar que este trecho apresenta certa independência em relação ao plano geral: encaixa-se neste, mas dele parece não fazer parte. Se levarmos em consideração a data das construções e a data expressa na margem da folha a nanquim,
.X)). , podemos ser levados a concluir que o plano para a cidade industrial foi desenvolvido enquanto sua semente j| germinara e estava em funcionamento. Não é possível, ainda, afirmar em que local teria sido elaborado o Projeto da Cidade e Fabricas da Cia SAPACO para Comercio e )ndustria , pois como afirmado no capítulo anterior, as mudanças ocorridas no escritório central de arquitetos da Cia. no pós-guerra alterou sua direção e seu quadro de arquitetos79, portanto, apesar do carimbo numa das plantas apresentar-se no idioma tcheco,
existe a probabilidade de sua elaboração ter-se dado fora de Zlín.
No Instituto Geográfico e Cartográfico do Estado de São Paulo (IGC) foram obtidas fotografias que retratam o momento de construção das unidades habitacionais, do alojamento dos solteiros, da fábrica, da residência de Jan Bata e da escola. São imagens datadas de 194380.
Um antigo álbum de fotografias, de propriedade da Escola Estadual Siqueira Campos (em Batatuba , aponta claramente a data da Escola Mista de Batatuba , mostrando que esta j| estava em funcionamento em 1942. Em algumas das fotos é possível identificar habitações ao fundo. Daí infere-se que os demais edifícios no núcleo já deveriam estar erigidos neste mesmo ano.
Figuras 111-115 Momentos da construção do núcleo fabril de Batatuba, [ago. 1943]. Instituto Geográfico e Cartográfico do Estado de São Paulo.
Figura 116 Escola Mista de Batatuba. Presença de Jan Bata nas comemorações do Dia 15 de Novembro e cerimônia de Primeira Comunhão realizada na escola, 1942. E. E. José Siqueira Campos.
Segundo informou o Novidades , uma seção de construção de Batatuba estaria sob responsabilidade de João Kaspar, mas sobre ele ou sobre o tcheco Bajgar (integrante do primeiro grupo a chegar ao Brasil) ainda se carece de informações precisas. Documentação levantada no Centro de Memória Jindrich Trachta a respeito das expedições de desbravamento da Gleba Samambaia (propriedade da CVSP-MT no antigo Estado do Mato Grosso, região do atual
79 Em 1948 Vladimir Karfik e Frantisek Gahura deixaram Zlín e Jiri Vozenilek tornou-se o novo líder do escritório de
projetos (SLAPETA, 2009: 66).
município de Batayporã/ MS) informa que João Kaspar esteve envolvido tanto naquela expedição quanto na construção de equipamentos agroindustriais81 no oeste paulista. Segundo
informa Ludmila Arambasic, a seção de construção de Batatuba seria responsável por novas construções e também pela manutenção das casas e da fábrica (ARAMBASIC, 1997).
A fábrica de calçados teria se mantido em funcionamento enquanto era administrada por Jan Bata, até sua morte em 1965, e depois por seu filho Jan Tomas até 1977. Após, a empresa passaria a ser dirigida por familiares e antigos funcionários, e sua produção aparentemente decaiu, tendo sido decretada sua falência em 1983, num processo dificultado por questões de regularização fundiária que impedem o leilão público das terras da empresa para pagamento de
dívidas (PIRACAIA HOJE, 2005; NASSER, 2006) e que se estende até os dias atuais - em 2010 a massa falida da Cia. SAPACO encontrava-se sob gestão de Luis Henrique Bueno (PIRACAIA HOJE, 2005: 06).
Quanto à preservação deste conjunto e de sua história, ressalte-se a importância dos remanescentes do núcleo industrial de Batatuba informada, em âmbito local, pelo Plano Diretor do município de Piracaia, do qual Batatuba faz parte como distrito. O lugar figura no plano diretor, artigo , como Zona de Preservaç~o (istórico-Cultural ZP(C , cuja denominaç~o insere Batatuba numa área non aedificandi circular de seiscentos metros de diâmetro onde estão incluídos os edifícios fabris, a antiga residência de Jan Bata e o núcleo residencial remanescentes. O local, gleba de terras e edificações pertencente { antiga empresa de sapatos SAPACO , também é considerado pelo mesmo documento, artigo , como Zona de Especial )nteresse Social ZE)S , que preconiza funcionar para operar intervenções urbanas de interesse social notório que favoreçam a populaç~o local , sendo nele previsto o uso habitacional (PIRACAIA, 2007).
Figuras 117-119 Vistas de Batatuba, 2009-2010 - Casas. Geórgia C. Capistrano da Costa.
81 No caso, equipamentos relacionados ao beneficiamento de arroz e ao abastecimento de água. Pastas com
documentos da Companhia Viação São Paulo- Mato Grosso. Espécie de resumo de telegramas trocados entre João Kaspar (São Paulo) e pessoa não identificada (Batatuba), de numeração 250, entre 09 a 13 de setembro de 1943, no idioma tcheco. Tradução da pesquisadora.
Figuras 120-122 Vistas de Batatuba, 2009-2010 – Antigos Escola, Clube e Armazém/ loja. Geórgia C. Capistrano da Costa.
Figuras 123-125 Vistas de Batatuba, 2009-2010 – Antigos Restaurante, Edifício habitacional para solteiros/ hotel, Galpões fabris. Geórgia C. Capistrano da Costa.