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Les approches pour la virtualisation syst` eme

Tomar as qualidades da linguagem realistas como um fator confirmatório para a tese do realismo parece ser justamente o movimento que Psillos adota em Scientific realism: How science tracks truth: alternando entre recomendar o framework realista e assumir as qualidades do framework como um fator confirmante da adoção da tese do realismo. Tanto é assim que a sequência do seu argumento assume a forma de um argumento de indispensabilidade. Ou seja, mesmo reconhecendo a possibilidade (retórica) de que a questão possa ser interpretada como uma escolha de linguagens, essa escolha não é tão livre como Carnap gostaria. A linguagem mais adequada é a do realismo e tal escolha não seria ‘arbitrária e convencional”, mas, ao final, ‘inevitável”:

Convenções envolvem decisões, mas essas decisões não são necessariamente arbitrárias. Se faz sentido dizer que podemos escolher uma linguagem, a escolha da linguagem é sempre relativa a um objetivo. Linguagens são configuradas e escolhidas, se for o caso, para comu- nicar, transmitir certas informações ou capturar certos fatos. Agora, relativo ao objetivo para o qual queremos a linguagem, nem todas as escolhas de linguagem são igualmente boas. Suponhamos que enfrentemos uma escolha entre um framework linguístico que admite con- ceitos teóricos a um que não. Suponha-se, por exemplo, que enfrentemos uma escolha entre uma linguagem (uma que admite termos teóricos que pretendem se referir a entidades não observacionais) e uma linguagem na qual teorias são formuladas sem termos teóricos (por exemplo, uma linguagem na qual teorias do estilo do teorema de Craig são formuladas). A escolha entre os dois frameworks está longe de ser arbitrário e convencional. (Psillos, 1999, pp. 43, 44)

Creio que alternância de Psillos [entre recomendar a linguagem realista e asserir que isso é uma confirmação da tese realista] é consequência de que ele considera o framework linguístico como a cópula entre framework e sua aplicação. A irrazoabilidade argumentada por Psillos em rejeitar o conjunto forma de linguagem e condição de adequação é, portanto, produto dessa vinculação. Para Carnap, uma forma de linguagem é, de início, um cálculo não-interpretado e, nesse sentido, é de livre construção, justamente por estar inicialmente desvinculada das condições de aplicação. Como vimos, para ele “a introdução do framework é legítima em qualquer caso” (Autob. Intel. [1963], p. 65). Mesmo que a deci- são final sobre a escolha seja relacionada aos objetivos — e é, nesse sentido, convencional (aquilo que é acordado/estabelecido por uma decisão baseada em certos critérios) — a construção da linguagem é, ao menos inicialmente, desvinculada deles. Somente após a determinação dos objetivos, as “condi- ções de adequação” desses objetivos e a linguagem proposta, é avaliada, e, nesse caso, a legitimidade é contabilizada e restrita.

Há certas concordâncias entre a análise de Psillos e a de Carnap, mas para uma adequada exposição dessas concordâncias, é preciso que algumas suposições implícitas de Psillos sejam detalhadas e esclarecidas.

Como vemos, para Psillos, uma vez definidos os objetivos para determinada linguagem, nesse caso, uma linguagem para formalizar a ciência, não todas as escolhas de linguagens estão em pé de igualdade por não ser igualmente boas ou adequadas em vistas dos seus propósitos. Sopesando as qualidades auxiliares das linguagens alternativas em comparação com a realista, aquela realista apresenta- se como a única escolha possível e é, portanto, a opção decisiva: “em relação ao objetivo de explicar fenômenos observáveis, a escolha é decisiva: apenas um framework realista tem os recursos para explicar adequadamente os fenômenos” (Psillos, 1999, p. 44). Até esse ponto não há ainda discordâncias entre Psillos e Carnap, com a necessária ressalva sobre a forma com que essas conclusões são alcançadas: como derivada de uma avaliação prática, ou como uma avaliação teórica.

Uma imputação parece imiscuída nesse argumento de Psillos. Ao que parece, ele atribui indiretamente a Carnap a defesa de que as escolhas entre linguagens sejam arbitrárias. Embora ele seja cuidadoso em não fazer menção direta a Carnap, mas a Feigl,251o fato do comentário aparecer em meio a outras críticas à neutralidade de Carnap, e mais especificamente sobre a concordância entre Carnap e Feigl nesse ponto específico (o caráter convencional da escolha do framework), sugere que essa seja a imputação. Se esse for o caso, ao menos nos que diz respeito a Carnap, é uma imputação incorreta.

A sugestão de Carnap de que o debate entre realistas e instrumentalistas possa ser resolvido, ou dissolvido, pela avaliação das motivações pragmáticas para escolhas de linguagens poderia, à primeira vista, até mesmo indicar uma importância exagerada da atitude de decisão sobre tal escolha, ou ainda promover a impressão de que essa decisão seria arbitrária. Ou seja, que qualquer linguagem poderia ser escolhida com igualdade de condições, ou sem derivar diferentes consequências. Ao perscrutarmos ESO [1950], fica claro que, de um ponto de vista geral, não é o caso que toda e qualquer escolha seja considerada adequada e que, portanto, para Carnap, ela possuiria um caráter arbitrário.

Carnap não é um defensor da arbitrariedade no que diz respeito ao produto final da escolha de linguagens em relação a sua adequação como ferramenta para descrever a ciência. Essa leitura poderia ser sugerida a partir de uma interpretação limitada a primeira parte do Princípio de Tolerância — “Atri- buamos àqueles que trabalham em algum campo especial de investigação a liberdade para usar qualquer forma de expressão que lhes pareça útil” — em isolamento da segunda. Ou caso fosse atribuído um valor exacerbado apenas à primeira operação em detrimento da segunda. A segunda operação, a segunda parte do Princípio — “o trabalho nesse campo conduzirá mais cedo ou mais tarde à eliminação daquelas formas que não possuem nenhuma função útil” — não pode ser negligenciada para uma compreensão satisfatória da proposta, a saber, a tarefa de avaliar a “adequação” da alternativa linguística considerada de acordo com os objetivos estabelecidos.

251O trecho anterior omitido da citação: “Quão ameaçadora para a contundência persuasiva da posição realista é a

afirmação de Feigl de que a escolha do framework do realismo empírico é, em última instância, convencional?” (Psillos, 1999, p. 44)

A consideração das duas operações com peso equivalente é inclusive útil para esclarecer a primeira formulação do Princípio de Tolerância em Logical Syntax [1934], que, lida de forma isolada, soa breve, ou mesmo obscura:

Princípio de Tolerância: não é nossa tarefa estabelecer proibições, mas chegar a convenções (1934b, §17, p. 51)

Ou seja, não é tarefa do filósofo criar proibições anteriores a qualquer escolha de lingua- gens, mas “chegar a convenções”, ou seja, explorar as diferentes formas de linguagens possíveis e, desse modo, estar em condição de avaliar aquelas que melhor cumprem os objetivos determinados. A primeira operação, correspondente à primeira parte do Princípio de Tolerância, prescreve a liberdade de escolhas das linguagens. Essa liberdade, contudo, é restrita somente à primeira operação.

Essa primeira operação conduz a certos compromissos derivados das capacidades intrínse- cas dessa linguagem. Nesse ponto, configura-se a segunda operação — que não goza da mesma liberdade da primeira. A segunda operação envolve a avaliação da “adequação” desses métodos para o entendi- mento, no caso, da ciência, e — assim como na escolha dos métodos de análise semântica em Meaning and Necessity [1947], p. 203 — essa operação não é de natureza puramente lógica, mas também em- pírica.252 Dito de outro modo, a liberdade da primeira operação é posteriormente contabilizada pela avaliação das qualidades das formas de linguagem com respeito aos objetivos prescritos. A exploração desses compromissos e das suas consequências é funcional para a demonstração dos melhores métodos, os “mais adequados”, para a explicação proporcionada pela linguagem da ciência.

O “oceano ilimitado de possíveis linguagens” permitido pelo Princípio de Tolerância não é, nesse sentido, irresponsável. Ao contrário, apesar de sua permissividade, as linguagens são sempre contabilizadas pela sua capacidade de modelar uma descrição adequada da ciência.253Portanto, seguindo a citação anterior de Psillos, Carnap concordaria com todas as afirmações até o limite da última frase, na qual uma afirmação carnapiana seria que a escolha final entre os dois frameworks está longe de ser arbitrária, mas mesmo assim não deixa de ser produto de uma convenção. Essa convenção, entretanto, é sempre contabilizada em função dos objetivos prescritos. A liberdade de escolha proporciona o benefício de que um sistema completamente desviante possa, no futuro, mostrar-se útil para estabelecer a base para a linguagem da ciência (cf. Found. Log. Math. [1939], p. 28), mas esse sistema completamente desviante precisa ser, ao final, funcional.

A tarefa não é decidir qual dos diferentes sistemas é ‘a lógica correta’, mas examinar suas propriedades formais e as possibilidades de sua interpretação e aplicação na ciência. Pode ser que um sistema que se desvia da forma comum se torne útil como base para a linguagem da ciência. (Found. Log. Math. [1939], p. 28)

252Atitude semelhante aparece em ESO [1950], p. 203, onde a escolha pela linguagem das coisas é contabilizada pelo seu

alto grau de eficiência para a maioria das afirmações cotidianas. Nesse sentido, como bem nota Psillos, há concordâncias entre Carnap e Feigl.

253“For any given calculus there are, in general, many different possibilities of a true interpretation. The practical situation,

however, is such that for almost every calculus which is actually interpreted and applied in science, there is a certain interpretation or a certain kind of interpretation used in the great majority of cases of its practical application. This we will call the customary interpretation (or kind of interpretation) for the calculus (Found. Log. Math. [1939], p. 171)”

Outra ocasião onde Carnap é particularmente claro sobre essas duas tarefas do Princípio de Tolerância é no Appendix de Int. to Semantics [1942], §39, 247:

O princípio da tolerância (talvez melhor chamado de “princípio da convencionalidade”) […] é ainda mantido. Ele afirma que a construção de um cálculo e a escolha de suas ca- racterísticas particulares são uma questão de convenção. Por outro lado, a construção de um sistema de lógica, isto é, as definições para os conceitos-L, dentro de um dado sistema semântico, não é uma mera convenção; aqui, a escolha é essencialmente limitada se os con- ceitos forem adequados […]. E se um sistema semântico 𝑆 for fornecido, a construção de um cálculo 𝐾 de acordo com 𝑆 também não é puramente convencional; em alguns aspec- tos, os recursos de 𝐾 podem ser escolhidos arbitrariamente, em outros aspectos eles são predeterminados por 𝑆 (Int. to Semantics [1942], p. 247)

Portanto, Carnap não está defendendo que todas as escolhas linguísticas são igualmente boas em relação a cumprir seus objetivos. Mas que elas não podem ser avaliadas sem a referência a essas motivações. As motivações práticas não são convencionais no sentido de ser completamente arbitrá- rias.254Elas podem sofrer a influência indireta de argumentos racionais que qualificariam a adequação de determinada forma de linguagem em relação aos objetivos desejados. Portanto, caso a indicação de Psillos seja a de que Carnap considera que a escolha pela linguagem é, de modo geral, ou seja, também em conjunção com os objetivos, arbitrária, — como a citação anterior parece sugerir — essa crítica passa ao largo de ser uma crítica que possa ser feita a Carnap.