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III. L’INTERACTIVITE DES ACTEURS

III.1. LES ACTEURS

Os que deram o pontapé na pesquisa moderna do livro de Jeremias foram

Bernhard Duhm97 e Sigmund Mowinckel98. Durante o ápice da crítica antiga, Duhm,

em 1901, procurou estabelecer um critério para dividir o material original do material ulterior no livro de Jeremias. Ele sugeriu que o livro é composto por escritos autênticos de Jeremias juntamente com narrativas biográficas de Baruque e uma coleção de material oriunda de redatores deuteronomistas exílicos e pós-exílicos influenciados pela teologia do Deuteronômio e pela reforma josiânica.

97

Bernhard Duhm, Das Buch Jeremia, KHC 11, Tübingen, J. C. B. Mohr, 1901, 391 p.

98 Sigmund Mowinckel, Zur Komposition des Buches Jeremia, Kristiania, J. Dybwad, 1914, 68 p. Veja

um breve resumo sobre este período da pesquisa em Otto Eissfeldt, The Prophetic Literature, em H. H. Rowley (ed.), The Old Testament and Modern Study: A Generation Of Discovery and Research, Oxford, Clarendon, 1951, p. 151-153.

A despeito de alegar que apenas os materiais poéticos tivessem a sua origem em Jeremias, Duhm atribuía poucos de seus versos ao próprio profeta. Em relação à prosa, considerava somente a carta aos exilados, no capítulo 29, como originária de Jeremias. Baseado no comentário de Duhm, Mowinckel em 1914 propôs a existência de três fontes diferentes na obra de Jeremias. A primeira, denominada fonte A, seria composta por oráculos originais de Jeremias utilizados na proclamação pública e disponibilizados em estilo poético sem a presença de material introdutório ou fórmulas conclusivas. Tal material dispunha-se ao longo dos capítulos 1–25 entre passagens em prosa.

A segunda fonte, tipo B, dispõe de material histórico e pessoal em estilo biográfico. A maior parcela do material tipo B, segundo Mowinckel, encontra-se entre os capítulos 26–29 e 34–45, onde se constata uma variedade de detalhes circunstanciais introduzidos por dados cronológicos e escritos na terceira pessoa. A princípio, Mowinckel não atribuía a autoria desse material a Baruque, e sim a um grupo que sobreviveu à morte do profeta no Egito, por volta dos anos 550-450 a.C. Para Mowinckel, Baruque seria simplesmente um escriba sem nenhum envolvimento direto nas atividades do profeta. No entanto, após alguns anos, o autor reviu sua posição, e

admitiu a notável contribuição de Baruque para a composição do livro de Jeremias.99

A terceira fonte, intitulada C, revela discursos em prosa, num estilo retórico repetitivo e prolixo, acompanhados de diversas expressões estereotipadas. Esse material tem sido responsável por um dos maiores dilemas críticos acerca do livro de Jeremias (a unidade dos caps. 7,1–8,3 encontra-se dentro desse material). Mowinckel não vê sua origem em Jeremias, mas sim em redatores e editores posteriores. Esse material, que apresenta certa similaridade com a linguagem do deuteronômio, por isso chamada de prosa deuteronômica ou deuteronomista, está espalhada ao longo da obra de Jeremias, em alguns momentos introduzindo as seções poéticas (nos capítulos 1–25 e 30–33), em outros, colocados entre seções bibliográficas (caps. 27; 29,16-20; 32,17-44; 34,12-22; 35,12-17). Mais tarde, Mowinckel falou de três camadas de tradição, em vez de três

fontes literárias distintas.100

99

Veja Sigmund Mowinckel, Prophecy and Tradition: The Prophetic Books in the Light of the Study of

the Growth and History of the Tradition, Oslo, I Kommisjon Hos Jakob Dybwad, 1946, p. 61-63. Confira

também uma síntese acerca da variedade de opiniões sobre a composição da fonte B e seu valor histórico em J. A. Thompson, The Book of Jeremiah. The New International Commentary on the Old Testament, p. 38-43; William Lee Holladay, A Fresh Look at “Source B” and “Source C” in Jeremiah, em Vetus

testamentum, Leiden, Brill Academic Publishers, vol. 25, n. 2a, 1975, p. 394-412.

100 Sigmund Mowinckel, Prophecy and Tradition: The Prophetic Books in the Light of the Study of the Growth and History of the Tradition, p. 61-63.

A obra de Mowinckel vem influenciando a pesquisa moderna desde então. No entanto, tal aceitação não pôde ofuscar as críticas a seu trabalho, sobretudo, em relação às fontes B e C. Deixaremos de lado a questão da fonte B, pois extrapola o escopo de

nossa pesquisa.101 Quanto à fonte A, pouco tem sido contestada pelos pesquisadores;

geralmente é aceita como material genuíno do profeta102

– embora pairem algumas suspeitas quanto à designação de alguns trechos ao profeta ou até mesmo quanto à possibilidade de se recuperar ou conhecer Jeremias por meio dos escritos contidos no

livro.103

Além disso, a hipótese de Duhm baseada em um único padrão de acento tônico para definir os oráculos autênticos de Jeremias é de difícil aceitação, visto que o profeta parece não estar limitado poeticamente e faz uso de grande diversidade de acentos tônicos em seus oráculos poéticos. Jeremias não pode ser colocado numa camisa de força literária, como se tivesse sido capaz de produzir versos só num único ritmo poético. Nosso profeta era versátil e livre para proclamar sua mensagem. Contudo, isso não inviabiliza a hipótese da existência de material poético anônimo posterior que

delineou a forma final do livro.104

A fonte classificada por Mowinckel como C estaria disposta, segundo ele, como sermões em prosa no estilo deuteronomista e com ênfase no Deuteronômio, e apresenta uma longa história de transmissão, que teria iniciado logo depois da morte do profeta

até que todo o material fosse recolhido como um livro completo.105 Devido à

complexidade do livro de Jeremias, diversas hipóteses foram formuladas em relação ao processo de compilação e de composição da obra.

101 Veja uma boa discussão sobre esse assunto em J. A. Thompson, The Book of Jeremiah. The New International Commentary on the Old Testament, p. 38-43.

102

Veja Carolyn J. Sharp, Prophecy and Ideology in Jeremiah: Struggles for authority in Deutero-

Jeremianic Prose, London/New York, T&T Clark, 2003, p. 1.

103 Uma exceção quanto à atribuição da fonte A a Jeremias está no trabalho de Robert P. Carroll, Arguing

About Jeremiah: Recent Studies and the Nature of a Prophetic Book, em J. A. Emerton (ed.) Congress

Volume, Leuven 1989, Leiden: Brill, 1991, p. 222-235. Em seu comentário de Jeremias, Carroll procura

não levar em conta o que podemos conhecer ou recuperar do profeta em si. Para ele o material deuteronômico se impõe sobre a poesia; dessa forma, o material prosaico passa a ser decisivo e determinante, sendo entendido como a intencionalidade primária do livro em sua forma final. Tal proposta minimiza o interesse na pessoa do profeta destacando que o livro é uma poderosa declaração ideológica que faz uso da herança do profeta, a quem não podemos ter acesso direto. Veja Robert P. Carroll, Jeremiah: A Commentary, Philadelphia, Westminster, 1986, 874 p.

104 Deixaremos de lado em nossa discussão as questões que envolvem a natureza das “confissões de

Jeremias”, atestada por Mowinckel como material autêntico tipo A, por não estar dentro dos limites de nossa pesquisa. Veja uma breve discussão sobre esse assunto em J. A. Thompson, The Book of Jeremiah.

The New International Commentary on the Old Testament, p. 38.

105 Sigmund Mowinckel, Prophecy and Tradition: The Prophetic Books in the Light of the Study of the Growth and History of the Tradition, p. 62-63.

Muitos pesquisadores adotaram posições diferentes quanto ao relacionamento histórico dos materiais poéticos A com os sermões prosaicos C. Um debate interminável cerca o tema da extensão da redação deuteronomista no livro. Alguns enfatizam a similaridade entre o material do tipo C e a linguagem deuteronomista. Todavia, o material do tipo C tem vocabulário e expressões estilísticas que não somente contrastam com a linguagem deuteronomista, como também são próprios de Jeremias. Ademais, algumas características do material tipo C estão presentes no material tipo A (os oráculos proféticos e poéticos). Essas diferenças na linguagem abrem caminho para várias abordagens interpretativas, bem como para diversas possibilidades de reconstruir

o “Jeremias histórico”.106

Sendo assim, a pesquisa moderna desenvolveu um grande leque de propostas a

fim de lidar com a questão da composição do texto de Jeremias.107 Pelo menos três

modelos interpretativos foram desenvolvidos dentro do extenso universo de pesquisa acerca do material prosaico C em Jeremias. São eles: o “modelo de uma coleção

rolante”108,.na qual a poesia produz o comentário prosaico num processo não

sistematizado, o “modelo da redação sistemática radical”109; e o “modelo histórico

simples”110, complementado por esporádicos acréscimos redacionais. A seguir,

procuraremos sintetizar as ideias principais de algumas obras que fazem parte do universo de modelos interpretativos no estudo do livro de Jeremias.

106 Para uma amostra recente das diferentes abordagens, veja os artigos em A. R. Pete Diamond; Kathlen

M. O’Connor; Louis Stulman (eds.), Troubling Jeremiah, Sheffield, Sheffield Academic Press, 1999, 463 p.

107 Confira as teorias de composição de Jeremias em Benjamin D. Sommer, New Light on the

Composition of Jeremiah, em Catholic Biblical Quarterly, Washington, Catholic Biblical Association of America, vol. 61, n. 4, 1999, p. 646-666. Também uma lista de estudos recentes sobre o livro de Jeremias em Bernhard Lang (ed.), International Review of Biblical Studies, Leiden/Boston, Brill, vol. 55, 2010, p. 107-112.

108

William Mckane, A Critical and Exegetical Commentary on Jeremiah: Introduction and Commentary

on Jeremiah i-xxv, Edinburgh, T&T Clark, vol. 1, 1986, 658 p.

109 Winfried Thiel, Die deuteronomistische Redaktion von Jeremia 1–25, Neukirchen-Vluyn,

Neukirchener Verlag, 1973, 331 p. Também do mesmo autor Die deuteronomistische Redaktion von

Jeremia 26–45, Neukirchen-Vluyn: Neukirchener Verlag, 1981, 138 p. Assim como Ernest W.

Nicholson, Preaching to the Exiles: A Study of the Prose Tradition in the Book of Jeremiah, New York, Schocken, 1970, 154 p. Também Karl Friedrich Pohlmann, Studien zum Jeremiabuch: Ein Beitrag zur

Frage nach der Entstehung des Jeremiabuches, FRLANT 118, Göttingen, Vandenhoeck & Ruprecht,

1978, 229 p. E por fim, Christopher Seitz, Theology in Conflict: Reaction to the Exile in the Book of

Jeremiah, Beihefte zur Zeitschrift für die alttestamentliche Wissenschaft 176, Berlin, de Gruyter, 1989,

329 p.

110 John Bright, The Date of the Prose Sermons of Jeremiah, em Journal of Biblical Literature, Atlanta,

Society of Biblical Literature, vol. 70, n. 1, 1951, p. 15–35.Veja Helga Weippert, Die Prosareden des

Jeremiabuches, BZAW 132, Berlin, de Gruyter, 1973, 256 p., também J. A. Thompson, The Book of Jeremiah. The New International Commentary on the Old Testament, 819 p., bem como William Lee

Holladay; Paul D. Hanson, Jeremiah 1: A Commentary on the Book of the Prophet Jeremiah, Chapters 1-